17 / 01 / 2025 / Tarde-Noite

É tarde, mas tão tarde…
Porém, ainda não é noite
Ainda não sinto o açoite
Da escuridão que me parte…
Mais algumas horas virá a luz
Cortante como a certeza da morte
Inescrupulosa como a sedução do amor
Desejos de toda a sorte
Segredos de nenhuma importância
A não ser o mais evidente temor da dor…

13 / 01 / 2025 / Minhas Amantes

maria do arouche lembro pouco
cor de entardecer em dia fechado
babá gostava manipular meu saco
era muito novo ainda conectado
com vida antes de chegar ao útero
via fantasmas nos corredores
andava parapeitos
namorava amiga morte 
chama cama de estrelas
meu avô logo cortou nosso laço
engatei com maria da penha
cresci em liberdade peripécias
fazia tudo que queria
sem compromisso apenas gozo
não me importava mas amava
parece outra vida
deixei porque fui para longe
bárbara encontrei fiquei anos
achei nunca terminaria paixão
bater bolas contra a bunda
na parede na cama no chão
sonhava era santa
eu gritava entusiasmo feito gol
comi duas mesmo lugar
épocas diferentes não se conheceram
provaram minha torpeza
primeira nunca disse amor
segunda entreguei ao melhor amigo
altíssima alternativa cabelo à la garçon
conheci maria tenente
olhos verdes amedrontavam
nunca toquei sequer abraço
somente olhares lenço sujo sangue
ideal ilusão perfeição eternidade
somente entregou irrealização
nunca esqueci sempre amarei
era bonito atraía sem esforço
fiquei com duas anas
a santificada bem mais tempo
servia a muitos depois que deixei
ainda trepei muitos anos muitas vezes
outra ana loura sonhadora
disse gostava de mim
sou de ninguém de alguém sequer
pertenço a mim vivo apaixonado
maria maria noiva meu amigo
usei muito a língua
toques debaixo da mesa
deus ausente como navio negreiro
biologia estudo profundo casou
la bergman foi intenso durou verões
veros versos não comunicados
alcancei seu corpo debaixo avental
desilusão me jogou fora entulho removeu
tati e amiga quis as duas
na mesma casa não lembro
tanque velho nos fundos
bebi demais vomitei desmaiei
eternas amigas
refez história brilhou minha vida
pintura de mulher ensinou
nova posição bicicleta outra noiva
nunca a beijei 30 anos passados vi passar
não a chamei
augusta andrógina cheia
altos baixos travesti do centro
aos jardins comi da boca a bunda
noites infindas
vitória era inocente puta
jacaré cocou 7 vezes não pagou
vamos fazer neném?
paguei sempre às vezes só olhava
efigênia irmã mais rodada
velha não envelhecida
elixir da juventude atual virtual presencial
dá a todos os gostos versátil
sempre que posso como sem proteção
maria antônia antônimo passado conturbado
duas caras que se antepunham
hoje vive calmaria comi atrás
em palco plateia teatro
verediana angélica cecília amores livres
simultâneas especiais brigava com uma
encontrava com outra consolação
agitadas corcoveavam 
suava para satisfazer queria ser notado
elas não se importavam tinham
quem quisessem quando queriam
estranho estrangeira maria paulista
ama sem identificar despreza sem qualificar
retilínea beleza sem cor amo desamo
volto a amar amante inconstante ferina
amável indigna perfeita anomalia
amante infiel amo fielmente a sem nome
aprendi amar foder amar trepar amar lamber
amar bater amar puxar amar chupar
amar rápido amar lento amar alento
amar beber amar comer amar orar
amar chorar amar sorrir amar gritar
amar brigar amar voltar sem voltar amar
amantes de hotéis baratos abençoados por santos
centrais laterais três corações zardoz 
córregos regos monte carlo sempre haverá
são francisco finalmente total sentido
sem chance nascer outra vez
eterna paixão que se fez
sagrada porque acabou.

Foto por Anna Shvets em Pexels.com






12 / 01 / 2025 / Encontro Calado

voltei a encontrá-la
estava entre amigos
ainda que não quisesse
beijei o seu rosto abaixo a luz difusa
de seus olhos de entornos vincados
visíveis apesar da maquiagem
exprimiu um sorriso sem dentes
eu invadira o seu espaço de forma brutal
sabia que a incomodava
com o meu cheiro de antigo amante
o qual fazia questão que mantivesse
sem perfume fantasia industrializado
gostava de cheirar meu pelos
beijar a minha boca de língua intrusa
que descia por pescoço colo mamas pequenas
umbigo perfeito
e triângulo das bermudas
coxas joelhos e pés
que expunha o seu coração de joelhos
costas musculosas ombros que segurava
meu mundo de homem
foi um encontro calado sequer um “tudo bem?”
mas o rumor que ainda percorre por minhas veias
de lembranças alardeia que nunca a esquecerei…

Foto por Cameron Casey em Pexels.com

O Mundo Abaixo Do Meu Umbigo

tenho dormido pouco coisas da idade
mas hoje acordei cedo para ver o meu amor
poucas forças me movem — amar
escrever e trabalhar
o futuro normalmente já está posto de antemão
procuro estoicamente não me preocupar
mas o amanhã que já aconteceu
será decisivo para o país
indecisos decidirão que rumo tomaremos
agora já está decretado para sempre
uma nação separada mas que já é
antes de sair deixei recicláveis na calçada
enquanto caminho para o ponto
por mim passa uma senhora que revista sacos
sei que ficará satisfeita com os meus restos declinados
minhas sobras a alimentarão
assim como me refestelo de dejetos

as minhas inspirações
me escrevo paladino de manhãs solares
sentindo que me equilibro à beira
do buraco escuro da existência descendente de assassinos
que mataram a si mesmos esperançosos
sem buscar o que lhe são mais íntimos
de norte a sul a bipolaridade
de este a oeste a singularidade
do trajeto luminar todos que vão
sem sentido vão sequer que fosse
enquanto presencio esgares e palavras de ordem
por ruínas muros murais de arte rueira
limpo minhas fossas nasais de restolhos
renite renitente em choque térmico
passeio em ônibus me turistando
em sólida solidão coletiva sobre quatro rodas
em pele e carne que (em) breve sentirá
outra pele e outra carne sendo uma só

não consigo transcender além
de meu mundo meu umbigo
mal visito o território visto vestido de antagonismo
no entanto estou indo amar por metrô
trilhas marcadas por trilhos assentados
por mortos
mais alguns quilômetros transfiro o centro
do universo para abaixo do meu umbigo
deixo marcas de meus dedos no corpo da amada
gozo em desespero milhas de voos em jatos
em clara manhã de sol antes da tempestade
enquanto ouço (ou penso ouvir) desesperançado
cascos de cavalos no asfalto…

Foto por cottonbro studio em Pexels.com

O Amor É Foda

por que não me chama?
que esta chama que me abrasa queima que dói…
nos unimos para brincar de fogo
coisa de jovens
ainda que muito mais jovens já fomos
bebemos um do outro a água
que saciou a sede mas não matou a seca
renascida a cada estação de dias
rios desviados e ventanias
ciclos de algo que não conhecemos a profundidade
sentimos que ainda não chegamos ao fim
por mais que estejamos partidos em mil pedaços
como que espatifados contra a concretude da realidade
lutamos contra as forças inequívocas da natureza
que nos moldaram os corpos fadados a desejar
em evoluções de cantos músicas danças
esperas e ânsias esperanças
quando deitamos levantamos
pernas braços membros expectativas
vontades redivivas para não morrermos em vida
que viver é morrer todos os dias
para a solidão que nunca deixa de tentar prevalecer
sobre a bola azul
resta amar é muito mar mais que terra
a boca fala e a língua diz muito tanto
as mãos tocam as peles se pronunciam
as entradas se expõem às penetrações
e abrasões com pupilas dilatadas
movimentos de placas terremotos
volta ao mundo consumação do gozo e da dor
da roda que gira e roda que roda
sem sentido e sem nexo
o sexo é sexo
mas o amor
ah! o amor é foda…