você diz que quer fazer a minha mente se perder a cada palavra expressa do seu desejo partes de mim respondem excitadas atinge o meu peito que arfa em comoção aguardada mas nunca esperada de tão rara abre um sorriso na minha cara e isso é mais do que sorte gosto de beijar como pelas ondas a areia e de ser beijado como pelo vento o mar em fluxo e refluxo de entrar e sair de me deixar e me encontrar seguir pela estrada aberta até aquela praia deserta onde nos deitaremos no arenoso manto o sal a nos santificar o sol a nos invadir em calor e luz nós mesmos a nos devassarmos a nos preenchermos de silêncio ofegante banhados de suor e alegria por estarmos vivos enfim serenos e plenos em nome da paixão do gozo e do corpo santo amém…
Seu nome é Jovem, nasceu assim Desde sempre, impulsiva, contagiante Caminhou pela linha tênue da controvérsia Cristã e sinuosa, em mente e corpo Ultrapassou os limites territoriais Não se baseia por regras normais Invade a cabeça de desavisados E as transtornam ainda que sejam alertados Se entregam à sua arte e poder À sanha de misteriosa fêmea Avança com a serenidade de predadora Dona de si, da matilha a voz Que espera o chamado em que falta a fala Reverberando os uivos em escala Causando a mudez com a qual cala Quem se vê abatido por seu perfil de algoz Não percebe sua inteligência e ardil O faro para enredar a presa Que alegremente se deixa abater Que entrega o endereço e a oferta Tudo para vê-la descoberta Em meio às curvas e movimentos Mal percebem que a sua maior força Que devora dores, entrega prazeres Os seus olhos devoradores…
Eu era uma árvore antiga Já vira milhares de cenas Já vivera milhares de vidas Por cada cabeça que passou por mim Eu me compadeci da maioria E me perguntava: de onde vinham? Para onde vão? Como conseguem viver sem raízes? Sem um lugar para chamar de chão? Cresci forte e via propósito Nas aves que abrigava Na sombra que projetava Comecei a adoecer Quando percebi os atos desrespeitosos O descaso com a minha saúde As pessoas alimentando o meu solo Com o lixo humano Senti que não servia mais para limpar o ar Aplacar os ruídos fortes Filtrar o ódio que os bípedes produziam Morri aos poucos Galho por galho Folha por folha Tronco e raiz Decidi, então, me deitar Sem ferir ninguém Na calada da noite Testemunhada apenas por meus pares Vertendo terra cor de sangue Para ser esquartejada E levada aos pedaços Para jazer em partes Longe das gentes E dos pecados…
*Poema de 2015, após eu ver uma das árvores da Praça da República que tombou durante uma noite fria de Junho. Participante do BEDA: Blog Every Day August.
Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Bob F / Denise Gals / Claudia Leonardi / Lunna Guedes / Suzana Martins
Você me chamou e não a ouvi Estava absorto na faina cotidiana Navegava pelos rios de asfalto da cidade Percorria os túneis de fuga terra adentro Para fora de mim mesmo Sempre apartado do meu corpo
O que poderia ser um sinal de independência Não se cumpria Pois os pensamentos arquitetados Por outras mentes Eram absorvidos pelos meus olhos Invadiam o meu cérebro E eram caminhados por minhas pernas Se incorporando à minha rotina Como se meus fossem através do poder de intervir Consumado pela arquitetura citadina Realizada pelos planejadores do ir e vir
Estava partindo para um lugar certo Porém não pensava nisso Mesmo querendo parecer borboleta Ainda que formada e liberta Voltava para o meu casulo Que me atraía Como tal, as minhas asas voavam um voo curto Mais decorativas do que eficientes E termino sendo um simples humano ser Fingindo um próprio querer…
O texto chamado Amor & Ser suscitou em mim lembranças de quando comecei a me interessar mais profundamente sobre Literatura e sobre o processo da criação da escrita. Mesmo porque a escrita se tornou para mim uma espécie de “imperativo categórico” –necessária por si mesma. Com a ação contínua, comecei a perceber que era através dela que eu me reconhecia ao reconhecer que caminhava por padrões da arte humana. Tudo passou a me interessar.
