O Avião

Nesta cidade de pedra,
não tenho pássaros
ou borboletas a usar
como referências…

O mais certo
é que faça o meu coração
se assemelhar a um avião…

Que viaja por vontades,
carregado de paixão,
o amor por combustível…

Sente-se protegido
quando se vê diante
de nuvens carregadas,
apruma o nariz
e vai
no sentido da turbulência
que o fará vibrar…

Nunca se percebe tão vivo
e pleno, plana
após ultrapassar a tormenta
de amar, sabendo que o pouso
é sempre doloroso…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Crepuscular

Algo de muito perturbador existe em mim
Que prefere um céu nublado a azulado
As nuvens me trazem a ilusão de festim
Enquanto limpo, parece de tempo fechado…

Lateralmente, escanteia-se a luz
Canto o entardecer que me seduz
Enquanto canto, o azul se desmancha
Alcançando a mim a negra mancha…

Enquanto o sol outonal deita o seu brilho
Sobre a ampla cama nebulosa da tarde
O dia, calmo, percorre o mesmo trilho
Daqueles que foram embora, sem alarde…

Certa vez, ainda garoto, escrevi:
“Ao longe
As estrelas brilham
Por perto
As pessoas queimam”…
Hoje, eu beijo as estrelas…
Eu as possuo, em colchões de nuvens!

Na boca da noite, o tardio óvulo solar
Aquece e faz multiplicar a vida celular
Reativa as nossas cíclicas energias vitais
E fecunda o útero plúmbeo dos mortais…

Sonho em dia claro morrer
Sob a luz do Sol esvanecer
Uma noite depois de namorar
A Lua, as Estrelas e o Mar…

Participam do Projeto Fotográfico 6 On 6: 
 Mariana Gouveia / 
Isabelle Brum / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina

Poesia No Cotidiano

Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a espalhar falas
com o seu olhar…

*Homenagem à nossa Frida, amada, querida, que passou há quatro anos, em imagem de 2016

A Rolinha*

Um dia frio,
chuva intermitente…
A sala é um bom lugar
para escrever
um poema ou um livro,
o meu pensamento lá em você,
enquanto um pássaro canta…

As cachorras, adormecem no sofá…
Uma rolinha, a tudo alheia,
castiça,
à escrita e à preguiça,
pelo quintal passeia…
O meu pensamento a acompanha
no compasso do canto do sabiá…

*Escrito em 2015

Magia Na Selva De Pedra*

Noite recente,
a fadinha e o duende
chegam cansados e ocupam
uma mesa vaga.
Ela deposita os seus aros
junto a uma cadeira.
Se senta, a mão no queixo,
solta um suspiro exaurido
de quem voou a esmo.
Ele deixa os malabares no chão,
coça a barba
e olha com certo ar de contrariedade
para a sua companheira de floresta.
Não pedem nada para comer.
Naquele dia,
não conseguiram o dinheiro
necessário sequer para um cafezinho.
Era a faceta mais dura
de viver de magia
em uma Selva de Pedra em crise.
Nos semáforos e esquinas
só receberam sinais
amarelos de impaciência
e vermelhos de raiva…

*Cena-poema de 2016

Imagem: Foto por Tu00fa Nguyu1ec5n em Pexels.com

BEDA / Reconexão*

Postei há um ano antes:

“Ontem, precisava estar comigo mesmo e sentir vibrar o meu corpo de uma maneira que pudesse me sentir vivo, apesar da catástrofe que se abateu sobre o País nos últimos dois anos e meio por escolha da maioria de nós.

A Pandemia de Covid-19 realçou a fratura exposta na sociedade brasileira, como se fôssemos um paciente em coma após um acidente. Se vamos nos recuperar coletivamente? Eu, não sei… Mas pessoalmente, estou tentando sobreviver da maneira que posso.

Busquei estar comigo mesmo ao restaurar a minha conexão com o exterior natural. Para isso, fiz o percurso de cerca de 4 Km a pé até o Parque Estadual Alberto Löfgreen e por lá caminhei outros 5 ou 6 Km e voltei. O acesso é permitido apenas com uso de máscara e a prática do distanciamento social, o que é fácil já que o espaço é amplo.

