18 / 05 / 2025 / Anjo*

Zezé nasceu e cresceu na rua. O único sobrevivente de seis irmãos. Se alimentava de restos e do que lhe ofereciam os moradores do bairro. Sua mãe, moradora de rua, igualmente abandonada, viveu tempo suficiente para amamentá-lo. Não teve agilidade bastante para desviar de um carro que acelerava ligeiro pela rua, que agora tem uma lombada para tentar impedir acidentes.

Zezé começou a circular pelas ruas em busca de cantos. Seu jeito de criança sapeca angariava simpatia por onde passava. Foi adotado várias vezes. Seu desejo por liberdade, no entanto, fez dele um exímio escalador de muros. Ele queria circular ruas, dobrar esquinas, não ter horários-regras. Uma alma livre a vagar calçadas, dormir em praças e a correr de vassouradas e pedras que atravessavam seu caminho.

Sua movimentação era noturna. Pela manhã queria dormir e, para isso, se apropriava de algum quintal para descansar. Sombra, comida e água fresca, sempre sabia onde encontrar.

O rapaz tornou-se conhecido ao salvar um bebê do fogo que consumia um barraco na favela do bairro. Ao espiar a fumaça e as chamas saindo pelas frestas da construção, feita de madeira seca, ouviu o que ninguém mais ouviu: um choro vindo de dentro.

Com toda a agilidade que faltou à sua mãe, adentrou pela porta fechada e abocanhou a roupa da criança, arrastando-a para fora. Coisa de herói. Foi exaltado. Recebeu banho, uma boa refeição e um nome.

De vira-latas a Anjo… o melhor amigo de todos na vizinhança. Era ele quem acompanhava — faceiro — as moças na volta da faculdade. Sabia rosnar alto-forte. Ninguém se atrevia em seu caminho. Todos sabiam de sua força. Muitos o tinham como confidente. Enquanto dividiam com ele um pedaço de pão, conversavam com seu olhar de compreensão… o melhor dos ouvintes.

Zezé foi encontrado morto na mesma praça em que brincava com as crianças da vizinhança. Foi envenenado.

A notícia surpreendeu todos os moradores da rua dois, que acabaram por promover um velório ali mesmo. Uma cova bem rasa e uma pequena lápide de madeira onde se lê: “Tão livre que foi invejado pelos encarcerados em si. Anjo de quatro patas, amoroso demais para viver entre seres inferiores”.

*Conto constante de RUA 2, livro de contos curtos lançado pela Scenarium Livros Artesanais, como Morador Da Rua 2.

Foto por Fatih Gu00fcney em Pexels.com

16 / 05 / 2025 / Lunar

Pode ser a última lua…
A última vez que atua…
Pode ser a sua última noite…
A derradeira hora do açoite…
O último abraço e o colo quente…
O último suspiro e o beijo ardente…
A última chance de perdoar…
A última oportunidade de amar…

Foto: arquivo pessoal.

15 / 05 / 2025 / Imagens de Maio de 2016

Não, não é vinho e nem conhaque… Um pouco antes, essa taça realmente continha vinho tinto seco. Mas como estou com poucas horas dormidas, e como quero aguentar até às 23h, quando termina mais um episódio de Game Of Trones, apenas aproveitei a taça para tomar um bom café! Com certeza, café é uma bebida que também merece requinte e majestade…

A vida, na ponta de um dedo… 

Passarela sobre a Rua Riachuelo, que une dois prédios da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo — Largo de São Francisco. 

14 / 05 / 2025 / A Rede

Aurélio, casado com Zélia, começou a namorar Marisa virtualmente numa das muitas crises de seu casamento. Mamãe havia criado o moço para se casar e ser fiel. O exemplo de seu pai de traidor contumaz criou nele a repulsa sobre esse tipo de comportamento. O ciúme da companheira também não dava margem para que ele olhasse para o lado com olhos de concupiscência (palavra dele, cultivador de termos não usuais ao conversar com a sua consciência).

