11 / 02 / 2025 / Cinzas & Dor Fantasma*

*2016.
Ontem, foi Quarta-feira de Cinzas
que nome apropriado!
Quase que automaticamente,
os nossos olhos começam a devassar
a realidade
e perceber que o colorido evanescente
das fantasias apenas escondiam o concretismo do cinza…
Ou, não!
A esperança é de que seja somente a típica sensação de ressaca,
marca registrada de quem bebeu sonhos demais…

Marina Martino & Hanna (in memorian)

*2021. Qual o prazer de ser lido? Eu, como escritor, só teria prazer se ou quando fosse, de alguma maneira, compreendido. E mesmo assim, resta saber se a minha palavra permanecerá na memória de quem me leu e compreendeu o meu texto; se fez diferença de alguma forma ou tenha causado, ao menos, alguma passageira emoção — um sorriso ou uma lágrima. Eu diria que, como escritor, devo me desapegar de qualquer expectativa. O que já é um pouco de dor fantasma…

10 / 02 / 2025 / 15 Anos*

Raquel,
as mulheres, aos quinze anos,
adquirem alguns poderes…

O poder de concentrar
quinze séculos de paixão
em quinze segundos de olhar…

O poder de paralisar
quinze homens ativos
ao toque de quinze beijos furtivos…

O poder de levar
quinze viajantes à Lua
à vista de seus quinze primeiros passos
dados na rua…

O poder de remover quinze montanhas
à caminho do Mar para mergulhar
em seu desejo de amar…

Mas, enfim, use com cautela
os seus novos poderes
para o bem da rapaziada…

*Versejar encontrado em um papel, de ano indeterminado, em homenagem ao aniversário de uma prima, mas que eu poderia estender a todas as mulheres.

Foto por Connor McManus em Pexels.com

09 / 02 / 2025 / Colonização Mercantilista

Esta postagem não terá imagem. Mesmo porque, caso a divulgasse, o sujeito que a protagonizou, conseguiria o seu objetivo — divulgar a sua marca de vestuário através da exposição de sua esposa. Para isso, compareceu ao tapete vermelho do Grammy 2025 ladeado por Bianca Censori vestindo uma espécie de véu transparente que deixou a australiana totalmente exposta em todos os seus mínimos e íntimos detalhes. Kanye West sequer permaneceu na Kripto Arena, em Los Angeles. Dali partiu para outro evento de divulgação de sua marca, em que a sua esposa-modelo-objeto mercantil utilizou outra roupa com decotes profundos.

Eu não fiz questão de ver algumas das imagens produzidas na ocasião do “desfile”, mas foi impossível não fazê-lo, ainda que inadvertidamente. Foi estampada em todos os veículos de comunicação e mereceu destaque no noticiário diário, muito por conta da ousada atitude de Kanye West em utilizar a companheira como protagonista da peça de marketing.

Mas a questão que pode ser levantada é o quanto ultrapassar certos limites para faturamento financeiro uma empresa precisa chegar para que não sejam consideradas usurpação da dignidade humana. Poderia se contrapor que Bianca Censori estava ciente do que ocorreria e permitiu que assim fosse. Talvez o mercantilismo esteja tão entranhado na sua visão de mundo que desfilar com a pele de seu corpo praticamente exposta seja algo de que poderia até se orgulhar devido à sua eventual boa forma.

Eu não vejo nenhum problema em nos mostrarmos seminus a depender da ocasião e do lugar. O que me deixa ressabiado é percebermos a mercantilização do corpo e nos tornarmos escravos dessa condição. Manipulados, todos os que presenciaram a cena reproduziram as imagens. Sinal de que passados 300 anos da escravização como negócio, continuamos a vender corpos humanos com e sem consentimento de seus donos.

07 / 02 / 2025 / Sincronismo*

“Para além do estranhamento do uso do tempo verbal, a campanha veiculada nos ônibus municipais de São Paulo para os passageiros que logo mais se transformarão, em algum momento, em pedestres, encerra a mensagem do perigo que vivemos todos nós, cidadãos desta metrópole, por simplesmente caminhar por ela. O meu pai já nos advertia, a mim e a meus irmãos, há tantos anos — “Quando for atravessar a rua, olhe para um lado, olhe para o outro, olhe para trás, olhe para frente e olhe para cima para ver se não há algum avião caindo na cabeça!”. O Gil já sabia: o tempo é rei e tudo pode estar por um segundo. E eu acrescento: às vezes, por um passo. Neste caso, a velocidade (tempo X distância) torna-se fundamental para escaparmos de sermos colhidos pelo motoboy que se dirige urgentemente para entregar o frasco de remédio que salva uma vida ou para levar o vestido de festa tardiamente pronto para o casamento de logo mais à noite.

Lembro-me de um episódio de alguns anos que me deixou perplexo pelo sincronismo macabro que o engendrou. Cinco passos a menos ou a mais, por exemplo, teriam salvado a vida da garota esmagada pela massa do guindaste atraído do alto do edifício em construção na Paulista até a calçada coberta por um toldo azul, que deveria proteger os passantes de pequenos objetos que despencassem do alto. Neste caso, a precisão cirúrgica do Destino mostrou-se insuperável. Imaginei à época que se tivesse ela se apressado em encontrar o namorado na porta do cinema ou se atrasado para dar uma penteada ou duas a mais em seus cabelos e sua supérflua paixão ou a sua preciosa vaidade teria salvado a ela e nós de vermos empastelado de sangue a sua cabeça que, há pouco, dava expressão a todas essas suas necessidades…”.

*O texto acima foi escrito anos antes, lá pelo início dos 2000. Neste dia 7 de Fevereiro, pelas 7h18 da manhã, dezenas de pessoas tiveram as suas vidas poupadas por seguirem o conselho de Caetano Veloso. Perguntado certa vez se o poeta que caminhava por caminhos alternativos obedecia aos sinais de trânsito, ele respondeu: “Claro, são sinais…”. Se algum dos veículos avançasse a sinalização do semáforo, como é comum acontecer numa manhã em que os paulistanos estão tentando chegar aos seus compromissos, o não cumprimento poderia levá-lo ao óbito.

Eu e minha família utilizamos a linha do ônibus atingido. A minha filha caçula estaria na região nesse horário se não fosse um atraso providencial. Com a interdição da Avenida Marquês de São Vicente, ficou impedida de ir ao trabalho. O sincronismo de certos fatos, analisados a posteriori se assemelham a contas matemáticas macabras de adição e subtração, divisão e multiplicação. O resultado? Noves fora, nada…