O Sol inclinado da tarde outonal ajudava a tornar tudo mais belo e prazeroso. As indicações dos percursos são claras, mas isso não impediu que eu entrasse por um trecho fechado e “me perdesse”. Isolado, pude registrar uma foto sem máscara em meio a Mata Atlântica preservada do Horto Florestal.

O mais importante para mim foi conseguir me reconectar com a vida para além das notícias tenebrosas não apenas vindas do Brasil, mas do mundo afora. Nunca foi tão imprescindível buscar vida mundo adentro…”.

*Texto de Abril de 2021, em que estávamos em uma situação muito difícil. Atualmente, aparentemente estamos saindo da Pandemia, mas para o final do ano os prognósticos não são tranquilizadores com a continuação da Guerra da (na) Ucrânia e as eleições de outubro sob o fogo cruzado do Ignominioso Miliciano.

Participam do BEDA: 
Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / 
Cláudia Leonardi 

BEDA / Lunna & Fellini*

Cine Café Fellini, na Rua Augusta

Boa noite, Lunna!

Esta missiva cumpre a função de ser um capítulo do meu Diário. Como passamos da meia-noite, tecnicamente, iniciamos um novo dia, mas psicologicamente, esta missiva pertence a ontem. Ou anteontem, quando a encontrei. Mas como você sabe, sou um “dono de casa” e as tarefas caseiras são tão simples quanto extensas. São como um videogame em que, ao se passar de fase, logo se apresenta outra, em que os movimentos repetitivos e bem executados resultam em satisfação apenas momentâneas. Meus bônus eu recebo a cada passada de vassoura pela casa ou quintal, a cada peça de “louça” ou panela que eu lavo, pois são “jogadas” que ocupam as minhas mãos, mas liberam a minha mente para passear pelos temas do dia.

Ontem, me ocupei de nossa reunião no Fellini. Esse nome… Eu sempre amei Federico… “Io me recordo” a Amarcord… Durante muito tempo, eu me encontrei no garoto de Rimini. Aquele pedaço da Itália que ele viveu-sonhou, tão longe da minha Periferia, durante muito tempo, foi o meu lugar. Quantas vezes não fugi para lá, quando a realidade daqui me alcançava com a sua dureza distraída? Encontrá-la, italiana e cidadã do mundo, paulistana de “cuore”, no Fellini, é como se eu fosse mais um ator dentro de um filme do mestre a ser apresentado logo ali, em uma das salas do Espaço

Sei que a minha crença de que nada seja por acaso possa até irritá-la. O fato de “sabê-la” como mais uma pessoa a qual estava destinado a encontrar já me faz imaginar, com certa diversão, a sua expressão de desdém, a pensar que não tem nada a ver com o que acredito. Que deve apenas se responsabilizar pelo meu progresso como escritor… Gosto de pensar que eu possa ser uma pessoa interessante para aquém do escritor. Um amigo que aceita que invada a minha vida com toda a sua força e fragilidade.

A busca da palavra perfeita, ainda que não tenha sido escrita por si, me comove. O Verbo, criador e criativo, faz parte de sua essência vital. A direção que nos conduz a todos da Scenarium é, ao mesmo tempo, um sonho e um fato da vida. Que eu faça parte do roteiro de sua arquitetura, me faz acreditar que essa seja a nova realidade que devo viver. Sou fá desse “neorrealismo”. E sei o quanto isso tem de alegoria, como a que Fellini soube tão belamente construir. Ao conviver consigo, sinto que volto a viver em Rimini… Agora, na São Paulo que nasci. É como me reencontrar onde sempre vivi…

*Texto escrito um dia ou dois depois de 11 de Julho de 2017, por ocasião do lançamento do Coletivo da Scenarium, no Cine Café Fellini.

Participam do BEDA: Lunna Guedes / Alê Helga / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Darlene Regina