Em resposta ao texto, a Lunna falou sobre a criação de classificações de categorias e subcategorias para o amor, com regras distintas para homens e mulheres. O amor romântico, o amor de mãe, o amor de amigo – que cria ser um problema. Eu acabei por retomar os princípios desse tipo de expressão, principalmente na tradição do Trovadorismo português, mas não só, já que foi um movimento relevante do Século XII ao XIV em toda a Europa.
“A Linguagem do Trovadorismo é musical, poética, popular, dialógica, crítica, lírica e satírica. Os trovadores eram os autores das cantigas, enquanto os jograis eram os cantores. Já os menestréis, além de cantarem, tocavam as músicas, as quais eram acompanhadas por alaúdes, violas e flautas. Em meio ao contexto do Feudalismo, o Teocentrismo (Deus como centro do mundo) foi sua principal característica. Em Portugal, o Trovadorismo tem início em 1189 (ou 1198) com a publicação da Canção Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós. Esse movimento literário vai até 1434, quando começa o Humanismo”. (https://www.todamateria.com.br/cantigas-trovadorescas/)
As Cantigas Líricas se dividiam em cantigas de amor e cantigas de amigo. As Cantigas Satíricas, em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer. Na prosa são subdivididas em Novelas ou Romances de Cavalaria, versando sobre relatos de heróis e seus cavaleiros. Nobiliários ou Livros de Linhagem, sobre árvores genealógicas de nobres. Hagiografias, sobre biografias de santos. Cronicões, que detalhava narrativas históricas.
Mas o que me interessava mais intensamente eram as Cantigas de Amor e de Amigo. Os compositores dessas cantigas se apresentavam como homens, mas na primeira vertente o eu poético era masculino, enquanto que na segunda, feminino. Característico do Patriarcalismo português, o homem tinha esse privilégio de expressar o seu amor de uma maneira mais aberta do que a mulher. Mas não duvido que mulheres viessem a criá-las sob pseudônimos – uma possibilidade que creio ser um fato – ainda que improvável documentalmente. Li certa vez poemas dessa época feitos por freiras que devotavam seu amor ao noivo – Jesus. A linguagem era claramente erótica, bem construída. Se retirássemos o endereçamento à figura de Cristo, faria corar o Nazareno pregado na cruz.
A influência do Trovadorismo em Portugal persistiu a ponto de o Fado, gênero musical português por excelência, carregar muito de sua melancolia nas canções de amor “que nem às paredes confesso”. Essa influência reverberou no Brasil com as Cantigas de Amor, que “são escritas em primeira pessoa do singular (eu). Nelas, o eu lírico, ou seja, o sujeito fictício que dá voz à poesia, declara seu amor a uma dama, tendo como pano de fundo o formalismo do ambiente palaciano. É por este motivo que ele se dirige a ela, chamando-a de senhora”. Em minha educação sentimental, as músicas que me influenciaram tinham muito desse distanciamento em relação ao objeto amado. Quanto mais impossíveis os romances, mais atraentes. Sentimento que levei para a vida prática. A minha timidez me auxiliou nesse afastamento.
Ao acessar o Spotify, apareceu com uma das sugestões, o álbum lançado em 1971 de Roberto Carlos. A minha mãe fez questão de comprar esse disco para tocar na nossa eletrola portátil. Eu o ouvia sempre que podia. Uma das canções que me pegou pelo lado sentimental um tanto passadista, mas muito intenso no pré-adolescente de 10 anos foi “De Tanto Amor”. Eu já observava as meninas que me encantavam de uma forma que as colocava num pedestal, sublimes, inatingíveis. A reprodução “De Tanto Amor” que escolhi quem a canta é Nando Reis, que sofreu como eu a inspiração do romantismo avassalador de RC, contemporâneos que somos. Quem os considera um tanto “brega” não está distante da verdade. Mas não passo vergonha. Traçando um paralelo sobre o sentimentalismo musical desbragado para a Literatura de qualidade reconhecida, chamo Álvaro de Campos, versando sobre o sentimento mais cantado no mundo:
Todas as cartas de amor são ridículas
Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas.
As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)