11 / 10 / 2025 / O Arco Do Tempo*

desço os olhos para as linhas que desenham
rostos e paisagens em fotos de décadas
repassadas em cores e descores
cumpro o destino da flecha atirada por Chronos
personagens dos quais sou um
e mais nenhum
papai vovô irmãos
sonhos em desvãos
que nunca foram realizados
os meus indecifráveis
vivia fora do mundo aceitava
sem sorrisos que cedo morreria
quase obsessão aos 33 de Cristo
aos 40 de John aos 27 de Morrison
sempre haverá quem morra jovem
em cada uma das idades
aos borbotões a toda hora
ainda não foi a minha agora
se for antes dos 80 morrerei contente
não sei de amanhã vivo o presente
lembro que vovô me amava
me achava inteligente
antes de partir cuidei dele
banhava o ajudava a comer caminhar
pedi perdão porque sabia que não cumpriria
as suas ambições não queria ser homem importante
influente intendente industrial comerciante
buscava ser simples despojado pés no chão
me sentia desmembrado desmemoriado
de um passado que sabia existir
vidas passadas realidades não alcançadas
já entendia que o futuro não contava
mas ainda cultuava a esperança um país diferente
múltiplo raças misturadas riqueza distribuída
hoje morro todos os dias às vezes de hora em hora
a grandeza desmesurou-se em sentido contrário
nos apequenamos repugnantes ruminantes
de mentiras e contradições
dos templos ocupam-se os vendilhões
crenças transformadas em crendices
fé em feitiçarias em salões dourados
em palácios de mandatários
estamos nos finais dos tempos
mais um tempo de finais
no eterno ciclo de decadências
e de mercados baratos na venda de consciências…

*Poema de 2022, aos meus 61 anos…

03 / 10 / 2025 / Primavera

Tarde de início de Primavera
em tons monocórdicos…
Essa estação é parecida comigo…
É o tempo do talvez…
Talvez chova, talvez não,
talvez o vento derrube árvores,
destelhe as coberturas,
talvez o ar pare de circular…
Frutas frutificarão,
pássaros e outros bichos procriarão,
uivos, coaxares, cânticos serão entoados,
quase dá para ouvir outros seres que rastejam,
em intervalos de quando e quando são devorados
enquanto trabalham para sobreviverem.
A Primavera não é uma estação casta.
Vibra a vida, afirma a morte, tempo de renovação,
momentos de contemplação ao incógnito, à voragem
e devoção ao crescimento,
à crise,
à dor,
à cor,
ao coração…

28 / 09 / 2025 / Deuses


No fulgor do instante
em que os mundos se separam
e entramos em outra dimensão…

No momento do prazer flamejante,
de corpos que se fundem e afundam
no mar cósmico do gozo em ação…
Na aceitação de que somos ingentes,
a deitarmos entre estrelas que dançam,
exclamas: “Pareces um deus!”…

Então,
me sinto São entre os sãos…
Espalmo minhas mãos
contra a sola de teus pés ––
beijo a flor de lótus
e entoo preces…

Te sinto uma deusa…
Não!
Mais do que isso…
Te sinto maior que tudo…
Te sinto Mulher!

24 / 09 / 2025 / Estrela Do Mar Celeste

Tarde, quase noite,
saí para pescar no mar vermelho
do céu…
Por entre retas paredes de corais
e rochedos de formas estranhas,
balançava a vegetação
ao sabor do vento acidental…
Por fim,
quando já alcançava
o seu refúgio final,
consegui capturar,
através do olhar,
a estrela do mar continental…

22 / 09 / 2025 / A Ponte

Sobre o Tietê, em seu dia, caminha sobre a ponte
um homem alheio à cidade que incendeia.
Primeiro dia da Primavera que virá vingativa
com fortes ventos e chuva forte
derrubando certezas e árvores.
A Luz se apagará,
a Natureza revidará,
mas o homem continuará a atravessar a ponte
da insensatez…