Ao começar a fazer terapia, antes buscou ler sobre os termos que eventualmente serviriam para analisá-lo — vazio, gozo, desejo, pulsão, repressão. Começou a pesquisar sobre Freud, Jung, Lacan, Reich, Ferenczi e outros tantos. Em determinado momento, passou a seguir vários profissionais da psicanálise nas redes, preferivelmente femininas.

Uma delas, começou a respondê-lo de forma mais íntima. Disse que gostava das respostas às suas publicações e que queria conhecê-lo melhor. Que o achava bastante atraente e gostaria de trocar fotos mais íntimas. Aurélio quase não cria que dissesse a verdade, ainda mais que Marisa era uma mulher bastante atraente, “superlativa”.

Tomou coragem e enviou uma foto mais ousada, com o membro ereto. Os contatos se intensificaram. Aurélio, passou a experimentar sequências cada vez mais picantes. Ela retornava com vídeos simulando coitos com dildos, o chamando entre esgares e gemidos. Ao que ele respondia com filminhos se masturbando. Tendo um nome de prestígio a zelar, Aurélio tinha como certo que Zélia não se exporia divulgando essas imagens. Dessa forma, se sentiu seguro.

Aurélio não contava com uma trama do destino. Zélia conhecia Marisa. Ambas faziam parte de um grupo de mulheres que brincavam com homens através das redes sociais. No encontro semanal do grupo, Marisa mostrou as fotos e vídeos que trocara com Aurélio. Zélia a ouviu elogiar o marido como um “gostoso” que tinha a intenção de encontrar pessoalmente de boca e pernas abertas. A experiente médica preferiu manter a amiga de brincadeiras prazerosas, mas não tinha certeza sobre o marido.

A notícia no dia seguinte era a do administrador de meia idade que morrera com um fulminante ataque cardíaco durante o sono.

Foto por Vlada Karpovich em Pexels.com

13 / 05 / 2025 / Comemoração de Bodas

Hoje, a Tânia e eu completamos 36 anos de matrimônio, oficialmente. A nossa “comemoração” foi trabalharmos na casa, principalmente nos jardins — o do meio e o da frente. Enquanto isso, as notícias se sucediam apenas ouvidas e quase esquecidas, a não ser aquelas que nos tocaram de alguma forma — como a morte do grande Mujica, ex-presidente do pequeno Uruguay e uma figura ímpar em qualquer latitude do planeta. Outra figura ímpar é o impagável Mister T. Ele não me “decepciona” na sua trajetória obscena, mas não deixa de me surpreender.

Reproduzindo um processo realizado no Brasil no final do Século XIX e início do Século XX, em que o governo brasileiro iniciou a importação em massa de mão-de-obra europeia com o intuito velado de embranquecer a nossa população predominantemente de tez escura. Ele pretende receber sul-africanos brancos que se dizem descriminados racialmente. Não duvido, mesmo porque razões não faltam, convenhamos. Dominantes durantes séculos em que aplicaram o estúpido Apartheid, os brancos, também chamados de Afrikarnes, sendo 7% da composição populacional, dominam boa parte das terras produtivas da África do Sul, herança do período em que detinham o poder político.

Estamos preocupados com as cochonilhas que atacaram o abacateiro e vieram para mais perto da casa, começando a passearem pela grande jiboia que enfeita a frente, além da mangueira. Boa parte do trabalho foi o recolhimento dos galhos das podas do ora-pro-nobis e da mangueira. Eu também comecei a limpar o quartinho que será pintado. Nele, guardamos livros que ficaram fora da biblioteca, além de quinquilharias que vamos dispensar. Há alguns armários com peças hidráulicas, parafusos, ferramentas, utensílios como enxadas, tesouras, serrotes e outros utilizados na jardinagem.

Tenho que levá-los para cima e aproveitei para me exercitar utilizando o peso à linha da cintura, equilibrado para não trazer lesões nas costas na subida dos degraus. Amanhã, terminarei essa tarefa. O importante é que percebemos que cuidar da casa e lar é resultado de perseverança numa união com os seus devidos altos e baixos que uma longa relação ocasiona. As filhas estão distantes, a casa, grande para apenas um casal exige cuidados e dela fazemos um refúgio. Os velhos ainda guardam a energia necessária para levar adiante uma trajetória de quase quatro décadas.