26 / 11 / 2025 / Blogvember / Eu Queria (Só) Perceber O Invislumbrável

… ou eu só queria perceber o invislumbrável…
porque só querer perceber é uma coisa
eu querer (só) perceber é outra
a primeira acho mais fácil é quase como só fosse se exercitar para tal
a segunda é quase um talento refinado adquirido de só perceber o invislumbrável
mais simples dizer que é a capacidade de vislumbrar a simplicidade
ou perceber na simplicidade o deslumbramento que é ser simples
contido reto inteiro perfeito
e eleger apenas o que é belo
assim como é amar o amor eleito…

Participação: Lunna Guedes

06 / 11 / 2025 / Blogvember / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Inventário

Se eu fosse fazer um inventário, busquei em minha memória alguns objetos que me marcaram ao longo da minha vida. Nunca fui apegado a objetos. Pelo menos foi o que pensei até me deparar com coisas que assomaram a minha lembrança. Percebi que determinados artefatos, peças, trecos, ferramentas, dispositivos senti que fossem importantes. Eu, que tenho uma memória a qual chamo de randômica, do nada passei a me lembrar da primeira geladeira que tivemos em casa. Uma azul, de formas arredondadas, antiga, já na época que a adquirimos. Foi uma revolução poder guardar alimentos que seriam preservados geladinhos e não em temperatura ambiente no velho “guarda-comida”. Devia gastar horrores de energia.

Durante anos, tivemos uma TV Bandeirante de 14 polegadas PB. Por ela, acessamos o mundo do cinema, novelas, futebol, etc. Apenas em 1982, para a Copa do Mundo da Espanha, adquirimos um TV maior, de 18 polegadas em cores. Mas até hoje, é a antiguinha que representa melhor a minha infância.

Há três peças correlatas a uma função: tomar banho. Mas a primeira representa o acesso à água que utilizávamos para isso, lavar louça, regar as plantas das quais dependíamos para variar a alimentação, além de matar a nossa sede e dos bichos que criávamos, desde cachorros, gatos, porcos, galinhas e patos: é umA Carretilha — sobre a qual já fiz uma postagem. Com ela, puxava água do poço, já que durante anos não tivemos acesso à água encanada, bem como esgoto. Usávamos as tradicionais fossas pépticas.

Outro utensílio que usávamos bastante era um tacho onde esquentávamos a água num fogareiro improvisado com tijolos para tomarmos banho de canequinha. Em dias mais frios, tínhamos que ser rápidos no banho, já que às vezes a temperatura caía drasticamente, já que a região ficava próxima à mata da Serra da Cantareira.

Uma nova revolução se deu quando surgiu o chuveiro-regador. Com o dispositivo de abrir e fechar, quase nos sentíamos como que voltando a morar na Penha, no porão. O banheiro ficava do lado fora e era usado por nós e outras pessoas que moravam no terreno. O da imagem abaixo é semelhante, mas o meu pai dispôs de um cano transversal chumbado nas paredes lado a lado que sustentava o chuveiro-regador. E a bacia mostrada era bem parecida com a que utilizávamos.

Aliás, na foto acima, além da janela que ficava na mesma posição, surge o chão de vermelhão, outra característica semelhante a da nossa casa na época é o chão de vermelhão que pintava as nossas solas de chinelos e congas. Outra diferença é que as nossas paredes eram de cimento e tínhamos que tomar cuidado para não rasparmos os cotovelos nelas. Era ferimento na certa.

Por fim, outro item que permaneceu em minha lembrança foi a cama de molas na qual dormia. A minha mãe colocava papelão para fazer impedir que o colchão fosse rasgado por alguma mola solta. Além disso, como fiz xixi na cama até os 8 anos, ela envolvia o colchão com plástico, o que fazia com que eu acordasse um tanto suado. Foram anos em montava e desmontava a minha cama para dormir no corredor que era até um tanto largo e não impedia a passagem das outras pessoas da família.

O inventário acima, como se percebe, foi ocupado por artefatos simples e ligados firmemente ao estilo de vida simples que vivíamos. Recentemente, apesar da precariedade, percebi que foi uma época em que me sentia feliz de alguma maneira. Deu ensejo que valorizasse a condição em que vivo agora, além de me aproximar da maioria da população brasileira que ainda vive sob as mesmas condições. Viver como quase um garoto do campo fez com que percebesse a dimensão mágica de lidarmos com a Natureza e sabermos que devemos respeitá-la para que o suposto bem estar da população mundial não seja à custa do impacto de sua erradicação e, consequentemente, da nossa.

