Amor Amado

Eu a amo…
Amor não correspondido.
Prefiro assim.
Tem maior valor o meu Amar…

Eu o tenho como tão precioso
que não quero vê-lo exposto,
devassado por outros olhos
que não os meus,
no espelho de minh’Alma…

Sei de sua Força,
de sua Chama,
que me chama para perto de sua Luz,
ainda que me distancie do Sol…

Caminho por estrada de mão única.
Não me importo que vá Só…
Querer Você e não a ter,
me faz completo.

Paciente, fico à espera
que o Vento me disperse,
que o Tempo peça
que de si me despeça,
Amor Amado…

Foto por RODNAE Productions em Pexels.com

Emtardeser

Por trás da cortina diáfana
Se vai o Sol da nossa retina
Como um ser de olhar oblíquo
Incandescente e profícuo.

Caçador de nuvens, espero que o rei
Decaia, faça o percurso que decorei
Ao se inclinar, refaz um novo entardecer
Respiro luz, súdito entregue em tarde, ser…

Penetrante*

Quando, pela noite adentro, eu a penetro
Não sou eu, nem de longe, nem de perto
Eu sou outros, eu sou diversos, eu sou forte
É meu tempo, é cedo, é tarde, eu sou a morte!

No corpo dela, eu me recordo, eu me visito
Estou em meu espaço, eu gozo, eu grito
Também sou eu, sou dela, eu suo, eu me sujo
É um mundo de pureza para qual eu fujo!

Assim, eu, ser penetrante pela noite escura
Busco de peito aberto, a minha sorte futura
Por mim, para mim, com ela, por ela, para ela
Para, juntos, amarmos em realidade paralela…

*Poema de 2015

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Crepuscular

Algo de muito perturbador existe em mim
Que prefere um céu nublado a azulado
As nuvens me trazem a ilusão de festim
Enquanto limpo, parece de tempo fechado…

Lateralmente, escanteia-se a luz
Canto o entardecer que me seduz
Enquanto canto, o azul se desmancha
Alcançando a mim a negra mancha…

Enquanto o sol outonal deita o seu brilho
Sobre a ampla cama nebulosa da tarde
O dia, calmo, percorre o mesmo trilho
Daqueles que foram embora, sem alarde…

Certa vez, ainda garoto, escrevi:
“Ao longe
As estrelas brilham
Por perto
As pessoas queimam”…
Hoje, eu beijo as estrelas…
Eu as possuo, em colchões de nuvens!

Na boca da noite, o tardio óvulo solar
Aquece e faz multiplicar a vida celular
Reativa as nossas cíclicas energias vitais
E fecunda o útero plúmbeo dos mortais…

Sonho em dia claro morrer
Sob a luz do Sol esvanecer
Uma noite depois de namorar
A Lua, as Estrelas e o Mar…

Participam do Projeto Fotográfico 6 On 6: 
 Mariana Gouveia / 
Isabelle Brum / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina

Poesia No Cotidiano

Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a espalhar falas
com o seu olhar…

*Homenagem à nossa Frida, amada, querida, que passou há quatro anos, em imagem de 2016

A Rolinha*

Um dia frio,
chuva intermitente…
A sala é um bom lugar
para escrever
um poema ou um livro,
o meu pensamento lá em você,
enquanto um pássaro canta…

As cachorras, adormecem no sofá…
Uma rolinha, a tudo alheia,
castiça,
à escrita e à preguiça,
pelo quintal passeia…
O meu pensamento a acompanha
no compasso do canto do sabiá…

*Escrito em 2015

Magia Na Selva De Pedra*

Noite recente,
a fadinha e o duende
chegam cansados e ocupam
uma mesa vaga.
Ela deposita os seus aros
junto a uma cadeira.
Se senta, a mão no queixo,
solta um suspiro exaurido
de quem voou a esmo.
Ele deixa os malabares no chão,
coça a barba
e olha com certo ar de contrariedade
para a sua companheira de floresta.
Não pedem nada para comer.
Naquele dia,
não conseguiram o dinheiro
necessário sequer para um cafezinho.
Era a faceta mais dura
de viver de magia
em uma Selva de Pedra em crise.
Nos semáforos e esquinas
só receberam sinais
amarelos de impaciência
e vermelhos de raiva…

*Cena-poema de 2016

Imagem: Foto por Tu00fa Nguyu1ec5n em Pexels.com