#Blogvember / Começo… Fim

Teatro: artista que sou, prisioneira da vida, o que me resta senão representar? (Rozana Gastaldi Cominal)

Foto por Pixabay em Pexels.com

não acredito em fim…
nem em começo
a energia é circo é lar
circular
sessão após sessão
um nunca terminar
representar
o que me resta
senão ser artista
prisioneiro da vida
algo tão grande quanto pequena
porque tudo abarca
a barca
eterno navegar entre sóis
sós e totais
por galáxias e vazios plenos
ser marinheiro capitão
servidor do convés
carregar o timão e o temor
de não saber a rota
viajar em círculos concêntricos
excêntricos cada vez maiores
experimentar saberes e mentiras
ciclos
ultrapassar campos e núcleos
imersos uns nos outros
em busca de novos continentes
e formas
um lugar onde ficar
encontrar outros conviver
exterminar reproduzir assentar cruz e bandeira
de invasor predador criador mantenedor
ser pais mães filhos e avós
morte e vida…
matéria e além…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Oposição

O toque suave dos teus lábios adormece em minha boca (Suzana Martins)

quando já não sabemos se anoitece
ou se amanhece
quando não sabemos se temos o céu sobre
ou sob as nossas cabeças
ou quando nada disso importa
já que em algum lugar deste planeta
uma parte dos seres 
estará inevitavelmente em posição
oposta em relação à outra
mas o que eu mais queria era opormos
nossos corpos mãos a tatear nossas peles
adivinharmos no escuro nossas posições
pés sem chão no horizontal
em ponta cabeça em frenética busca do centro
do prazer abaixo do plexo de cada um
após o lusco-fusco no horizonte
de nossos sonhos acordados
enquanto o toque suave dos seus lábios
adormece em minha boca…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Morte Saborosa

— minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia (Mariana Gouveia)

Foto por mododeolhar em Pexels.com

calor infernal
gotejo de graça
lambuzo de suor a quem toco
sinto sede e minha língua sente o seu sabor
e a sensação de fome se amplia
desejo de bocas e becos
o ventilador do teto
espalha o ar quente pelo quarto
enquanto nossos corpos se incendeiam
como queimadas na amazônia
texturas próximas horas quebradas
entradas fendidas exploradas
líquidos se vaporizam se esvaem
para lençóis e peles
pelos unidos em tranças emaranhadas
línguas se digladiam para encontrar
a vencedora na peleja que terminará
em morte saborosa momentânea
até que o desejo volte avançar
sobre a secura do mundo inundado
de nosso amor…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Planar

Planos e projetos que não saem do papel (Lua Souza)

Foto por Thu00e9o Peltier em Pexels.com

eu
como os urubus
plano altivo junto às nuvens
perfurando os ares
voo em grupo a coreografia da liberdade
dos úteis carniceiros
enquanto divago
faço planos e projetos que não saem do papel
propositalmente antecipo o fracasso de desejos
natimortos
exercício de mistérios que adoçam
a minha mente carregada de entulhos
concluo que não nasci para planificar
mas para descer comer restos limpar o lixão
e planar
ultrapassar os mais baixos instintos
para cada vez mais profundamente
rumar ao centro da terra
sem costume e sem regra
me abastecer de indigesta e abjeta iguaria
e voltar altaneiro para o céu
donde observo os seres enganados de si
que se acham melhor do que aves de rapina
que deveras somos…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins

#Blogvember / Viagem Interrompida

Entre sucessivos solavancos projetam veias de anil (Rozana Gastaldi Cominal)

Foto por Aliaksandr Shyliayeu em Pexels.com

busco me encontrar em você
que está onde?
onde eu me encontro em você?
observo às formigas que se reúnem em torno
de sua saliva que despencou da boca molhada
sou como elas tentando beber de suas afluências carnais
sou como a paleta do pintor plena de cores de meu pincel a jorrar
na tela entre sucessivos solavancos que projetam veias de anil
como se pollock incontrolável fosse a aspergir sêmen colorido
em seu corpo de ente ser pessoa mulher em fuga de mim em si
momento sentimento emoção violenta que lhe abençoa a existência
de fêmea senhora de si em mim a perfurar rasgar-me feito faca cega
que me mata me renova em revolucionários movimentos de subversão
múltiplas versões de nós espelhares — tesão
teso peso uso confuso escuso difuso intruso abuso de poder vil
sem saídas apenas entradas e bandeiras morte de etnias da terra nova
dominação e danação em invasões de tabas arrasadas
não é amor é horror de querer tanto que se quer partir e partir-se
em pedaços e espaços onde você ocuparia toda a extensão
de vazios e nadas por onde descaminho
perdido em viagem interrompida
pela via láctea derramada de flores florestas
de estrelas frias e solidão…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins