Projeto Fotográfico 6 On 6 / Me & You / Rascunhos Da Vida

Quem sou eu, quem é você? Sabemos quem somos, para além das marcações corporais imagéticas? Ou somos as experiências que vivemos? O que versamos sobre o que vemos? O que mentimos sobre os nossos sentimentos como se criássemos uma personagem que nos identifica como ser? Ao mesmo tempo, estamos enquadrados por perspectivas alheias à nossa vontade. E muito de nossa vontade é moldada pela a Realidade que nos propõe um sistema que geralmente aceitamos como padrão. Aqui, para quem vier a me ler — você — verá rascunhos da minha vida que dou por conhecer por minhas palavras e através das imagens que colhi por onde passei ou fiquei nos últimos dez anos.

In Planet Of The Apes… (2020)

A primeira foto data de 2014. Treinava regularmente. Faz três anos, justamente em janeiro, que não entro em uma academia. O ritmo de trabalho aumentou tanto que não tive mais tempo para sentir a dorzinha gostosa da atividade física regular. Quando estou em casa, me dedico a escrever ou a realizar tarefas caseiras. Quando subiu a primeira imagem, de seis anos antes, percebi que usava a mesma camiseta — uma das minhas favoritas. Registro feito, apesar de ser fiel às minhas velharias, não imaginava que a ela fosse tão antiga. Já o velho, tenta viver um dia de cada vez  In Planet Of The Apes


Sobre cabelos (2019)

Subo ao coletivo, passo a catraca, sento-me junto à janela, a qual deixo entreaberta para sentir o vento e me refrescar neste dia quente. Começo a suar mais do que devia e percebo que a janela do meu lado estava fechada. Imaginei que tivesse acontecido pelo movimento do ônibus. Voltei a abri-la. Mais alguns minutos, a vejo novamente fechada. Estranhei e olhei para o banco de trás, onde havia uma moça que sorriu amarelo e murmurou: “o vento estava bagunçando o meu cabelo…”. Realmente, ela estava com os fios retos postos lado a lado como se fossem desenhados. Sorri de volta, outro sorriso amarelo. Não tive coragem de revelar a ela que a sua maquiagem, devido ao calor, estava escorrendo um pouco…


“Olha a planta!”… (2017)

Ouvi o pregão, a ser entoado havia já algum tempo. Varria o quintal, vestido apenas com um roupão e vi passarem frente ao portão vazado, em pequenos passos, aquela figura totalmente inesperada nesta manhã de domingo. Personagem único, o vendedor de plantas — aliás, bastante vistosas — apesar de sua condição difícil, não se permitiu ficar plantado, mas sim a distribuir exemplo de vida e vitalidade por onde se conduzia. Antes tivesse tentado chamá-lo, apesar da minha vestimenta, para prestar a minha homenagem, saber mais sobre ele e suas plantas, adquirir alguma… Arrependimento registrado, espero reencontrá-lo dia desses…


A
  crise
    nunca
        vem
          sozinha…
               apenas
                   a
pombinha
      apartada
           dos
             seus….


CÍRCULO DA LUA (2013)

Na manhã de sábado, enquanto caminhava rumo à academia, observei uma concentração incomum de urubus (pela quantidade, os tenho chamado de pomburubus) sobrevoando bem alto a área do Piscinão do Guaraú. Talvez tivesse uns quarenta ou mais, voando em círculos em torno de um ponto mais claro no céu azul. Para a minha surpresa, se tratava da Lua em seu último quarto. Foi um benefício adicional ao meu esforço de voltar à atividade física. No céu da cidade de São Paulo é raro a vermos, mesmo à noite, já que as luzes artificiais impedem que o nossos olhos alcancem o belo astro para além da prisão luminosa em que estamos.

