Estamos em época de crisântemos Que florescem como loucos pelos campos Em tempo de crisálidas soltas pelos cantos Em troca frenética de roupas em desencanto
Na temporada de cantos de pássaros enamorados De shakespearianos namorados encantados Período de sol e de girassóis que se beijam Era de mudanças externas e interiores
Vivemos mutações profundas e avassaladoras De mundos novos criados Mundos novos vencendo velhos mundos Estrondosa e mudamente, grande e miudamente Destemperada, cuidadosa e minuciosamente
Estamos em época de novidades e de obviedades De antigas e permanentes novas idades De temperança, de esperança, de fazer diferença Em fase de viver o melhor tempo que há de vir Se assim viermos a permitir…
Nesta imagem, podemos perceber uma reunião de urubus, separados em dois grupos maiores que, à farta, se alimentam de restos trazidos pelas águas das chuvas no Piscinão Guarau. O grupo de baixo, vi que realmente repartiam uma comidinha, enquanto o de cima provavelmente apenas conversavam sobre o tempo. Para quem acha estranho que eu coloque uma imagem que não teria a nada a ver com o tema do poema, o faço somente para lembrar que os ciclos da vida se sucedem e que as mudanças interiores são sempiternas, enquanto as exteriores se esvanecem no Tempo, senhor de todas as coisas terrenas.
Moro na Avenida São João. Vivo perto de tudo. Tenho árvores em meu jardim, de frente para a minha sala de jantar, de estar, de meu quarto, de meu lugar. Que muda de lugar. O mundo é meu. Pelas amplas janelas do meu olhar, observo o movimento das pessoas a passarem por mim. Elas não se importam comigo. Espero que não se importem por eu não me incomodar com elas…
Sou um homem citadino. Sonho morrer junto ao mar, mas moro em uma metrópole — a maior do Hemisfério Sul — longe das águas. Mesmo amplamente impermeabilizada por asfalto, há oportunidades de presenciar a expressão natural da existência. A observação da Natureza nos oferece maiores oportunidades de reflexão quanto à Vida. Mesmo que eu possa vir a parecer desencantado, o que sinto é a nossa intrínseca pequenez, aliado à humildade que devemos ter diante dos ensinamentos que ela nos presta.
Há quem garimpe a vida toda em busca da pedra preciosa e nada consegue, a não ser restolhos — poeira sem peso, pedregulhos e o espinho da rosa.
Há quem se perca pelo caminho e encontra a curva perfeita, a reta para o coração, topa com a pepita na terra aflorada, um beijo perfumado da inesperada boca da amada.
Há quem beba da água mais limpa, desconhece a insipidez do ódio, a tibiez da voz monocórdica, desfila sem saber o que é medo, canta a alegria e recebe amor, mas é infeliz…
Há quem consiga fazer correr o sangue, sabe estimular a troca e a revolução apaixonada a bandeiras despregadas. Quaisquer cores são suas, o trânsito em cada rua tumultua, segue o fluxo descontínuo, arremeda o certo com o incerto, mente verdades e constrói sendas e, entre incensos, insensato, trapaceia. Vence. É herói.
As veredas da existência são insinuantes, indeterminadas, cheias de vieses feito terminações nervosas, crescentes na infância e na juventude, esclerosadas na velhice. Viver é bom. É ruim. Como doença progressiva no coração da Terra, somos bestiais seres da guerra. Matamos e morremos. No meio de tudo isso, vivemos…
Nino e Armando Valsani (seu filho), em 14 de Agosto de 2016.
No dia 15 de Agosto de 2017 eu cometi uma ousadia. Ainda impactado pela passagem um dia antes de Nino Valsani, aos 84 anos, tenor brasileiro de carreira consagrada aqui e fora do Brasil, escrevi no celular um poema em sua homenagem no caminho para o seu velório, dentro do ônibus. Isso não foi ousado, mas declamá-lo frente a todos os presentes no espaço onde se encontrava seu corpo presente, sim! Fiquei imaginando onde estaria aquele garoto tímido que continuava existindo dentro de mim e que de vez quando assumia a minha personalidade…
Vários cantores líricos e músicos, conhecidos, parentes e amigos compareceram ao ato no Cemitério da Consolação. Eu, que apenas nos últimos anos havia privado de sua companhia em eventos pela aí com os Três Tenores Brasileiros, só conhecia de relance a carreira de Nino. Ela teve início em 1951, sob orientação do maestro italiano Aldo Petrioli. Na Itália, realizou vários concertos nos principais teatros, além de apresentar-se em rádios e televisões. Já no Brasil, fez parte do elenco da TV Tupi e em 1955 recebeu o PrêmioRoquete Pinto de melhor cantor de música erudita do Brasil.
As homenagens dos seus companheiros da arte do canto enchia o espaço antigo com suas vozes que ganharam ali um palco ideal, apesar do motivo fúnebre. Em certo momento, pedi a palavra e li da melhor maneira que pude as verdadeiramente mal traçadas linhas em versos pensos, muito longe de uma pretensa elegia. Mas fui sincero e isso talvez tenha ajudado em sua boa repercussão. Principalmente quando postei a homenagem no Facebook. Nessa ocasião, uma sobrinha sua chamou a atenção para a foto. Ela é de um ano antes, no mesmo dia da morte de Nino, aniversário de sua mãe, irmã dele. Foi uma estranha coincidência, sem nenhuma intenção, alheio às datas que estava.
NINO
Qual era mesmo o seu nome? Antônio Valsani? Eu o conhecia como Nino… O que era perfeito, já que para mim ele não passava de um menino. As boas qualidades da criança — principalmente, a esperança… E Valsani… Esse nome dança em nossos lábios…
Ele tinha a voz da bem-querença — a sua força nos transportava para um futuro melhor avante, para um lugar de beleza e temperança, de sonho e prazer efervescente… Sim, porque o Nino só fazia levar emoção e alegria por onde entoava a sua voz tonitruante.
Já no capítulo final de sua vida terrena, que seguirá em outro plano (tenham certeza!), ainda que lhe faltasse o ar, as notas que emitia atravessava os mares, derrubava muralhas… Fico a imaginar, no passado, o som produzido por seus pulmões, a preencher teatros e salões, a arrebatar mentes e corações.
Hoje, dizemos adeus ao corpo do Nino. Deixou herdeiros e seguidores que saberão continuar a cantar os amores, os prazeres e as dores. Deixaremos de ver o olhar de soslaio e o sorriso maroto de sábio e vivido garoto. Daquele que nunca perdeu a fé na arte. De seu poder em nos conduzir pela existência afora… Exemplo de homem e eterno menino que ficará guardado em nosso peito e em nossa memória…