BEDA / Abertura

você diz que quer fazer a minha mente se perder
a cada palavra expressa do seu desejo
partes de mim respondem excitadas
atinge o meu peito que arfa em comoção
aguardada mas nunca esperada de tão rara
abre um sorriso na minha cara
e isso é mais do que sorte
gosto de beijar como pelas ondas a areia
e de ser beijado como pelo vento o mar
em fluxo e refluxo
de entrar e sair
de me deixar e me encontrar
seguir pela estrada aberta
até aquela praia deserta
onde nos deitaremos no arenoso manto
o sal a nos santificar
o sol a nos invadir em calor e luz
nós mesmos a nos devassarmos
a nos preenchermos
de silêncio ofegante
banhados de suor
e alegria por estarmos vivos
enfim serenos e plenos
em nome da paixão
do gozo
e do corpo santo
amém…

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Participante do BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

BEDA / Juventude

Seu nome é Jovem, nasceu assim
Desde sempre, impulsiva, contagiante
Caminhou pela linha tênue da controvérsia
Cristã e sinuosa, em mente e corpo
Ultrapassou os limites territoriais
Não se baseia por regras normais
Invade a cabeça de desavisados
E as transtornam ainda que sejam alertados
Se entregam à sua arte e poder
À sanha de misteriosa fêmea
Avança com a serenidade de predadora
Dona de si, da matilha a voz
Que espera o chamado em que falta a fala
Reverberando os uivos em escala
Causando a mudez com a qual cala
Quem se vê abatido por seu perfil de algoz
Não percebe sua inteligência e ardil
O faro para enredar a presa
Que alegremente se deixa abater
Que entrega o endereço e a oferta
Tudo para vê-la descoberta
Em meio às curvas e movimentos
Mal percebem que a sua maior força
Que devora dores, entrega prazeres
Os seus olhos devoradores…

Foto por Andrew em Pexels.com

Poema constante de BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

BEDA / A Raiz

Eu era uma árvore antiga
Já vira milhares de cenas
Já vivera milhares de vidas
Por cada cabeça que passou por mim
Eu me compadeci da maioria
E me perguntava: de onde vinham?
Para onde vão?
Como conseguem viver sem raízes?
Sem um lugar para chamar de chão?
Cresci forte e via propósito
Nas aves que abrigava
Na sombra que projetava
Comecei a adoecer
Quando percebi os atos desrespeitosos
O descaso com a minha saúde
As pessoas alimentando o meu solo
Com o lixo humano
Senti que não servia mais para limpar o ar
Aplacar os ruídos fortes
Filtrar o ódio que os bípedes produziam
Morri aos poucos
Galho por galho
Folha por folha
Tronco e raiz
Decidi, então, me deitar
Sem ferir ninguém
Na calada da noite
Testemunhada apenas por meus pares
Vertendo terra cor de sangue
Para ser esquartejada
E levada aos pedaços
Para jazer em partes
Longe das gentes
E dos pecados…

*Poema de 2015, após eu ver uma das árvores da Praça da República que tombou durante uma noite fria de Junho. Participante do BEDA: Blog Every Day August.

Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Bob F / Denise Gals / Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Suzana Martins

BEDA / Voo Emprestado*

Você me chamou e não a ouvi
Estava absorto na faina cotidiana
Navegava pelos rios de asfalto da cidade
Percorria os túneis de fuga terra adentro
Para fora de mim mesmo
Sempre apartado do meu corpo

O que poderia ser um sinal de independência
Não se cumpria
Pois os pensamentos arquitetados
Por outras mentes
Eram absorvidos pelos meus olhos
Invadiam o meu cérebro
E eram caminhados por minhas pernas
Se incorporando à minha rotina
Como se meus fossem através do poder de intervir
Consumado pela arquitetura citadina
Realizada pelos planejadores do ir e vir

Estava partindo para um lugar certo
Porém não pensava nisso
Mesmo querendo parecer borboleta
Ainda que formada e liberta
Voltava para o meu casulo
Que me atraía
Como tal, as minhas asas voavam um voo curto
Mais decorativas do que eficientes
E termino sendo um simples humano ser
Fingindo um próprio querer…

Foto por JESHOOTS.com em Pexels.com

Poema de 2019*, participante do BEDA: Blog Every Day August

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Bob F / Lunna Guedes / Suzana Martins / Cláudia Leonardi / Denise Gals

BEDA / Educação Sentimental

O texto chamado Amor & Ser suscitou em mim lembranças de quando comecei a me interessar mais profundamente sobre Literatura e sobre o processo da criação da escrita. Mesmo porque a escrita se tornou para mim uma espécie de “imperativo categórico” –necessária por si mesma. Com a ação contínua, comecei a perceber que era através dela que eu me reconhecia ao reconhecer que caminhava por padrões da arte humana. Tudo passou a me interessar.

Em resposta ao texto, a Lunna falou sobre a criação de classificações de categorias e subcategorias para o amor, com regras distintas para homens e mulheres. O amor romântico, o amor de mãe, o amor de amigo – que cria ser um problema. Eu acabei por retomar os princípios desse tipo de expressão, principalmente na tradição do Trovadorismo português, mas não só, já que foi um movimento relevante do Século XII ao XIV em toda a Europa.

“A Linguagem do Trovadorismo é musical, poética, popular, dialógica, crítica, lírica e satírica. Os trovadores eram os autores das cantigas, enquanto os jograis eram os cantores. Já os menestréis, além de cantarem, tocavam as músicas, as quais eram acompanhadas por alaúdes, violas e flautas. Em meio ao contexto do Feudalismo, o Teocentrismo (Deus como centro do mundo) foi sua principal característica. Em Portugal, o Trovadorismo tem início em 1189 (ou 1198) com a publicação da Canção Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós. Esse movimento literário vai até 1434, quando começa o Humanismo”. (https://www.todamateria.com.br/cantigas-trovadorescas/)

As Cantigas Líricas se dividiam em cantigas de amor e cantigas de amigo. As Cantigas Satíricas, em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer. Na prosa são subdivididas em Novelas ou Romances de Cavalaria, versando sobre relatos de heróis e seus cavaleiros. Nobiliários ou Livros de Linhagem, sobre árvores genealógicas de nobres. Hagiografias, sobre biografias de santos. Cronicões, que detalhava narrativas históricas.

Mas o que me interessava mais intensamente eram as Cantigas de Amor e de Amigo. Os compositores dessas cantigas se apresentavam como homens, mas na primeira vertente  o eu poético era masculino, enquanto que na segunda, feminino. Característico do Patriarcalismo português, o homem tinha esse privilégio de expressar o seu amor de uma maneira mais aberta do que a mulher. Mas não duvido que mulheres viessem a criá-las sob pseudônimos – uma possibilidade que creio ser um fato – ainda que improvável documentalmente. Li certa vez poemas dessa época feitos por freiras que devotavam seu amor ao noivo – Jesus. A linguagem era claramente erótica, bem construída. Se retirássemos o endereçamento à figura de Cristo, faria corar o Nazareno pregado na cruz.

A influência do Trovadorismo em Portugal persistiu a ponto de o Fado, gênero musical português por excelência, carregar muito de sua melancolia nas canções de amor “que nem às paredes confesso”. Essa influência reverberou no Brasil com as Cantigas de Amor, que “são escritas em primeira pessoa do singular (eu). Nelas, o eu lírico, ou seja, o sujeito fictício que dá voz à poesia, declara seu amor a uma dama, tendo como pano de fundo o formalismo do ambiente palaciano. É por este motivo que ele se dirige a ela, chamando-a de senhora”. Em minha educação sentimental, as músicas que me influenciaram tinham muito desse distanciamento em relação ao objeto amado. Quanto mais impossíveis os romances, mais atraentes. Sentimento que levei para a vida prática. A minha timidez me auxiliou nesse afastamento.

Ao acessar o Spotify, apareceu com uma das sugestões, o álbum lançado em 1971 de Roberto Carlos. A minha mãe fez questão de comprar esse disco para tocar na nossa eletrola portátil. Eu o ouvia sempre que podia. Uma das canções que me pegou pelo lado sentimental um tanto passadista, mas muito intenso no pré-adolescente de 10 anos foi “De Tanto Amor”. Eu já observava as meninas que me encantavam de uma forma que as colocava num pedestal, sublimes, inatingíveis. A reprodução “De Tanto Amor” que escolhi quem a canta é Nando Reis, que sofreu como eu a inspiração do romantismo avassalador de RC, contemporâneos que somos. Quem os considera um tanto “brega” não está distante da verdade. Mas não passo vergonha. Traçando um paralelo sobre o sentimentalismo musical desbragado para a Literatura de qualidade reconhecida, chamo Álvaro de Campos, versando sobre o sentimento mais cantado no mundo:

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Texto participante do BEDA: Blog Every Day August

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Bob F / Denise Gals / Lunna Guedes / Suzana Martins /  Cláudia Leonardi