Os urubus são seres fascinantes! Tom Jobim, igualmente, quedava extasiado com as elegantes circunvoluções dessas aves necrófagas. No entanto, o voo alto é uma das formas que esses seres buscam alimento. São importantes na limpeza do meio ambiente — quando alguns animais morrem por doença, por exemplo — o urubu ajuda a controlar a epidemia devorando as suas carcaças. Possui uma envergadura de 2,40 m e peso que oscila de 3 a 5 kg, medindo cerca de 85 cm de comprimento. Na Natureza, tem poucos predadores naturais, mas, devido à sua baixa capacidade reprodutiva, além da degradação do seu habitat, é uma espécie cada vez mais rara de se observar. O que significa que nós passamos a ser seus predadores…

No foi o caso desse dia, onde a revoada de tantos entes alados fazia lembrar um bom filme B. Aquela área onde os tenho observado em número cada vez maior, o Piscinão do Guaraú, recebe os rios canalizados da região, impedindo que as águas do vale invadam o também canalizado Rio Guaraú, que desemboca no Rio Tietê. Todo o lixo orgânico e anorgânico que é jogado ou cai nos esgotos da região se espraia por todo o perímetro dele, tornando-se um verdadeiro “fast food” para eles. Ou seja, de uma maneira enviesada, estamos proporcionando um verdadeiro criadouro para os membros da espécie Sarcoramphus papa (L.).

São as voltas que vida dá…


PICTÓRICO (2013)

Ontem, a chuva faltou ao nosso encontro diário. Ela era nossa assídua companheira desde que começou 2013 e, para arrematar a tarde seca, o Sol nos deixou com a promessa de que voltaria no dia seguinte, com toda a pompa e circunstância — anúncio que, de fato, se cumpriu. Gosto de ver a luz solar refletir-se nas fimbrias do horizonte, a iluminar as construções, a produzir desconstruções de linhas e perfis no relevo. Já postei várias fotos desses momentos do entardecer em que vejo a luz comemorar o seu poder transformador. De início, o tom amarelado ajudava a dourar as casas de alvenaria e tijolos aparentes, no morro adjacente à minha casa. Passado algum tempo, no entanto, chamou-me a atenção, quando o astro já estava quase totalmente recolhido, o azul que substituía a paleta terrosa. Conjecturei que o ângulo de inclinação de sua luz, ao refletir no céu, azulava pictoriamente tudo em seu entorno. Logo, o assombro tomou conta dos meus olhos e, o anil, de toda a paisagem.

Participam: Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Silvana Lopes / Roseli Pedroso

Imprevistos Previsíveis*

Neste último sábado, Humberto e eu, pela Ortega Luz & Som, trabalhamos em um evento em Ribeirão Pires. Era o aniversário do Guidu, ao qual intitulou de Guidustock, em referência a Woodstock, fá de rock que é. Além da muito boa Banda Caxamblues, o Elvinho foi a outra atração, da qual fizemos a sonorização e iluminação. Chegamos mais tarde do que gostaríamos, mas com o tempo necessário para fazermos a montagem com uma antecedência confortável.

Quando iniciei a minha atividade de prestador de serviços na área de eventos, trabalhava para uma banda que me deu a experiência de que o imprevisto é sempre possível ocorrer. Então, para nos anteciparmos ao previsível imprevisto, sair antes do horário pode evitar maiores tribulações. Na quinta-feira, foi assim, em um evento em Vargem Grande, perto de Jundiaí. No caminho, na Rodovia Tancredo Neves, há 15 minutos de chegarmos, o cabo do acelerador da Tímida (uma de nossas Kombis) quebrou. Paramos no acostamento, o Humberto trocou o cabo e 45 minutos depois, chegávamos ao destino. O evento foi realizado com sucesso e decidimos usar a outra Kombi para o evento de ontem.

Para provar que tudo está por um fio, eis que em determinado ponto da longuíssima Avenida Jacu-Pêssego, o cabo da Tigresa quebrou, também… Qual seria a chance? A chance do previsível imprevisto, tanto que o Humberto disse na quinta que poderia acontecer, o que refutei. Costumo brincar que a minha positividade a la Lippi se contrapõe ao “Oh, vida! Oh, azar!” do meu irmão Hardy. Para quem não gosta de rotina, é um prato cheio o que fazemos. Somos como ciganos ou trabalhadores circenses que vão de um lugar ao outro, montando o acampamento ou a lona do circo. Enfim, a última imagem (a despedida do palco do Elvis (Elvinho) mostra que tudo ocorreu muito bem. Foi um sucesso! Cada vez mais me apaixono por meu trabalho…

*Publicação de janeiro de 2022

Ciúme*

Na imagem, atrás da Bethânia, quase despercebida, a carinha da Indie, que foi doada.

