BEDA / Romy

Há 37 anos vinha à luz do dia a primogênita da Família Oliveira Ortega. Quando chegou depois de um processo longo e doloroso de trabalho de parto, acabou por se decidir pela cirurgia para retirá-la do útero da Tânia. Quando a vi pela primeira vez, estava envolvida em panos simples, assim como era simples a estrutura da Maternidade da Casa Verde, já fechada. A Tânia, experiente na sua profissão de Enfermeira, pediu que eu a retirasse de lá urgentemente. Na época, ela trabalhava no Albert Einstein, então diante da enorme discrepância de qualidade de atendimento, ela não viu alternativa senão ir embora, com 16 horas de operada. Em casa, percebemos com o tempo que a icterícia que eventualmente ocorre com recém-nascidos, não declinava. Foi o início de nossa saga para entender o que ocorria. O resto é história de alguém que redefiniu a minha vida e a de muitas outras pessoas. A 12 de Agosto de 1989, o grande sucesso musical no Brasil era “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte.

por mais que eu quisesse ser feliz
nem saberia dizer como se daria
a trama que envolveria tanto amor e dor
a vida que medrava como flor
delicada
que deveria ser cuidada
todos os dias todas as horas
que orava que o sofrimento não se desse
que o seu corpo-flor sofresse
eu feito um jardineiro
em que doía o coração por não poder evitar
que o vento frio lhe arrebatasse
a pele o peito braços pernas cabeça
mas o espírito leonino persistia
a lhe conduzir o caminho
a lhe angariar simpatia
a trazer amizades e alegria
a agora mãe de Cora e Coralina
cuida de vidas dependentes
gatas que são vorazes por comida
assim como a mãe é pela vida
que a sagrada família perdure
que a alegria a cure em sua passagem
e que os momentos de felicidade
seja a marca de sua mensagem…

BEDA / Salivando

a invernar
debaixo das cobertas salivamos
você cavalga as minhas coxas enervadas de músculos
quase goza em delírio
nossa última refeição uma maçã com nossa saliva
alimenta nosso desejo em parte
mas queremos praticar a nossa arte
de amar nossas bocas ativas unidos
línguas que falam todas as línguas
e exprime grunhidos
de prazer e entrega
nossa busca cega em descobertas
quando nossos sexos se encontram
entradas e saídas em coreografia incessante
cada vez mais acelerada caminhos sem interdição
corpos em constante ação
quem nos julga são aqueles que não aceitam
os nossos pecados porque não são os deles
são vítimas do desamor do horror
de não se amarem uns aos outros
e
infelizmente
não
são
poucos…

Foto por Moussa Idrissi em Pexels.com

Apaixonada Pela Vida

quando a encontro fico na expectativa de voltar a mergulhar
em momentos de entrega e sedução
ela confessa que sem mim passeia de pés descalços
pelo chão da solidão
pede para que eu me deite e vem em minha direção
pronta para me abocanhar inteiro
ainda que seja apenas uma parte de mim primeiro
me deixa com o coração extasiado
meu pelo arrepiado
transcendo
e fico me sentindo sendo
mais do que sou
torno-me vivo aceso louco de paixão e desejo
quando a possuo
boca à procura da sua menina enveredo por caminhos
quentes vibrantes língua a bebê-la a sentindo plena
emoções profundas mas leves como uma pena
quando estou com ela permaneço fora do tempo
ainda que o meu relógio interno me chame para fora dela
porque provavelmente eu me perderia
e o meu espírito indeciso de mim se sentiria
em perigo de abandonar-me de vez para ir a norte de mim mesmo
e, por lá… ficar…

Foto por Polina Tankilevitch em Pexels.com

Mulheres Que Esperam

praça de alimentação de um shopping
famílias homens mulheres crianças
cães vez ou outra ladram
os sinos de avisos repercutem
sonoros agudos
pessoas falam alto
pensativos um ou outro dos presentes
permanece mudo ausente
do presente
muitas mulheres estão sós
esperam
olham pelo celular possíveis mensagens
a hora que passa nada pediram
intimamente pedem talvez que não se atrasem
ou mesmo que isso ocorra que venham
eu me intrometo em suas histórias
proponho alternativas viáveis
e poucas escapam de uma constante
esperam homens compromissados com outras
com deveres familiares
tentam fugir de suas prisões
uniões
que se esgarçaram
com o tempo buscam viver
novas emoções encontros com o furor juvenil
já envelhecidos se sentem remoçados
e quem os espera sabe disso
algumas conhecem as companheiras
possíveis amigas
mas se sentem apaixonadas não assumem
que sejam invejosas
mas estar com o objeto de desejo
as fazem se sentir poderosas
mas aqueles a quem esperam
são simplesmente homens
num mundo em que seu poder se desmorona
se comportam como seres sem honra
ou apenas escapar da rotina da lida
sentirem que estão vivendo novas sensações na vida
talvez nem gostam de quem venham a encontrar
porém querem se enganar
que ainda têm o poder
de brincar com os sentimento das mulheres
viver a emoção da conquista
quando sempre serão elas que se permitem
também brincam com a capacidade de seduzir
buscam conquistar novas possessões
num mundo utilitarista apenas
visitar outros corpos como turistas
não querem que eles se apaixonem
que fiquem pegajosos
grudentos ciumentos brincam com fogo
transformam ambos em um jogo
que se nisso ficassem não seria de todo mal
gozo prazeroso acima das leis patrimoniais
abaixo das obrigações sociais
para os outros mentirosos
pessoas de vida dupla
para si mesmos mulheres e homens portentosos
sem culpa…



Foto por UMUT ud83cudd81ud83cudd70ud83cudd86 em Pexels.com

16 / 12 / 2025 / Engolidora De Mim

manhã de amena insolação café na mesa
pão crocante manteiga sem sal creme de ricota mel
mamão uva geleia de morango chocolate e surpresa
com toda a delicadeza você se esgueira entre os pés
do tabernáculo sagrado da refeição matinal
abaixo da elevação ouvimos o som da água
descendo em correnteza que se choca entre as pedras
retumbante em dança e música da natureza de ser
livre presente em se desfazer e se reagrupar
em poças filetes remansos rebeldes limpos
aproveita que estou apenas de calção
retira a proteção e fico exposto à sua adoração
eu que já adivinhava a sua intenção
já estava a intumescer aquele que pensa por si só
e você ama que ele responda mesmo depois de tantos anos
a sua boca o beija passeia a língua por onde deseja o possui
estamos ao sul de qualquer norte a luz solar a invadir
a nossa intimidade fluida e inocente sem mancha
enquanto reza busca a profundeza de si geme eu quase urro
sem testemunhas de tamanha beleza quase choro
não é pelo gozo não é pelo prazer não é pelo vazio que me preenche
não é pelo abandono de consciência de que sou um com o todo
com a sua entrega me tem sob seu controle
apenas consigo entender que sou possuído
enquanto me sinto liquefeito mole
passeio por outros mundos vívidos
me energizo me perco me integro me entrego
enquanto você me engole…
me deixa exangue mas me arranca um sorriso
quando agradece: “obrigada pelo gole!”…

Foto por Angela Roma em Pexels.com