Beber

bebo de seu copo
você do meu
bebemos com a fluidez de quem se ama
de quem sorve a vida de forma calma
com paz e placidez
mas turbulenta interiormente
revolucionando o fluxo sanguíneo
acelerando o coração
desejosos revirados
apaixonados
quando então bebemos de nossos corpos
nossas enchentes de preamar
abundância que nos deixa abastados
por um tempo
para depois nos embriagarmos de saudade

que força é essa de fundirmos nossas almas
durante segundos eternos?

transgredimos as regras
ao nos afundarmos aos abismos e pregas
atravessando montanhas por dentro
em túneis lubrificados à frente e aquém
escorregadios em avanços e recuos
carregando anos atávicos de vida
até que ela sofra um corte material
e sigamos nos amando pelo além…

Foto por Nadin Sh em Pexels.com

Respiração Boca A Boca

respiro por sua boca
enquanto mal resisto vivo
a espera de reencontrá-la
para buscar a sua língua que me fala
em silêncio de seu amor que grita
e me cala
em meu corpo que vibra em ação
vibração
em um jogo agudo de sins e nãos
toques e recortes de vida
e quase morte
sei que a minha sorte é ir ao sul
de meu norte
rumo ao reino da rainha abaixo
do equador de seu corpo
respiro por sua boca
quero ir além talvez morrer de amor
doença da qual não tenho anticorpo…

Foto por Rut Isasi em Pexels.com

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Monocromático

Eu costumo participar do 6 On 6, mas foi justamente nesse dia que sofri um golpe pelo aparelho celular. Fiquei desbaratinado e mal consegui prosseguir com os meus pensamentos concatenados. Tive que trocar compulsoriamente o meu número para continuar me comunicando com a família, amigos e clientes. Consegui recuperar pouco a pouco os meus aplicativos, incluído este com o qual me pronuncio para o mundo da escrita. Eu achei o tema proposto pela Lunna, como sempre, interessante. Gostei das imagens em tons acinzentados. Busquei como que imitá-la, mas utilizando algo que normalmente é branco ou transparente — nuvens e água.

As nuvens outubrinas tem variado em tons de cinza. Olhar o céu e encontrar nesgas em que o azul do céu aparece como um jogo de azar… ou sorte.

Devido às constantes chuvas de Setembro, as represas da Grande São Paulo que abastece a cidade voltaram a ter um nível favorável. Devido ao volume, naturalmente, por onde passei, elas estavam acinzentadas na região da Cantareira, quase como se fossem uma rodovia aquosa.

viver em cinza
não parece ser algo ruim
afinal dias ensolarados são difíceis
de aceitar
tão encalorados
assim como são as nuvens encaracoladas
mas menos encapetadas…

Em outro momento, a superfície da represa estava mais movediça, um cinza fluido, líquido… como deveria ser… o movimento cinza.

O cinzento parece ser monótono, mas a sua característica monocromática é até revigorante se mergulharmos em sua essência transcendente — nem branco, nem preto — mas ao mesmo tempo os dois. Portanto, abençoemos o cinza dos cinzas dias que se revelam menos branco que deveria, mas talvez menos escuro do que estamos imaginando… vamos esperar o final do mês para sabermos…

A última imagem é aquela que utilizei para falar sobre o golpe. O texto chama-se Golpeado. E, ao contrário das outras imagens é de um cinza escuro sólido. Tão sólido quanto o presente pesado que vivemos desde uma semana antes.

Participam:

Claudia Leonardi /  Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Silvana Lopes

Aviso Aos Passageiros

todos os dias
milhares de pessoas
sobem e descem na vida
em grandes cidades
usam elevadores para se deslocarem
para cima e para baixo
na vida nos andares
sem andarem
parados pensativos
presos
mas sempre há o perigo de as cabines
não estarem no andar
em que (deveriam) parar
é raro que aconteça
as pessoas confiam
e sequer olham
para baixo
dentro do elevador opressão
nos olhamos mas não nos vemos
observam os circundantes
avaliam cada história
não se conhecem pelos espelhos
eu tinha certo receio de embarcar
em elevadores
me sentia oprimido
desvendado em minhas faltas
quando cheio evitava olhar as pessoas
as atravessava com a minha visão
como se não existissem
quanto mais gente mais só
eu me sentia
nunca viveria em sã consciência
num prédio de apartamentos
com pessoas pisando
por sobre a minha cabeça
o que eu acho mais claro e até estimulante
é de que somos todos passageiros…

A Alma Encarnada

quando encontramos alguém
que a atenção nos chama
pode mesmo sem nos tocarmos
acender uma chama
arrepiar a pele
aquecer a alma
fazer brilhar os olhos
estando encarnados será
por sua linguagem física
que a atração espiritual
se dará
porque também exclama
através do desejo carnal
a possível confirmação
do amor em ação
sem medo
sem moderação
com entrega total…

Foto por Mariana Montrazi em Pexels.com