Ciúme, o seu nome é Maria Bethânia. Quando começo a acarinhar as outras, ela logo se põe a protestar veemente. Chega a morder a minha mão e atacar fisicamente as demais do grupo, não importando os tamanhos dos alvos, diante de sua contrariedade desmedida.

Quando quero chamar a sua atenção ou quando a chamo e ela não me atende imediatamente, uso sempre o expediente de passar a mão pelas cabeças das amigas, o que é suficiente para transformá-las em oponentes, vindo em nossa direção, a enfrentá-las, ainda que saiba que são maiores e mais fortes do que ela.

De onde deriva esse ciúme, afinal? Sou aquele que não deve dividir a minha dedicação e zelo com mais ninguém? Ela se sente minha proprietária? Um sentido de territorialidade natural exacerbada talvez explicasse a sua reação, no entanto, o seu cuidado não se estende tão fortemente à sua cama nem ao pote de comida, aliás, quase nada.

A contrariar o fato aceito de que somos a nós a possuí-los (a determinar-lhes o destino), quem decide levar a cabo os melhores cuidados a esses seres especiais, sabe que somos nós a sermos possuídos por eles. Será que chegam a ter consciência que seja um pecado sério dispensar atenção a mais alguém além deles, da família dos canídeos e de outros seres humanos?

O meu desejo de expressar em palavras as minhas suposições foi motivada por um episódio. Quando fui à casa da minha irmã, que mora ao lado, logo na entrada acarinhei a Vitória e a Dominique. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir um latido lastimoso vindo da minha varanda. Lá estava a Bethânia, a demonstrar o seu desacordo em relação à minha afetividade por aquelas que conheço há anos. O seu olhar era quase desesperado. As suas orelhas eriçadas quase tocavam o céu!

Maria Bethânia foi resgatada da rua por uma das minhas filhas humanas a pedido da minha companheira, Tânia. Em direção ao trabalho, ela a viu a correr sem rumo por nossa vizinhança e quase entrar debaixo de seu carro, condoeu-se de sua condição. Era um sentimento novo para ela, que nunca foi tão achegada aos cães. A experiência de acompanhar a Dorô em sua jornada de combate ao câncer que finalmente a vitimou, lhe trouxe a inesperada percepção da nossa imensa conexão com esses seres únicos.

O meu interesse pela origem do ciúme de Maria Bethânia é quase antropológico – no sentido que o cão é um ser que tem, ao longo dos tempos, adquirido comportamentos assemelhados ao do Homem. De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa, então, de maneira mais acintosa. Amor, ciúme, posse — onde começa um e termina outro?

Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos; se a sua base é espiritual ou físico-química; se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, principalmente os mais próximos de nós, “aculturados”, possa dizer muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revela-nos animais básicos ou, basicamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…

*Texto de 2017, constante de meu primeiro livro de crônicas lançado pela ScenariumREALidade

Tempo, Temporal…

As últimas notícias vindas de Londres informam sobre a ocorrência de um frio excepcional como há muito tempo não se registrava. Aliás, as sucessivas notificações nos últimos tempos demonstra que os parâmetros climáticos tem se alterado sucessivamente nas últimas décadas, dando picos positivos e negativos nos termômetros de temperatura. Mas isso seria como avaliarmos a saúde de uma pessoa através do peso, sem a avaliação do estado geral do organismo. No caso do Clima da Terra, o padrão qualitativo demonstra significativa decadência da normalidade que indica este planeta como amplamente habitável. É bem possível que grandes faixas dos cinco continentes se tornem inóspitos nas próximas décadas pela intervenção direta dos habitantes que se colocam como acima de quaisquer outros seres que que habitam o terceiro planeta desde o Sol.

Há dez anos, em 2014, publiquei no Facebook um comentário acerca das notícias sobre a variação climática de então: “Reclamação total contra o excesso de calor, enquanto no Canadá as pessoas morrem de frio dentro de suas casas! Prefiro muito mais os nossos 33ºC positivos (em SP) do que os 17ºC negativos do país do Norte. Eu sou um cara que ama o calor. Suo com gosto, sabendo que esse é um processo natural do nosso corpo para refrigerar a pele e reequilibrar a nossa temperatura. Uso o ventilador apenas para afastar os pernilongos, ávidos por meu sangue que será usado na reprodução de seus descendentes. Não gosto de venenos que alterem o cheiro ao meu redor. Ou seja, sou um chato! De qualquer forma, alguns reclamam do calor, porque ainda não perceberam que a razão é outra — ainda não se encontrou um aparelho que ventile a dor… de sermos humanos…”.

