16 / 08 / 2025 / BEDA / Papel Em Branco

Eu encontrei no quintal uma folha em branco. Quase a descartei entre os recicláveis quando me lembrei do respeito que tinha por papéis em branco. O meu pensamento estava voltado a só escrever. Eu não desperdiçava nenhum espaço onde pudesse colocar no papel as minhas ideias que jorravam aos borbotões. Cada raciocínio novo era escrito como se a minha vida vida dependesse de sua expressão. Eu me tornara um explorador a tentar desvendar os segredos de um mundo desconhecido: eu mesmo.

A minha curiosidade por mim se devia ao fato de eu não me sentir conectado ao espaço em que vivia. Algo que cultivei com uma certa vaidade, como se fosse superior. Apesar de ter provas cabais de que não era. Mais velho, percebi que estava passando apenas pela adolescência, fase em que somos monstros em desenvolvimento — inadequados, rebeldes, impulsivos, desarmoniosos de mente e corpo. Nesse momento da minha vida, explodiam poemas, contos, pensamentos não articulados com a realidade que, aliás, contestava. Chego a sentir saudade daquele garoto absurdamente ingênuo, tímido, relutante em amar, como se fosse uma fraqueza.

Eu desenvolvia concepções espúrias, mas criativas. Brincadeiras com a verdade pré-estabelecida. Percebi que era absurdo acreditar em “verdade”, já que a depender de quem carregava a sua bandeira falseava os fatos, os adaptando aos seus conceitos. A criatividade eu buscava domar para que não parecesse mais estranho ainda do que percebia que fosse. Mas vez ou outra eu deixava escapar uma palavra diversa do que se proclamava como fato para estabelecer um parecer diferente do deveria se considerar como padrão. Eu era o esquisito.

Desde então mudei tanto meus conceitos, expressões, visões, entendimentos, olhares, razões que posso me proclamar um ser contraditório dentro de parâmetros que estabelecem um padrão razoável de comportamento. Uma pessoa comum.

13 / 08 / 2025 / BEDA / Errar

Para compensar o erro de tomarmos a estrada errada, nos deparamos com o outro lado do Pico do Jaraguá — o ponto mais alto da Cidade de São Paulo. Logo depois, retomamos o caminho. Quilômetros a mais, gastos a mais, fruição a mais. Muitas vezes, pagamos por nossos erros com o maior prazer do mundo…

08 / 08 / 2525 / BEDA / Ser, Sempre

Ser, sempre!

Eu coloco, especialmente em minhas postagens no Instagram, “hashtags” como #amanhãser, #emtardeser e #anoiteser. Eu utilizo a mesma sonoridade de amanhecer, entardecer e anoitecer para reforçar o meu ideal de ser, sempre. No entanto, quando não somos? Eu digo que nem sempre. Na página da Ortega Luz & Som — #ortegaluzesom — anuncio: “Eu quero ser, além de ser, Ser!”… Com essa frase, eu tento demonstrar que diferencio simplesmente “ser” de “Ser”. O verbo Ser ou Estar é complexo em seu contexto do ponto de vista filosófico. É muito comum as pessoas confundirem ser com estar, especialmente na experiência de viver, a ter a condição de estado como descrição prática de ser. O meu objetivo primordial, desde que me dei conta de nosso estado físico transitório, e a crer que o espírito nos precede como repositório de nosso aprendizado realizado na Terra, é de Ser. Ainda que estejamos a viver no mundo material, Ser é o que pretendo ser.

07 / 08 / 2025 / BEDA / Três Tigres E Um Veado

Tive que resolver um problema com o meu aplicativo de banco no meu celular e fui para a Avenida Angélica. Quase chegando à minha agência, passei pela Praça Buenos Aires. Do lado de fora, visualizei um monumento que quis ver de perto. Havia outros, mas esse me chamou mais a atenção por sua temática. A placa indicava o título: Veado Lutando Com Três Tigres.

Como sou um sujeito que conhece razoavelmente a Natureza, achei estranho que três tigres se associassem em um ataque a um pobre veado. Os tigres são caçadores individualistas, solitários, com ação em um determinado território. Agem de forma diferente dos leões (ou leoas) que costumam se unirem para usarem conjuntamente estratégias de ataque.

Fiquei incomodado com a violência gratuita da obra, bem desenvolvida em termos técnicos. Aparentemente de origem francesa, não sei porque alguém poderia a ideia como algo de relevância que não seja somente a excelência dos traços. No mais, acho de mau gosto desnecessário que as artes plásticas produziu.

06 / 08 / 2025 / BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Seis Meses, Seis Fotos (Mutante)

Ao me debruçar sobre o tema acima, fiquei imaginando quais imagens poderia colocar dentre as muitas que produzi de lugares e pessoas. Mas como estou a me sentir um tanto introspectivo sobre a passagem do tempo, decidi colocar a mim como alvo de elocubrações quanto à passagem do tempo marcado no olhar.

Nesta imagem de Janeiro de 2018 estou no camarim de um clube em Campinas, onde logo mais à noite, haveria um baile de salão. Faria a sonorização da Banda Ópera Show. Formada por Tânia Mayra e João Soares como cantores (dos melhores no estilo), permanecemos por mais dois anos, até o advento do isolamento social para conter a temível Covid-19. O resto é uma triste história, incluindo a passagem de João Sorriso, como o chamava, por causa de um câncer no Pâncreas.

Esta segunda foto ocorreu em Fevereiro de 2016. Usei um aplicativo para criar o tom rubro da imagem que já se destacava pela incidência dos raios solares do crepúsculo. Gosto dela porque prospecta o meu olhar de quem quer enxergar para além do imediato, apesar de tentar viver o agora.

Foto da minha primeira identidade com cara de terrorista. Eu a retirei em Março de 1979, tinha 17 anos e uma nascente barbicha. Logo, por efeito de ter me tornado vegetariano, começaria a emagrecer bastante até ficar um tanto irreconhecível. Depois de me adaptar pouco a pouco à alimentação sem carnes de qualquer tipo, consegui ficar menos magro. Essa fase, durou cerca de dez anos, até me casar, em 1989.

Esta imagem tem três anos. Talvez estivesse tentando me levar mais à sério naquele Abril de 2022. Apesar de ser séria a situação do País em que as ações do então (des)governante estava a progredir para a tentativa de Golpe de Estado colocada em pauta dia sim, dia não. A estratégia então empreendida era a de esticar a corda e agir no sentido de alicerçar a sua continuação no poder, obstada por aquele que hoje é o seu algoz quando estava no TSE. O interessante é que, preocupado com um eventual Golpe de Estado por parte da esquerda, promulgou no ano anterior a Lei 14197 que acabou por levar a ele próprio às barras do tribunal do STF.

Um pouco antes do início do Inverno em Maio de 2023, o País já havia superado uma tentativa de Golpe de Estado em 08 de Janeiro. Os raios do entardecer me aqueciam às primeiras brisas frias. Tanto eu quanto a Bethânia apreciávamos os crepúsculos que espero continuar a usufruir num Futuro mais promissor.

Chegamos a Junho de 2025 e esta é a minha última mutação. Envelheço com certa dignidade, escrevendo planos para o Presente, que é como eu vejo o Futuro. Sinto-me bem, mas algumas dores se fazem evidentes no corpo que são menores que as da alma. Assim como no Passado, nada de novo…. Vamos em frente!