O Pensador

sentado num dos degraus da escada
com a cabeça pensa
apoio o meu queixo no punho fechado
cotovelo encostado no joelho
posição famosa de quem pensa –
o pensador –
que pensa a vida pensa o amor pensa a falta
pensa o vazio o amor
de tanto pensar me pesa
o nada a expectativa o encontro desencontrado
o desencanto percorre o descaminho
tão invertebrado quanto a minha espinha
cravada de espinhos que a sustentam
pensar me ensina que nada sei
cada dado a conhecer
busca encontrar seu corresponde saber
enquanto sou açoitado pelo querer
porque quem vive
vive a desejar
matemática e imprecisamente  
o que precisa desejar
e não desejar
quando me sinto bem quero me magoar
quando sofro necessito encontrar
satisfação e regozijo na dor
como se fosse a consequência inevitável e querida
para dar o fim perfeito ao prazer ocasional
ao pensamento sazonal
ao sentimento casual  
a nova tendência da estação
aquela que nunca sai de moda –
buscar ser feliz –
enquanto penso a dor…

Imagem: O Pensador, original, Na Porta do Inferno (Wikipédia)

Ciclos

Das voltas que o mundo dá, o solitário jardineiro encontrou uma rosa-moça
pela qual se apaixonou.
Ela, de pétalas recém-nascidas,
à luz do sol, orvalhadas,
ofereceu-se a visão do homem calejado.
A sua imaginação acossada
fez renascer o desejo no velho artesão da poda.
Sentiu-se remoçado pelos olhos-espelho
da enérgica filha da roseira.
Pareceu encanto, magia…
Fez retesar vontades e a carne
que quer se refestelar da rosa, o cerne.
Entrar por músculos, afastar membros,
conhecer o interior do corpo –
vísceras, ossos e tegumentos –
invadir câmaras em camas,
paredes, mesas, sofás, chão, tapetes.
Possuir a rosa inteira,
beijá-la pétala por pétala,
ser ferido espinho por espinho.
Por sorte incerta das eras que se embatem,
pelos ciclos que se repetem,
o jardineiro e a rosa-moça se encontraram
na vida dela, que se iniciava,
e na dele, que se acabava,
entre a tarde que se desencantava
e a noite que avançava,
em alegria e luto.
Nesse místico instante,
se amaram…

Foto por Michelle Leman em Pexels.com

Graças

Qual a graça?
Estar grato por ser amado, eu, um sujeito tão ferido?
Contraditório desde o início,
que oscila entre a descrença no amor
e por chorar a cada canção de coração partido?
Por admirar a sua fala
ou quando cala, o seu sorriso?
Ou quando chora, se desmancha,
enquanto rio de tamanha candura?
Quando, mesmo no escuro, vejo o brilho
dos seus olhos faiscantes de desejo?
Sim, sou grato!
Grato por sentir o seu amor
e por amar estar consigo quando podemos
nos desnudarmos de vestes e do Tempo…
Grato por me fazer sentir que importo
a uma mulher tão linda
por fora e por dentro
e plena de graça que me enleva
e me abraça…
Eu me lembro de seu corpo a pulsar
em contato com o meu e sorrio
para a parede como se observasse ali um quadro –
A Origem do Mundo.
Nosso mundo…
De conversas sobre o mundo,
nesses momentos, tão distante…
Ser gracioso, sou grato
por conhecê-la, por você oferecer
o seu encanto a mim,
suas palavras de apoio,
a advertência sincera e franca,
porque me ama
e agradeço por me apresentar o amor
que retribuo em pensamentos amorosos
que se espraia pelo campos e rios,
céus e vales,
montanhas e mares,
pela intimidade do Sol
de um sentimento tão ofuscante
quanto misterioso…

Imagem de A Origem Do Mundo (1866), de Gustave Coubet: AP Photo/Francois Mori

La Vie*

Quem é aquela jovem mulher que desce a escada?
Olho de novo e busco saber de onde a conheço
Busco a bela moça em minha memória escavada
Perco-me por dois segundos, desde o fim até o começo

Aquela parece ser minha filha menor, parece ser a caçula
Que desce do andar de cima com um novo andar
Que deitou menina pequena e acordou qual mulher de fábula
Transformada em novo ser, com um novo olhar e menear

Como ocorreu de maneira tão célere essa passagem?
De bebê à criança, à menina, à moça, até ser mulher?
Como se deu a consumação desses dias em voragem?
Qual o nome da força que mal consigo, por um instante, conter?

Será a vida, irrefreável e absoluta, que nos coloca o prumo?
Será o tempo, impassível e frio, como um rio a transbordar?
Já antevejo o dia em que a levarei ao altar, para um novo rumo
E o ciclo a se completar, tendo no colo o futuro a me recordar…

*Poema de 2013

Ode Aos Últimos Dias*

Não é pregação ou advertência —
algo têm que morrer,
ainda que na aparência,
para outro renascer.

Digo com o coração pleno de paz:
apenas os mais egoístas
dirão que o amor se desfaz
sem deixar marcas ou pistas.

Porque se há um sentimento
que seja eterno é o amor
porquanto não haja consentimento,
mesmo que surja o rancor.

Eu sei que o que sinto é infinito,
assim como os átomos que me compõe,
como é efêmero o corpo que habito,
como é perpétuo o universo-mãe.

Quebramos o espelho — foram sete anos de sorte,
o perfume que se perdeu o reencontramos no 102,
vivemos a entrega, as brigas, cortejamos a morte
porque nada poderia ser deixado para depois.

Eu a manterei na lembrança
ainda que sem as minúcias que tanto preza,
mesmo que não tenha mais esperança…
Vê-la mais uma vez, seria uma surpresa.

Porém você está em mim — sua voz, sua boca,
olhos de esmeralda que passeiam em minha mente,
sua linguagem pajubá, vertigem de leoa louca —
alma de loura, cabelo gris e corpo de serpente.

A memória da areia branca, o braço rumo ao céu,
a carta lida no metrô — que a fez perder a direção,
os toques dos saltos no corredor do hotel
e sapatos de naja — carinho por declarar sua paixão.

Quando você dizia que tudo terminaria, eu não previa,
tão apaixonado, tão absorto em centros alternativos,
que o tempo se esgarçaria, que o templo ruiria
na rua da marquesa onde nos tornávamos deuses redivivos.
 
O meu desejo lhe pertence — é dona de um rei…
Sinto pena que ele nunca mais possa colher da rosa
a cor, a dor, o mel, o prazer que nunca imaginei…
Já, o escritor, sei que nunca perderá a musa de verso e prosa.

*Poema-delírio de 2020 — tempo pandêmico
Imagem: Lilith, a primeira mulher, entidade de origem judáica-mesopotâmica.