não importa a estrutura que apresentemos
cicatrizes haverá
faz parte de existir
seja animal planta pedra
em nosso corpo seja em perna
braço cabeça mão
seja de amor no coração
na pedra a diferença da composição
mineral química cristalina vulcânica
não difere da estrutura do meu peito
endurecido após tantos revezes no amor
sou como o senhor da eternizada dor…
Categoria: Poemas
29 / 06 / 2025 / Poentes No Cais

Sentado no cais,
todas as tardes,
eu me coloco a observar a linha do horizonte…
Lusco-fuscos da minha perdição…
Todos os dias,
a essa hora,
há essa hora
em que revivo o momento da despedida…
Ela se foi…
sem ter a delicadeza de desaparecer
em barco a vela silente…
Foi para o continente,
célere como o pendular instante,
em ronco de motor potente…
Fiquei na ilha, ilhado…
Solidão por todo o lado…
Em dias nebulosos,
não há diferença entre o firmamento
e o mar,
entre a noite que chega
e o dia que vai…
Então, me sinto melhor…
Porque mergulho em um mundo
de oceano sem fundo,
um buraco negro,
de luz abduzida…
De nosso amor,
restou pores de sol,
tempestuosos e brilhantes,
de raios fugidios,
figuras de corpos esguios…
assim como o seu,
que espero voltar,
até anoitecer
ou o Tempo acabar…
24 / 06 / 2025 / Minta
eu desejo que minta
diga que me quer tomar por inteiro
neste abrasador janeiro
pela última vez neste quarto de quinta
que sujamos os lençóis de fluidos
seres que somos — excluídos
não fazemos conta na multidão
somos dos últimos os derradeiros
aqueles que ninguém gosta
ainda que queira ser percebida como distinta
desista
não gostou quando lhe comparei a uma gimba
de cigarro fumado ao meio
é que não estava presente quando o homem
em andrajos a encontrou jogada no chão
junto ao muro
e em um tênue murmúrio
a desejou entre os lábios
a aspirar sua fumaça cancerígena
perguntou a mim que passava por ele
se eu tinha fogo
se decepcionou quando eu disse que o meu fogo
ardia apenas no coração
praguejou: “caralho, você é mais maluco que eu!”
ficaria feliz a me juntar a ele e esquecer de mim
viver a andar a esmo sem rumo sem destino
em desatino
longe de mim de você que vive em mim
mas agora quero apenas que minta
que finja que simule gozar para mim
que se sinta tão limpidamente suja
como a puta que se vende por pena pura
e sequer dinheiro fatura
se assim for então nunca mais me verá
jamais passarei de novo por perto de sua presença
sei que não sentirá a minha ausência
mas quem sabe sinta uma espécie de vazio
como um calor tépido de uma febre que se perpetua
a fome de algo que lhe caiu bem mal
talvez sinta falta do pavor que lhe causava
como o gosto de sal na comida rala
ou uma topada que lhe lembrava que a dor não é opcional…
Foto por Aleksandar Pasaric em Pexels.com
16 / 06 / 2026 / 15 Fatos Sobre Mim*
Fui desafiado a postar 15 curiosidades sobre mim. Sinceramente, não vejo em que isso possa interessar a alguém, mas percebo que esta possa ser uma oportunidade de não levar as coisas tão a sério. Quando falamos de nós, tendemos a melhorar o nosso perfil, principalmente neste espaço do Facebook. Olhando retrospectivamente, há alguns detalhes curiosos que acho indicativos do caminho que percorri até aqui…
1 – Nasci a fórceps. Eu estava invertido, sentado. Esse detalhe serviu de piada para que em casa se justificasse a minha aparente falta de vontade de fazer as coisas que pediam –– pai e mãe. Em verdade, quase sempre estava ausente, viajando para bem longe…
2 – Nascido no centro de São Paulo, vivi no Largo do Arouche até os meus 5 anos de idade. Eu me lembro de ter sido feliz e conversava com fantasmas.
3 – Também fui feliz ao me mudar para a Penha. Vivi no bairro por três anos. Lá, aprendi a empinar pipas, a andar de bicicleta, subir em árvores e a escrever. Foi lá também que tive as primeiras experiências de carnaval de rua, na Vila Esperança. Queimei o meu rosto quando joguei gasolina em uma fogueira onde o meu tio cozinhou um tatu. Levei uns tapas da minha mãe.
4 – Ainda na Penha, como a minha mãe demorava em nos pegar na escolinha do bairro, a mim e meus irmãos, decidi levá-los de volta para casa. Andei pela antiga Estrada de São Miguel Paulista por dois quilômetros e quase matei a minha mãe do coração quando não nos encontrou. Devo ter levado outros tapas! Perdoa, mãe!
5 – Até os meus oito anos, a minha mãe dava o meu café com leite na mamadeira.
6 – Tive incontinência urinária noturna até os 9 anos de idade. Somatizo. Fiquei com a boca torta quando garoto e, quando adulto, tive lesão cervical por estresse emocional. Quase morri duas vezes — uma, por conta de uma gastrite hemorrágica e em outra por ocasião de uma crise hiperglicêmica. Desenvolvi Diabetes.
7 – O que se chama atualmente de “pakour”, praticava nas lajes do bairro no qual vivo até hoje, dos 8 (quando mudamos) até os 12 anos de idade, quando comecei engordar além da conta.
8 – Junto com o meu pai, fui catador de papel. Nós íamos com a Gertrudes (nossa Kombi) para os bairros mais nobres de São Paulo onde recolhíamos papel e papelão, além de alguns metais, para revender. Acho que isso durou até os meus 14 ou 15 anos.
9 – Graças à função de catador de papel, recolhi vários livros que guardo até hoje, aos quais devorava. Essa circunstância deu ensejo para que o meu pai vivesse pegando no meu pé, pois atrasava o nosso serviço, além de diminuir a receita que auferíamos.
10 – Nem sempre fui míope! A minha personalidade ganhou óculos aos 12 anos. Graças a isso, deixei o meu sonho de jogador de futebol de lado. Tudo bem! Sempre fui um jogador apenas razoável, apesar do chute forte e bem colocado…
11 – Fui granjeiro, criador de galinhas, patos e vendedor de ovos produzidos em nosso quintal. Um projeto de minha mãe. Também trabalhei nos dois bares que ela montou por alguns anos até os 21 anos.
12 – Aos 21 anos, depois de crises existenciais, leve síndrome do pânico (hoje, eu sei que passei por isso), três repetições de séries, um ano sabático fora da escola, passei na FFLCH-USP, no curso de História. Deixei História e entrei para o curso de Português, na mesma faculdade. Depois de outras crises, incluindo financeiras, também saí da USP.
13 – O principal motivo foi porque casei, aos 27 anos, com a minha mulher, Tânia, e precisava trabalhar. Ela estava grávida e eu, desempregado. Havia deixado de trabalhar como “roadie” em uma banda e tentei entrar na TV como técnico em iluminação. Como não deu certo, voltei a trabalhar depois de algum tempo com sonorização e iluminação, locando equipamentos através da nossa pequena empresa, acompanhado de meu sócio e irmão, Humberto. Completamos, neste ano, 25 anos de empreitada com a Ortega Luz & Som.
14 – Até os 16 anos, fui ateu ou agnóstico, a depender da amplitude do conceito. Um livro mudou a minha percepção do mundo: “Autobiografia De Um Yogue Contemporâneo”, de Paramahansa Yogananda. Eu me tornei vegetariano aos 17 e o fui durante dez anos. Estava, então, bastante influenciado por filosofias orientais. Estudei várias religiões –– Budismo, Hinduísmo, Espiritismo, Cristianismo –– e mesmo não sendo católico de alma (estudei História, lembram?), quase entrei para a Igreja, na intenção de vestir o hábito franciscano. Por essas e por outras motivações, apenas com a Tânia tive a minha primeira relação sexual. Casei de branco, mas a Romy já estava a caminho. O meu casamento completou 27 anos, em maio.
15 – Eu sou um homem muito rico: tenho uma linda família, que eu amo! Sou feliz por poder ter dado ensejo à expressão e compartilhamento das vidas das minhas filhas Romy, Ingrid e Lívia!
*Texto de 2016



