02 / 10 / 2025 / A Última Carta*

“Meu amor,

foi muito bom reencontrá-la após tanto tempo afastados. Essa pandemia matou tanta gente… sobrevivemos fisicamente, mas acho que o que tivemos parece ter sido contaminado por algum vírus oportunista. Seria o da distância, o da palavra mal entendida, o do ciúme por termos ficado em casa com os nossos companheiros?

Duas semanas após voltarmos a trabalhar juntos presencialmente, eu a percebi lacônica, esquiva, tentando não ficar no mesmo lugar que eu. No refeitório, eu a vejo sorridente, falante, trocando palavras com amigas e colegas de trabalho. Sequer olha para mim… Eu me sinto quase como se tivesse exalando o odor dos mendigos. E da maneira que tento chamar a sua atenção, não deixo de me sentir como um por mendigar um tostão de seu olhar por cima da máscara na chegada e na saída.

Tantos anos na empresa, se lembra como nos conhecemos? Você, na época era uma das secretárias do DP e me deu toda a atenção possível. Eu me senti distinguido, especial, mas nunca imaginaria que tivesse me visto de outra forma até conversamos sobre como desejávamos crescer na profissão, sobre os estudos e ambições. Quantas vezes eu quis estar a sós com você até aquele dia em que deu uma carona… Ao me deixar no Metrô, você me deu um beijo no rosto. Fiquei como um garoto que ganha uma bola de futebol no Natal.

Depois de outra carona, eu deixei uma carta no seu porta-luvas. Sabia que deixava ali a chave do apartamento e que a encontraria quando a pegasse. Nessa carta eu falava da minha devoção e de como a sua presença me afetava. Que eu a queria mais do que como uma amiga e colega. Que o que sentia era muito maior do que o simples desejo de tê-la em meus braços. Na carta revelava como me sentia inseguro por não ser correspondido. Que estava mal por querê-la tanto apesar de sermos casados com outras pessoas. Que imaginava um futuro para nós dois juntos… mesmo sabendo que fosse quase impossível! Sabia que estava agindo como um garoto inexperiente, mas me permiti ser sincero e franco.

E foi isso que a cativou. Foi o que disse no dia seguinte. O mesmo da nossa primeira vez. E de quando nos apaixonamos intensamente. Quantas vezes conversamos sobre os nossos filhos, nos aconselhando mutualmente até em relação aos companheiros. Oferecendo palavras de consolo quando da morte de parentes ou doença nas famílias. E o sexo incrível que parecia ser sempre como na primeira vez. Depois de sete anos juntos, a pandemia nos separou. Não tínhamos mais desculpas para os nossos encontros, já que o trabalho havia se tornado virtual. Aumentou a demanda pela atenção de nossos companheiros. Hotéis e restaurantes fechados. A preocupação para não contaminarmos a nós e às nossas famílias. As mensagens cada vez mais escassas…

Eu estou sofrendo muito, meu amor! Não suporto mais encontrá-la na empresa sem receber um olhar de reconhecimento. A sensação que eu tenho é de ser um cão sem dono. E não gosto nem um pouco da ideia de ser somente um colega de trabalho, tendo ciúme de cada homem com quem conversa. Estou deixando a empresa, deixando a sua vida. Já enviei uma carta de demissão ao Sr. Travis. Não se preocupe. Ficarei bem. Vou para outro Estado. A sua atitude me ajudou a decidir. Há um mês eu recebi uma proposta para dirigir a filial de outra empresa na mesma área de atuação que a nossa…

Você sempre disse que namorou bastante até se casar e que ficou amiga de todos os seus “ex”… Não serei um deles, não quero ser mais um amiguinho! Se não tem coragem de terminar definitivamente, eu tenho… Com muita dor! Esta é a segunda e a última carta que lhe escrevo. Você foi o grande amor da minha vida…

Adeus!

*Texto de 2021, na volta gradual das atividades presenciais, nos estertores da Pandemia de Covid-19.

Foto por Elle Hughes em Pexels.com

27 / 04 / 2025 / BEDA / Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a deitar falas
com o seu olhar…

*Poemeto de 2016. A Frida anos depois se encantou… arranhou a porta do Paraíso e entrou…

24 / 03 / 2025 / Carta Ao Destino

Senhor Destino,
o dia amanheceu cheio de expectativas para tantos… Para mim, que estava me deslocando de minha zona de conforto, não. Eu aprendi… ou melhor dizendo, eu desenvolvi o costume de não ter nenhuma expectativa quanto certas questões que fogem do meu alcance. O meu comportamento é o de um passageiro de ônibus que pode apenas observar a paisagem enquanto se encaminha para o destino programado tendo ao volante um motorista profissional capacitado. É o que se espera.

No entanto, é comum me surpreender com o otimismo que as pessoas têm quando dizem que estarão em determinado lugar em determinada hora. Ao mesmo tempo, esperar que algo dê errado com o plano que estabelecemos para chegarmos a algum ponto, talvez seja um sintoma doentio de negatividade.

Milhões de pessoas se deslocam de lá para cá de forma quase automática. Não estão planejadas intercorrências em seus trajetos, suspeitas de atraso ou movimentos inesperados. E ainda bem!… Deve ser horrível viver na expectativa de malefícios. Mesmo assim, me assusto com os que têm certezas objetivas. É como se tivessem o dom da clarividência. “Tomarei tal transporte. Irei para tal lugar. Subirei as escadas da faculdade às 10h10. Me casarei dia tal, com tal pessoa, vestindo tal roupa”.

Como deve saber, por me ter em suas mãos, trabalho com eventos. Tenho que os agendar antecipadamente. Muitas vezes, meses antes. E até um ano antes. Como casamentos. Eu acho incrível essa convicção de algo que envolve planos de uma vida toda. É similar ao agricultor que prepara o terreno para colher no tempo adequado. Porém, assim como se espera que o clima colabore para o homem do campo, não se espera que uma paixão avassaladora desvie um dos noivos de seus planos.

De maneira quase antagônica, ao conhecer muitos dos meus possíveis caminhos, sabe que não pauto a minha vida pensado no Senhor, apesar de saber que tento controlá-lo ao palmar minhas atitudes diante das consequências que poderiam advir delas. Ainda que em determinado momento da minha vida, fui me deixando levar por minhas inclinações menos racionais e mais emocionais e instintivas. O Senhor sabe o que vivi e então nunca me senti tão vivo… Sim, vivi o melhor e o pior de viver, ainda que o melhor tenha sido tão bom que aceito o pior como uma espécie de prémio de valorização do melhor.

Apenas para não tergiversar mais, digo que prefiro estar na estrada e apreciar a viagem, à espera (sem esperar) de quando o encontre definitivamente. Tenho essa curiosidade, apesar de tudo, e não foram poucas as vezes que quase desejei fazê-lo mais cedo, confortavelmente instalado em minha casa. Talvez por curiosidade epistemológica, se bem que o objeto “morte” não seja inanimado, ao contrário. É ativo e efetivo em sua incrível capacidade de nos igualar a todos no mesmo estado dimensional.

Quando nos encontrarmos ao final (início) de tudo, espero conhecê-lo em todo o seu esplendor. Ainda que intua que seja apenas uma etapa. Espero que me desculpe se não…

Abraço!

Foto por Muffin Creatives em Pexels.com

Carta Ao Amor Ideal

Amor Ideal, como vai?

Deve saber que há muitos que o procuram em vão, não?

Onde se esconde?

Tenho por mim que, de tão perfeito, você passe despercebido em forma de cumulus nimbos que interdita a luz do Sol apenas para refrescar o calor.

Ou passa disfarçadamente como uma simples sardinha num grande cardume no Atlântico.

Com certeza, morou por um instante nos olhos verdes da moça triste.

Dever caminhar em grupo de pinguins que se juntam para enfrentar a tempestade de neve.

Estou quase certo que o vi de relance no arabesque preciso da bailarina.

Tenho por mim que esteja no beijo de boa noite de uma mãe em seu filho… também. Mas não apenas.

Sei que está no gesto de carinho do namorado no cabelo da amada, ainda que se restrinja a existir em tempo escasso, diante do cotidiano de dissabores.

Todos o desejam eterno, mas somos mortais e nossos desejos urgentes, sem compromisso com o que é permanente. Está nas ondas do mar que se quebram em ruídos d’água espumosos. No entendimento de seu fluxo e refluxo.

Está no quarto 102 de um hotel barato do centro em que os amantes se bastam por tempo determinado.

Caminha nos primeiros passos claudicantes da criança que meses antes mergulhava na barriga materna.

Outro dia, eu o encontrei numa palavra singela, mas que me fez perceber a sua eternidade — “é”.

Amor Ideal, sou dos poucos que desacredita em sua existência sempiterna.

Eu me surpreenderia se eu o encontrasse por aí, ao procurá-lo com insistência. Assim como a Felicidade, deve estar em momentos de descuido…

Foto por Pixabay em Pexels.com

#Blogvember / Cara Mia

… ela pensou que algumas viagens são mais partidas que chegadas. (Mariana Gouveia)

Lunna Guedes, que bom que você aqui chegou! A moça que veio de longe, acostumada mais a partidas do que a chegadas, aportou no altiplano paulistano, vinda de um porto do Mediterrâneo, mar do mundo velho. Mas no mundo novo também encontrou velhas práticas, antigos preconceitos, impedimentos à mulher de opinião forte. Que noite quase manhã dia feito decidiu mexer com as mentes, o artesanato da palavra em caracteres, papeis enlaçados feito o destino do pé de feijão no campo, que envolve o pé de milho? Em que momento decidiu empreender em terra brasilis (terra incógnita) a editoria de escritas pelas mãos de autores indecisos de suas lavras? Que impulso a levou a buscar-me entre outros como componente de seu Scenarium, ator novato na boca de cena da Literatura?

No mundo – Ásia, África, na América dos povos originários – as entidades ligadas à Água são femininas. Talvez seja sintomático que na Europa de onde veio, seja masculino. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, cresceu autônoma, cercada das pressões de uma sociedade machista, mas com uma mãe que a influencia até hoje, nas rememorações cotidianas.

Ontem, estive junto ao Mar. Permaneci por quase duas horas mergulhado em pensamentos aquosos. O Mar me pensava. Nele, absorvido e absolvido de minhas falhas, me sentia Um. Sou do Ar, mas brinco com a Água, ando pela Terra e brinco com o Fogo. Saio chamuscado, invariavelmente. Mas como o barro que é forjado imagem de ser humano, me levanto e ando. Agradecido por seu trabalho de artesã, pensando no texto que ora coloco em tela, repentinamente me apartei do elemento e vislumbrei as minhas mãos com os dedos enrugados. Decidi voltar ao Ar. Leve e purificado.

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes