BEDA / O Sorriso

caminhando pela cidade
ia ao seu encontro pela primeira vez
subi os andares que me conduziriam até você
bati na porta você atendeu com um sorriso
parecia que seu corpo todo sorria
quando a abraceil
nos beijamos a desejei no instante que a toquei
me ofereceu café
pãezinhos quentes
frutas
adiamos retirar as roupas
enquanto conversávamos sobre tudo
e nada e ainda assim tudo tinha sentido
poucas palavras gestos em direção
aos corpos beijos em que línguas caladas
expressavam a linguagem do amor
nos entrelaçamos braços pernas mão dedos
em libertação de movimentos
permanecemos assim por momentos
eternos escassos
permaneci na cama enquanto se levantava
foi à cozinha nua enquanto preparava uma bebida
a vi de costas bela quadril majestoso
me aproximei beijei seu pescoço
o menino rijo desejoso
a menina à espera do reencontro
úmida me aceitou inteiro quente
eloquente
em minhas mudanças de posição
foi um momento que ainda reverbera em minha lembrança…

Foto por Rodrigo Santos em Pexels.com

BEDA / Cegos

encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
exploramos desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
experimentando o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…encontrados
cada um por si a cada um de nós
quisemos nos perder em olhares
e fomos tão fundamente
que ultrapassamos a interpretação
das mentes
que mentem desmedidamente
quando se trata de paixão
fechamos os olhos
apagamos a luz
tínhamos que nos unir em corpos
que não nos dizem mentiras
procuramos as nossas bocas
nossas línguas encontrando as suas rotas
explorando desvãos e precipícios
as permanências oscilantes do desejo
de intensas a mais intensas
tateando as reentrâncias
protuberâncias e volumes
por dedos-mãos, peles, pelos
sede de beber líquidos
explorar o gosto agridoce do prazer
em cálices e copos
em urros e ais
servidos à cama,
parede, mesa, sofá, tapete, o chão
pela química dos enfim mortalmente
feridos, exangues
de corpos presentes
estirados e velados
em silêncio
à penumbra…

Foto por Lucas Mota em Pexels.com

BEDA / Romy

Há 37 anos vinha à luz do dia a primogênita da Família Oliveira Ortega. Quando chegou depois de um processo longo e doloroso de trabalho de parto, acabou por se decidir pela cirurgia para retirá-la do útero da Tânia. Quando a vi pela primeira vez, estava envolvida em panos simples, assim como era simples a estrutura da Maternidade da Casa Verde, já fechada. A Tânia, experiente na sua profissão de Enfermeira, pediu que eu a retirasse de lá urgentemente. Na época, ela trabalhava no Albert Einstein, então diante da enorme discrepância de qualidade de atendimento, ela não viu alternativa senão ir embora, com 16 horas de operada. Em casa, percebemos com o tempo que a icterícia que eventualmente ocorre com recém-nascidos, não declinava. Foi o início de nossa saga para entender o que ocorria. O resto é história de alguém que redefiniu a minha vida e a de muitas outras pessoas. A 12 de Agosto de 1989, o grande sucesso musical no Brasil era “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte.

por mais que eu quisesse ser feliz
nem saberia dizer como se daria
a trama que envolveria tanto amor e dor
a vida que medrava como flor
delicada
que deveria ser cuidada
todos os dias todas as horas
que orava que o sofrimento não se desse
que o seu corpo-flor sofresse
eu feito um jardineiro
em que doía o coração por não poder evitar
que o vento frio lhe arrebatasse
a pele o peito braços pernas cabeça
mas o espírito leonino persistia
a lhe conduzir o caminho
a lhe angariar simpatia
a trazer amizades e alegria
a agora mãe de Cora e Coralina
cuida de vidas dependentes
gatas que são vorazes por comida
assim como a mãe é pela vida
que a sagrada família perdure
que a alegria a cure em sua passagem
e que os momentos de felicidade
seja a marca de sua mensagem…

BEDA / Salivando

a invernar
debaixo das cobertas salivamos
você cavalga as minhas coxas enervadas de músculos
quase goza em delírio
nossa última refeição uma maçã com nossa saliva
alimenta nosso desejo em parte
mas queremos praticar a nossa arte
de amar nossas bocas ativas unidos
línguas que falam todas as línguas
e exprime grunhidos
de prazer e entrega
nossa busca cega em descobertas
quando nossos sexos se encontram
entradas e saídas em coreografia incessante
cada vez mais acelerada caminhos sem interdição
corpos em constante ação
quem nos julga são aqueles que não aceitam
os nossos pecados porque não são os deles
são vítimas do desamor do horror
de não se amarem uns aos outros
e
infelizmente
não
são
poucos…

Foto por Moussa Idrissi em Pexels.com