Há cem anos, Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, escreveu e Maria Bethânia lindamente declamou… Fiquei emocionado, pois estou a ficar sem anos para contar até que chegue o fim dos meus tempos. Os tempos se renovam em podridão de eternas e humanas doenças do espírito e sei que morrerei sem ver este País grande e justo, como um dia sonhou o menino que um dia eu fui…
Categoria: Poemas
Transformação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…
Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.
Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…
Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman –
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…
Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…
BEDA / A Amante Da Luz

da Luz recebe em seu corpo
os oblíquos raios solares
desta manhã outonal…
Ela ama o calor que aquece
mas não queima…
Que preenche os seus lábios,
cabelos
e olhar
de amor luminar,
a escorrer por seu colo,
peito
A amante
da Luz vive, também,
o Outono de sua vida…
Já foi Primavera,
Verão…
Os seus olhos já viram
muito mais do que verão…
A amante da Luz sabe,
e, mais do que isso,
deseja,
não ver chegar do Inverno,
a escuridão…
Ritos

Maria é feliz por ser mulher.
Crê que nasceu para sê-lo.
Cumprir as potencialidades,
abraçar as possibilidades,
viver as idades do viver…
Maria nasceu para amar
e para amar ser o que é,
em seus diferentes estados.
Sente-se tão confortável
em seu corpo feminino,
que apreende o mundo que a rodeia
como extensão de sua pele.
Passa as mãos por seus cabelos
matizados pelo tempo –
mais um rito de passagem –
que cumprirá sem regras.
Como se vê com serena
e fresca maturidade,
serão tingidos
da cor de sua percepção.
Ou não…
O espelho a devolve
nostálgica,
a se lembrar dos outros ritos
pelos quais passou:
aprender a ler,
explorar,
sair da casa – interior – soltar-se
do umbigo, o cordão.
E voltar…
Amou a primeira menstruação –
desejada como se fosse um presente divino.
Foi a última, entre irmãs e amigas,
a sentir a quentura do sangue
a descer da origem do mundo.
Mais tarde,
decidiu conhecer o sexo –
mais tarde do que quem a conhecia imaginasse –
por mais libertária que se mostrasse.
Queria que não fosse por acaso.
Ainda que amorosa,
não amava quem a fez conhecer
a saborosa dor do prazer.
Escolheu aquele que, depois,
a deixasse em paz…
Outro rito de passagem: trabalhar.
Tornar-se senhora de si.
Lutar por seus direitos e de outros.
Congregar,
unir,
entender as diferenças,
esvaziar as ofensas,
ultrapassar-se…
O rito definitivo
não foi se apaixonar
ainda que tenha sido intensa.
Nem mesmo casar,
apesar de importante.
Mas gerar –
receber em terreno fértil
a semente que plantou –
fecundar a vida,
multiplicar a força do existir,
vestir de roupa nova
um antigo espírito.
Embalar o pequeno corpo,
alimenta-lo,
vê-lo crescer,
ensinar o peso
e o significado das palavras.
Esse rito não representou a simplificação
do mundo material e do além-Terra,
nem a vaidosa reprodução
de vitórias e mazelas.
Mas a criação de nova realidade –
como mulher, possuir o Universo…
Eu, Aceito!

Aceito a ti do jeito que és!
Sabendo que ser do jeito que és, é aceitar do jeito que estás.
Aceito os teus sinais da passagem do tempo,
aceito as tuas rugas,
aceito as tuas marcas de expressão,
aceito as tuas manchas,
aceito as tuas cicatrizes,
aceito as tuas gordurinhas,
aceito a tua forma,
aceito os teus defeitos de pele…
Não pode ser diferente, já que é sobre a tua pele que passeio o meu prazer.
Aceito o teu humor variado,
aceito a tua raiva momentânea,
assim como aceito o teu sorriso de aprovação.
Aceito o teu ciúme e a palavra que machuca – antes isso que a tua indiferença.
Aceito os teus amores passados – foram eles que te trouxeram até a mim.
Aceito as tuas dores e aceito as tuas alegrias.
Que nunca seja causador das primeiras, mas um dos motivadores das últimas.
Aceito do jeito que és, diga que aceitas ser minha mulher…