A Libélula

Ao abrir a porta que dá para a garagem, me deparei com uma libélula que, feito um helicóptero animal, parou no ar por uns três segundos e pareceu avaliar o que seria aquele ser diante dela. Desceu ao chão e repentinamente tomou o seu rumo incógnito. Era um inseto bem mais escuro e maior do que eu já vira e, mesmo em casa de tantas plantas, bastante incomum. Aliás, eu não me lembro de tê-las visto antes por aqui. Como seus voos podem durar de alguns minutos como dias, acredito que fosse do tipo migratório e que tenha vindo de uma reserva da Mata Atlântica, que fica a uns 3Km de onde moro.

Fui lá pesquisar sobre a libélula:

“A libélula, também conhecida popularmente como tira-olhos ou libelinha em Portugal e como lavadeira ou jacinta no Brasil, é um inseto alado pertencente à subordem Anisoptera. É considerado um dos primeiros insetos a surgir na Terra. Os registros fósseis de libélulas mais antigos foram encontrados na França e datam do período Carbonífero, há cerca de 300 milhões de anos. No Brasil, os fósseis datam do período Cretáceo (há aproximadamente 100 milhões de anos). ”. Wikipédia

Ou seja, é um inseto que carrega consigo o peso das idades terrenas, que vive de 5 a 56 dias. Devido ao seu processo de mutação (dentro e fora d’água), está relacionado a mudanças, transformações e capacidade de adaptação. Em alguns países, como no Japão, a libélula é associada à felicidade, coragem e prosperidade. Na América, o inseto significa a renovação nos períodos de dificuldade.

Na Bíblia, as libélulas são mencionadas em passagens como Êxodo 10:19 e Isaías 34:14. Essas referências podem ser interpretadas como símbolos de transformação, proteção divina e ação de Deus na Natureza.

“O termo ‘libélula’ pode ter se originado de dois termos latinos: libellules, o diminutivo de ‘livro’ (liber) – devido à semelhança de suas asas a um livro aberto – ou libella, que significa balança – enquanto voam, as libélulas parecem uma balança, se mantendo em perfeito equilíbrio.

As libélulas são insetos predadores que pertencem à ordem Odonata. A estrutura corporal das libélulas permite que elas sejam caçadoras implacáveis. Elas voam mais rápido do que a maioria dos outros insetos. E, podem mudar instantaneamente a direção do voo, pairando no ar como minúsculos helicópteros. Por permitirem uma visão panorâmica (360 graus), seus grandes olhos são capazes de localizar presas acima, abaixo, em frente, atrás e de ambos os lados. Esses animais exercem papel importante no controle biológico de pragas e atuam como bioindicadores de qualidade ambiental. Além disso, são protagonistas de numerosas crenças e tradições que habitam a imaginação popular há muitos séculos.

Em uma delas, são chamadas de pequenos dragões: “em inglês, as libélulas são conhecidas como dragonflies. Segundo uma lenda Xamânica, a libélula era um dragão sábio e dotado de magias que, durante a noite, difundia luz com sua própria respiração de fogo. Um dia, para enganar um coiote, o dragão aceitou o desafio de se transformar em uma libélula, tornando-se prisioneiro de seus próprios poderes. Depois disso, além de perder suas magias, o dragão ficou preso em seu novo corpo para sempre”. eCycle

Que essa visita inesperada tenha surgido diante de mim neste penúltimo dia de 2023 foi simbolicamente importante, além da beleza de seu voo que a fez desaparecer assim como surgiu, feito uma visão mágica, assim como considero mágica a expressão da Natureza. De certo que vejo a maioria dos movimentos da vida como algo de milagroso, quase sempre conspurcado pelas mundanas ações humanas. Nada de religioso, mas sim de religiosidade, de conexão com as energias invisíveis. Ainda que as guerras – grandes e pequenas, diárias – não obedeçam ao determinismo do calendário, continuando à sua faina de ceifar vidas todos os dias e trazendo sofrimento e dor, que 2024 possa ser um período de renovação para melhor. Assim seja!

Foto por Sandhy Prasetyo em Pexels.com