Sangue Na Tarde

O Inverno anuncia tardes

derramadas em delírios…

Mal podemos perceber

que o tempo seco nos arranca

a umidade da pele

que se arrepia ao toque do frio…

Os olhos desejam

que se torne espelho a beleza

que se apresenta,

enquanto vemos que a paixão

do Sol pela Terra termina

vertida em sangue…

Braseiro

que fornalha a nossa cama
tapetes sofás assentos mesas chão
refúgios destinos começo meio e fim
alcances enlaces trançados translados
para todos os lados perpassados
mergulhados os corpos um no outro enfiados
combatemos fogo com fogo afogueados
mãos desviadas pés descaminhados
voltados para o centro do universo
nossos seres nós um só em peles enxaguadas
de suores salivas líquidos fluídos
fogareiro em chamas onduladas
escorregamos feito espumas no mar
para o interior do oceano em marés altas
ondas revoltas em ebulição de águas ferventes
quem quer voltar da viagem viajantes
de um só tempo para todos os tempos?
o que sei é que tudo posso
naquela que me possui…

Foto por Yaroslav Shuraev em Pexels.com

A Questão

Há músicas em que eu me ouço quando as ouço
Há canções das quais eu gosto, sem entender
O significado das letras ou a intenção do compositor
Mesmo quando cantadas na minha língua
Há canções que admiro pela esperteza de suas saídas
Quando pareciam não me levar a lugar algum
E há melodias que, sem dizer palavra, me conduzem
Para o outro lado do verso e do Universo
Há músicas que se tornam a nossa trilha sonora
Mesmo quando não indique quem realmente somos
(Sou Quereres, por exemplo)
Aquelas que talvez digam o que pensamos
Quando nós mesmos não sabemos o que pensamos
E há canções que apenas muito tempo depois
Perceberemos o quanto nos representaram
Em determinada etapa de nossa vida
Ou ainda aquelas que ouvimos repetidas vezes
Até fazer sentido somente em alguma trilha futura
Que estaremos percorrendo
Quando eu não amava
Eu me emocionava com os amores possíveis e impossíveis
Sem saber dizer porque era intenso o amor que se proclamava
Quando um desse amores sem sentido (para quem não amava)
Se fazia  amor compreensível pela  força de sua letra
Era um achado tão raro, tão absorvente, que passava a repercutir
Os seus ecos amorosos pelos anos afora da minha existência…




O Espelho*

Em casa, tenho um espelho favorito.

Não por acaso, é o mais antigo.

É meu amigo.

Ele sempre está a me mostrar a minha melhor face.

É como se não incorporasse as minhas rugas,

outras marcas da idade na pele

e os sinais de todos os dissabores por quais já passei.

Nesse espelho, sou melhor.

Fico bem, mesmo muito mais velho e envelhecido.

Não pareço tão envilecido

pelas falhas de caráter as quais reconheço

e aquelas que nem sequer suspeito – as que detecto

quando sou posto diante das diversas situações da vida…

Logo, lembro de Dorian Gray, conquanto o quadro se inverta.

Enquanto eu me degrado fisicamente,

o espelho ainda sustenta o olhar do sujeito sonhador,

crente em melhores dias para todos…

Tento ser convencido pelo nobre

que se posta do lado oposto

que o amor ainda é a melhor solução para contrabalançar o mal…

Mas já não consigo amar a todos e qualquer um…

Termino sempre a minha inspeção visual

com a nítida sensação de que estou condenado

ao desprezo do tempo que passa, enquanto a senilidade

jamais alcançará a alta imagem pessoal

do meu espelho favorito…

*Poema de 2017, com imagem de 2023.

Instante Dos Namorados*

Naquele momento,
olhos nos olhos,
nós nos surpreendemos amantes…
Flor de lótus…

Corpos isolados que se fundem,
tão unidos, que se confundem…
Busca do âmago do outro em si,
espraiando-se em fluídos…

Em um átimo,
o mundo todo se aparta…
nos devoramos e nos regurgitamos
em um parto,
com dor e prazer…

Para cada dia dos namorados inventado,
existe aquele tempo verdadeiro
em que tudo acontece em um instante…
Que se faz presente para todo o sempre,
amém!

Imagem: Foto por Edward Eyer em Pexels.com

*Poema de 2016