sei que sou mortal morrerei um dia mas há coisas que são imortais enquanto vivos viveremos de saudade e desejos de alcançar e perseverar passeios no vazio nos encontros e eventuais reencontros ainda que nunca tenhamos nos ausentado as lembranças sem nunca serem olvidadas vontade de retornar aos âmagos animados há momentos que não morrerão imagino que gravados na consciência universal um repertório infinito de dores e amores vivências de alegrias e tristezas grandiosidades e miudezas sonhos tudo recolhido e espargido pelas galáxias mundos e sistemas solares milhões de vezes reproduzidas em quem ama submergido nos genes das humanidades universais nesta terra que se desfigura em cada estação em cada canto esquinas bares casas casebres mansões peitos corações em cada canto dolorido doloroso em cada nota das flores que emitem mensagens sonoras inaudíveis apenas para os insensíveis o que tenho certeza é que o amor sobreviverá marcado pelos átomos dispersos do planeta destruído abarcado pela explosão do sol daqui a muitas idades caminhantes pelos universos embalados pela saudade…
há crenças mesmo para quem não crê em nada o que já é uma crença há quem acredite de acaso no amor que se transforma em caso quando o encontro se dá há quem não acredite no amor seria uma série de episódios esparsos envolvendo sinais ações visões versões de fatos afeições transitórias e fátuas os corpos não ajudam atrapalham quando se tocam reagem quimicamente os pelos se eriçam as peles se pelam de calor fulgor de fogo paixão querência desejo falta versus falta a se completarem as bocas respondem as línguas caladas mas ativas os sexos a buscarem satisfação os sentidos em explosão busca de sentido que perde sentido e direção as horas se perdem dos ponteiros não creio em acaso mas nele boto fé os dados sendo jogados à revelia de nossa sofreguidão se encontrando em linhas de aparentes paralelas contra todos os prognósticos dois corações começam a bater no mesmo ritmo desenfreado concorrendo para que um instante se torne eterno marcando memórias recorrentes mesmo que apartadas no tempo e no espaço viver é viver de lembranças encontros desencontros o amor um caso de acaso criado pelo destino de nossos egos tontos…
tudo poderia ficar para depois mas as lembranças não adiam a estadia enquanto os esquecimentos fazem morada permanente não há mágoa mas há para mim não vivo dias porém eternos minutos passo a passo e em cada um deles para cada memória aleatória uma parte de sombra e perdas porque não fui feito para interagir mal consigo lhe dar comigo me olvido de mim esqueço quem sou para onde vou não sei de onde vim me sinto apartado do mundo mas nele vivo quantas vezes no chuveiro olho para os meus pés em contato com o piso alagado de reminiscências que escoam pelo ralo a água é meu elemento preferido principalmente a salina nas ondas peito os enfrentamentos e afogo meus desejos enquanto os afago sim eu os tenho sou movido por eles os refuto conscientemente ainda que os concretize na temporada junto ao mar chuvas constantes raios que matam e ferem após um dia em inquietude desejei ir para a areia tarde em escuridão de nuvens carregadas efeitos de zcas el niño la niña seres humanos apesar disso entrei oceano adentro me banhei de penitência pensando que talvez morresse cercado de solidão a minha miopia imperante meus últimos pensamentos na desconhecida de todos visão para outro estado de ser talvez morresse naturalmente fulminado por um raio mas sobrevivi para continuar a magoar…
Arpoador Beach, Devil’s Beach, Ipanema district of Rio de Janeiro –Brazil, South America
quero… desejo… vou de encontro… invado… devagar… passos silentes sobre a areia e a pedra… o meu corpo recebe em ondas as águas mornas do abraço marinho desta manhã que se anuncia receptiva ela também me deseja as águas se mostram aparentemente turbas rebeldes consigo ler a sua dinâmica de mulher apaixonada fogo em forma aquosa os meus membros a penetram como um cavaleiro de espada em riste em uma batalha que já perdi sei desde o início mas guerreio fardo de homem que ao oceano ama e por ele se derrama em sal eu o decomponho e o absorvo em minha mente de querer amoroso marolas se disfarçam de amantes desfaço-me em pequenas porções de moléculas de oxigênio e hidrogênio o meu ego apartado de mim é lançado no mar profundo me entrego ao beijo da amada no amanhecer revelador raios de sol por testemunha de que sou seu amor morro para esta existência em gozo transformado em milhões de gotas a rebater na arrebentação junto às pedras do arpoador…
O tema proposto para este 6 On 6 me deixou um tanto desconcertado. “Viagem Literária” era mais ou menos a sensação que eu tinha antes de empreender viver a vida literal. Eu era um sujeito fora do mundo “real”, em que cada dia surgia como um capítulo de um livro escrito página por página a cada hora. Viver, de certa maneira, era bastante penoso porque as personagens envolvidas se expressavam de maneira irregular em enredos aparentemente sem sentido, ainda que eu acreditasse que nada fosse por acaso.
