Algo de muito perturbador existe em mim Que prefere um céu nublado a azulado As nuvens me trazem a ilusão de festim Enquanto limpo, parece de tempo fechado…
Lateralmente, escanteia-se a luz Canto o entardecer que me seduz Enquanto canto, o azul se desmancha Alcançando a mim a negra mancha…
Enquanto o sol outonal deita o seu brilho Sobre a ampla cama nebulosa da tarde O dia, calmo, percorre o mesmo trilho Daqueles que foram embora, sem alarde…
Certa vez, ainda garoto, escrevi: “Ao longe As estrelas brilham Por perto As pessoas queimam”… Hoje, eu beijo as estrelas… Eu as possuo, em colchões de nuvens!
Na boca da noite, o tardio óvulo solar Aquece e faz multiplicar a vida celular Reativa as nossas cíclicas energias vitais E fecunda o útero plúmbeo dos mortais…
Sonho em dia claro morrer Sob a luz do Sol esvanecer Uma noite depois de namorar A Lua, as Estrelas e o Mar…
Frida fala pelos olhos… Nasceu ressabiada de gestos bruscos, como se trouxesse abusos de vidas passadas… Passou a se aproximar aos poucos, a vencer a timidez, a se colocar embaixo de mesas, em cantos de sofás, junto aos nossos pés… Hoje, perdeu de vez as travas… Sentiu o frio chegar e arranhou a porta para entrar… Frida, outrora calada, vive agora a espalhar falas com o seu olhar…
*Homenagem à nossa Frida, amada, querida, que passou há quatro anos, em imagem de 2016
A Rolinha*
Um dia frio, chuva intermitente… A sala é um bom lugar para escrever um poema ou um livro, o meu pensamento lá em você, enquanto um pássaro canta…
As cachorras, adormecem no sofá… Uma rolinha, a tudo alheia, castiça, à escrita e à preguiça, pelo quintal passeia… O meu pensamento a acompanha no compasso do canto do sabiá…
*Escrito em 2015
Magia Na Selva De Pedra*
Noite recente, a fadinha e o duende chegam cansados e ocupam uma mesa vaga. Ela deposita os seus aros junto a uma cadeira. Se senta, a mão no queixo, solta um suspiro exaurido de quem voou a esmo. Ele deixa os malabares no chão, coça a barba e olha com certo ar de contrariedade para a sua companheira de floresta. Não pedem nada para comer. Naquele dia, não conseguiram o dinheiro necessário sequer para um cafezinho. Era a faceta mais dura de viver de magia em uma Selva de Pedra em crise. Nos semáforos e esquinas só receberam sinais amarelos de impaciência e vermelhos de raiva…
“Ontem, precisava estar comigo mesmo e sentir vibrar o meu corpo de uma maneira que pudesse me sentir vivo, apesar da catástrofe que se abateu sobre o País nos últimos dois anos e meio por escolha da maioria de nós.
A Pandemia de Covid-19 realçou a fratura exposta na sociedade brasileira, como se fôssemos um paciente em coma após um acidente. Se vamos nos recuperar coletivamente? Eu, não sei… Mas pessoalmente, estou tentando sobreviver da maneira que posso.
Busquei estar comigo mesmo ao restaurar a minha conexão com o exterior natural. Para isso, fiz o percurso de cerca de 4 Km a pé até o Parque Estadual Alberto Löfgreen e por lá caminhei outros 5 ou 6 Km e voltei. O acesso é permitido apenas com uso de máscara e a prática do distanciamento social, o que é fácil já que o espaço é amplo.
O Sol inclinado da tarde outonal ajudava a tornar tudo mais belo e prazeroso. As indicações dos percursos são claras, mas isso não impediu que eu entrasse por um trecho fechado e “me perdesse”. Isolado, pude registrar uma foto sem máscara em meio a Mata Atlântica preservada do Horto Florestal.
O mais importante para mim foi conseguir me reconectar com a vida para além das notícias tenebrosas não apenas vindas do Brasil, mas do mundo afora. Nunca foi tão imprescindível buscar vida mundo adentro…”.
*Texto de Abril de 2021, em que estávamos em uma situação muito difícil. Atualmente, aparentemente estamos saindo da Pandemia, mas para o final do ano os prognósticos não são tranquilizadores com a continuação da Guerra da (na) Ucrânia e as eleições de outubro sob o fogo cruzado do Ignominioso Miliciano.
Esta missiva cumpre a função de ser um capítulo do meu Diário. Como passamos da meia-noite, tecnicamente, iniciamos um novo dia, mas psicologicamente, esta missiva pertence a ontem. Ou anteontem, quando a encontrei. Mas como você sabe, sou um “dono de casa” e as tarefas caseiras são tão simples quanto extensas. São como um videogame em que, ao se passar de fase, logo se apresenta outra, em que os movimentos repetitivos e bem executados resultam em satisfação apenas momentâneas. Meus bônus eu recebo a cada passada de vassoura pela casa ou quintal, a cada peça de “louça” ou panela que eu lavo, pois são “jogadas” que ocupam as minhas mãos, mas liberam a minha mente para passear pelos temas do dia.
Ontem, me ocupei de nossa reunião no Fellini. Esse nome… Eu sempre amei Federico… “Io me recordo” a Amarcord… Durante muito tempo, eu me encontrei no garoto de Rimini. Aquele pedaço da Itália que ele viveu-sonhou, tão longe da minha Periferia, durante muito tempo, foi o meu lugar. Quantas vezes não fugi para lá, quando a realidade daqui me alcançava com a sua dureza distraída? Encontrá-la, italiana e cidadã do mundo, paulistana de “cuore”, no Fellini, é como se eu fosse mais um ator dentro de um filme do mestre a ser apresentado logo ali, em uma das salas do Espaço…
Sei que a minha crença de que nada seja por acaso possa até irritá-la. O fato de “sabê-la” como mais uma pessoa a qual estava destinado a encontrar já me faz imaginar, com certa diversão, a sua expressão de desdém, a pensar que não tem nada a ver com o que acredito. Que deve apenas se responsabilizar pelo meu progresso como escritor… Gosto de pensar que eu possa ser uma pessoa interessante para aquém do escritor. Um amigo que aceita que invada a minha vida com toda a sua força e fragilidade.
A busca da palavra perfeita, ainda que não tenha sido escrita por si, me comove. O Verbo, criador e criativo, faz parte de sua essência vital. A direção que nos conduz a todos da Scenarium é, ao mesmo tempo, um sonho e um fato da vida. Que eu faça parte do roteiro de sua arquitetura, me faz acreditar que essa seja a nova realidade que devo viver. Sou fá desse “neorrealismo”. E sei o quanto isso tem de alegoria, como a que Fellini soube tão belamente construir. Ao conviver consigo, sinto que volto a viver em Rimini… Agora, na São Paulo que nasci. É como me reencontrar onde sempre vivi…
*Texto escrito um dia ou dois depois de 11 de Julho de 2017, por ocasião do lançamento do Coletivo da Scenarium, no Cine Café Fellini.