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Silvana Lopes

03 / 11 / 2025 / Blogvember / Deslizar De Alegria Nos Cortes Que O Silêncio Impõe

caminho por ruas calmas de uma primavera indecisa
como são todas primaveras
não é a toa que nasci em outubro
a estação parece mimetizar a minha personalidade em desatino
ou sou eu a imitar suas preferências titubeantes
entre chover ou queimar as cabeças dos transeuntes
com o sol a pino
passo por casas antigas que imitam um tempo passadiço
por algum motivo lembro de minha mãe
deslizo de alegria nos cortes de alegria que o silêncio impõe
numa época que o novo deus é chamado de inteligência artificial
numa delas um velho casal se surpreende por sua cachorrinha vir em minha direção
abanando o rabo como se me conhecesse de outra vida
perguntou a ela (não a mim) se já me conhecia
respondi que talvez tenha reconhecido a minha aura
massageei o seu pescoço de pelo cor de cobre com um carinho paternal
fui pai de outros tantos durante toda a minha vida
que não duvido que ela seja a reencarnação de um deles
mais à frente passo por um jardim composto com requintes de simplicidade
duas rolinhas se posicionam descansando da faina de trazer alimento para os filhotes
parei para observá-las se deixaram fotografar
registrei como quem escreve uma cena de uma tarde que arrefece
entre o tudo e o nada
direciono o meu olhar escolho a composição da página
eternizo o verso e reverso do casal de poesia alada…

Participação: Lunna Guedes / Mariana Gouveia

27 / 10 / 2025 / A Que Encerra

A Lívia foi a última a chegar. Mas a não menos importante para compor a nossa família. Hoje, completa 30 anos (!). Parece que foi outro dia que eu ficava insistindo para comer um pouco mais enquanto ela fazia manha. Das três, foi a que aceitou fazer natação e treinar basquete porque o pai esportista gostaria que fosse eventualmente uma atleta. As três irmãs são muito unidas e eu, ingenuamente me surpreendi ao saber que criaram um grupo de mensagens entre elas em que os pais talvez sejam um dos tópicos ou nem tanto. Não sei o que é pior…

Há um ano ou menos — não sou afeito ao calendário factual — alugou com o namorado Pablo um apartamento em que ensaiam a vida de casados. Como acontece frequentemente, deixou a filha Lolla Maria aos cuidados dos avós. Não porque não quisesse, mas porque ela não se adaptou ao espaço. Cheia de manias e de uma eterna fome, ficava latindo quando não encontrava seus humanos em casa.

Lolla Maria

O nome Lívia deriva de Liv Ullmman — atriz, diretora de cinema, além de escritora — por quem fui apaixonado quando jovem, assim como fui por Romy Sceneider e Ingrid Bergman, que deram nome às outras duas filhas. A minha paixão pelas mulheres não é apenas física, mas sou fascinado pelo poder que carregam e que os homens tentam de todas as maneiras obliterar. As mulheres que inspiraram a nomear as minhas filhas são exemplos de pessoas que marcaram seu tempo com comportamentos que fugiam ao estereótipo da mulher conformada com o papel tradicional da fêmea da espécie. Das três, apenas Liv vive e continua atuante como artista, depois de 60 anos de carreira.

Lívia & Pablo em seu apartamento

Talvez as minhas filhas sintam que eu esteja um tanto distantes delas, mas acho que devo dar espaço para que encontrem sem pressão os seus caminhos, façam as suas escolhas e tomem as suas decisões. Elas sabem que estarei sempre à disposição para apoiá-las no que quiserem. Eu desejo que a que encerra a fábrica Ortega alcance todos os seus propósitos, incluindo os artísticos, com a Elebonde, seu projeto de DJs com o Pablo. Quem sabe, um dia, não participem de um festival desses grandes por aí? De você, menina, eu não duvido de nada!

Elebonde em ação…

22 / 10 / 2021 / Perfeito Amor

somos humanos imperfeitos
nossa medida de amor
humana
como queremos amores perfeitos?
amamos humanamente
a desejar a perfeição

tão imperfeita medida e ação
em nossas incompletudes
sofremos
a buscarmos mais que a plenitude

amar sem medição
amores perfeitos as flores
constantemente regadas florescem
amores humanos descuidados fenecem

imperfeitos continuaremos amando
porque o amor é imperfeito
por isso nós vivemos
um perfeito amor…