O meu “texto” inventava uma realidade que não batia com a dinâmica humana. Aceitar que a maioria das circunstâncias apresentavam razões impenetráveis para um autor que tentava escrever sua própria história só se resolveu quando abandonei a escrita e comecei a trajetória de homem casado, com filhas para criar. Ganhei uma apresentação de capa que me habilitou a ser considerado “normal”. Durante alguns anos, vivi a “vida louca” de um cidadão comum. até que as redes sociais me possibilitaram voltar a expressar minha visão de mundo sem compromisso, de uma forma menos formal.
A minha viagem literária passa pelos textos que apresentei ao longo anos, porque ainda que tentasse escapar da formalidade, o escritor voltou a ganhar peso e que em 2015 acabou por ingressar num projeto — da Scenarium Livros Artesanais — que desde então me estimula a assumir o compromisso de me tornar o melhor escritor que eu possa ser.
Neste dia Dia de Reis de 2021, recebi de presente, em papel transparente, uma “sensação de estranhamento feliz”. À primeira vista, esta fruta que encontrei no jardim, parecia um pequeno abacate. O abacateiro que tínhamos se foi há algum tempo. Após lavá-la, ao posicioná-la para a foto, quase a confundi com uma pera. Ao toque, devido a lisura de sua casca, ficou evidente tratar-se de um maracujá mesmo já que, além das mangas (no final da safra), jabuticabas e goiabas, só temos mesmo um maracujazeiro em plena produção. A sua forma inusitada, causou aquela sensação nomeada acima. Um pequeno bálsamo em relação à antípoda “sensação de estranhamento infeliz”, tão em voga em 2020. Feliz Dia de Reis!
Imagem de 6 de Janeiro de 2016
Discos que não serão mais tocados Céus que não serão mais riscados Por pipas, aviões, ovnis, seres alados Amores que não serão mais amados Por você, por mim, por nós, passados Todos, pela moenda dos sonhos dourados… O Tempo!
Este ano esta mesma imagem ocorreu igualmente, mas esta é de 2013…
Da janela do meu quarto, se alcança as frutas. Este ano, houve uma superprodução de mangas, o que as minhas cachorras muito agradece! Quase sempre vejo um cão chupando manga e eu acho lindo! Durante todo o dia, se ouve o som do baque das filhas que abandonam as pencas mais amaduradas e elas se aproveitam, incontinentes. Nós, os humanos, a aproveitamos in natura, em suco e até para fazer sorvete. Estas aqui ainda estão verdes, mas por pouco tempo…
Meu quarto livro lançado pela Scenarium… em maio de 2021
No início de 2021, estava sentindo as consequências de me abrir para o mundo. Tudo me atingia. A situação do País em meio a uma Pandemia, envolto pelas sombras de um Reacionarismo que se autointitulou de Conservadorismo, como se devêssemos conservar todas as mazelas não de um passado recente, mas do Colonialismo — poder aos brancos, homofobia, misoginia, massacre dos originais da terra, exploração predatória de um país em que se plantando tudo dá. Pindorama sendo novamente devassada por usurpadores que acreditam que não existe lei ou pecado abaixo da Linha do Equador. Curso De Rio, Caminho Do Mar desaguou em páginas da Scenarium Livros Artesanaise me salvou de afogar em tanta angústia. Nele, tento manter a cabeça fora d’água, mas não deixei de mergulhar em águas profundas.
Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”. Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”. Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros Artesanais — REALidade — por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no Home Office. É meio difícil explicar a forte personalidade dessa “pessoa”…
Este poema eu escrevi para uma apresentação no lançamento das publicações da Scenarium Plural – Livros Artesanais, em agosto de 2016, ao qual infelizmente não pude comparecer. Trata sobre um tipo que se sente depreciado e que se auto denomina “O Segundo”. Estranhamente, a linha final parece atual e premonitória (da época do golpe do CongressoNacional sobre a Dilma e a assunção do vice, Temer), se bem que o entendimento possa tanto ser utilizado em relação ao personagem quanto à contagem do tempo.
O SEGUNDO
Ser protagonista não é o meu papel. Sou o escada no número de humor. Sou o segundo do lutador. Sou o amigo tímido do namorado. Era reserva do goleiro no time de futebol. A opção confiável, mas nunca escolhida. Ficava com as sobras da comida. Eu me tornei o primogênito, porque o meu irmão mais velho morreu… Casei porque a minha mulher foi deixada e eu estava lá para a consolar… Na cama, os gemidos dela nunca foram para mim… Certa vez, o nome do outro foi murmurado… Sigo sendo servidor de segundos… Outros segundos tempos… O meu consolo é saber que a História dos tempos é contada por segundos…