Pisando Na Fulô*

Em 2015*, sonorizamos um casamento pela Ortega Luz & Som. Eu me lembro que eu não estava bem. Não me sentia centrado (o que não era novidade) e sofria com dilemas pessoais de ordem tão íntima que eu mal sabia identificar a amplitude. Sabia mais ou menos a origem, mas como tinha a ver com decisões pessoais que englobaria a participação de muitas outras pessoas alheias às minhas demandas, recuei. Ao fim (daquele dilema), decidi permanecer como estava — em sofrimento — mas garanti a estabilidade do meu entorno… Permaneci entristecido, mas sobrevivi… pisando na fulô.

Love

Onde eu estava trabalhando, encontrei o amor. Durante o dia, lá estava ele em letras grandes o suficiente para serem notadas. Algumas pessoas buscavam fazer registro junto ao amor encontrado assim, tão resolutamente visível, estável, “instragamável”, amável. O céu nublado, arrefecia o calor deste verão, mas sabemos que o amor resistiria se viesse uma chuva um pouco mais forte ou mesmo uma tempestade. Acontece. Mas é um tanto raro. Normalmente, há pessoas que fogem do amor à primeira garoa. Imaginam um mundo em que o amor não sofrerá percalços, não enfrentará mau tempo, que permanecerá incorruptível à passagem do tempo. Que viverá ileso às atrações do circo da vida, com trapezistas, palhaços, mágicos, equilibristas, bailarinas a exercerem à sua arte de seduzir. Porém, isso não impedirá que o amor continue sendo ofertado a você, além do outro. Na estrutura de exclusividade, ditado por um sistema que preconiza estabilidade empregatícia numa união dita romântica, as confusões costumam trazer dissabores por contrariar à “lógica” da posse. Por isso, buscam acordar mediante documentos oficiais que assim será. E o meu trabalho é festejar esse momento de juras e promessas, que apenas tem sentido no momento que são proferidas. Depois, anoitecerá. Mas a boa notícia é que, muitas vezes, o amor brilha no escuro, noite alta, com estrelas no céu (quase) aberto…

Nuvenzinha*

Acabou de chover pesado, após anúncios de raios e trovões. A luz do Sol foi escondida pelo corpo da Terra que gira sobre o seu eixo, enquanto passeia pelo espaço nesta parte da Via Láctea. Durante todo o dia a revolução atuou, a translação se perpetuou, as estações representada neste quadrante pelo verão, nos aqueceu e a minha lembrança permaneceu com uma solitária nuvem, desgarrada da grande nebulosidade, tão mais alta e distante. Com o tempo, deve ter sido absorvida pelas outras nuvens, maiores e mais fortes. Não duvido que tenha se precipitado em água agora há pouco, feito lágrimas do céu. Há casos em que a solidão não é uma opção, a liberdade não existe e o fim é compulsório…

*Texto de 2022, num dia como hoje, em 2024.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Viagem Literária

O tema proposto para este 6 On 6 me deixou um tanto desconcertado. “Viagem Literária” era mais ou menos a sensação que eu tinha antes de empreender viver a vida literal. Eu era um sujeito fora do mundo “real”, em que cada dia surgia como um capítulo de um livro escrito página por página a cada hora. Viver, de certa maneira, era bastante penoso porque as personagens envolvidas se expressavam de maneira irregular em enredos aparentemente sem sentido, ainda que eu acreditasse que nada fosse por acaso.

O meu “texto” inventava uma realidade que não batia com a dinâmica humana. Aceitar que a maioria das circunstâncias apresentavam razões impenetráveis para um autor que tentava escrever sua própria história só se resolveu quando abandonei a escrita e comecei a trajetória de homem casado, com filhas para criar. Ganhei uma apresentação de capa que me habilitou a ser considerado “normal”. Durante alguns anos, vivi a “vida louca” de um cidadão comum. até que as redes sociais me possibilitaram voltar a expressar minha visão de mundo sem compromisso, de uma forma menos formal.

A minha viagem literária passa pelos textos que apresentei ao longo anos, porque ainda que tentasse escapar da formalidade, o escritor voltou a ganhar peso e que em 2015 acabou por ingressar num projeto — da Scenarium Livros Artesanais — que desde então me estimula a assumir o compromisso de me tornar o melhor escritor que eu possa ser.

Neste dia Dia de Reis de 2021, recebi de presente, em papel transparente, uma “sensação de estranhamento feliz”. À primeira vista, esta fruta que encontrei no jardim, parecia um pequeno abacate. O abacateiro que tínhamos se foi há algum tempo. Após lavá-la, ao posicioná-la para a foto, quase a confundi com uma pera. Ao toque, devido a lisura de sua casca, ficou evidente tratar-se de um maracujá mesmo já que, além das mangas (no final da safra), jabuticabas e goiabas, só temos mesmo um maracujazeiro em plena produção. A sua forma inusitada, causou aquela sensação nomeada acima. Um pequeno bálsamo em relação à antípoda “sensação de estranhamento infeliz”, tão em voga em 2020. Feliz Dia de Reis!

Imagem de 6 de Janeiro de 2016

Discos que não serão mais tocados
Céus que não serão mais riscados
Por pipas, aviões, ovnis, seres alados
Amores que não serão mais amados
Por você, por mim, por nós, passados
Todos, pela moenda dos sonhos dourados…
O Tempo!

Este ano esta mesma imagem ocorreu igualmente, mas esta é de 2013…

Da janela do meu quarto, se alcança as frutas. Este ano, houve uma superprodução de mangas, o que as minhas cachorras muito agradece! Quase sempre vejo um cão chupando manga e eu acho lindo! Durante todo o dia, se ouve o som do baque das filhas que abandonam as pencas mais amaduradas e elas se aproveitam, incontinentes. Nós, os humanos, a aproveitamos in natura, em suco e até para fazer sorvete. Estas aqui ainda estão verdes, mas por pouco tempo…

Meu quarto livro lançado pela Scenarium… em maio de 2021

No início de 2021, estava sentindo as consequências de me abrir para o mundo. Tudo me atingia. A situação do País em meio a uma Pandemia, envolto pelas sombras de um Reacionarismo que se autointitulou de Conservadorismo, como se devêssemos conservar todas as mazelas não de um passado recente, mas do Colonialismo — poder aos brancos, homofobia, misoginia, massacre dos originais da terra, exploração predatória de um país em que se plantando tudo dá. Pindorama sendo novamente devassada por usurpadores que acreditam que não existe lei ou pecado abaixo da Linha do Equador. Curso De Rio, Caminho Do Mar desaguou em páginas da Scenarium Livros Artesanais e me salvou de afogar em tanta angústia. Nele, tento manter a cabeça fora d’água, mas não deixei de mergulhar em águas profundas.

Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”. Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”. Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros Artesanais — REALidade — por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no Home Office. É meio difícil explicar a forte personalidade dessa “pessoa”…

Este poema eu escrevi para uma apresentação no lançamento das publicações da Scenarium Plural – Livros Artesanais, em agosto de 2016, ao qual infelizmente não pude comparecer. Trata sobre um tipo que se sente depreciado e que se auto denomina “O Segundo”. Estranhamente, a linha final parece atual e premonitória (da época do golpe do Congresso Nacional sobre a Dilma e a assunção do vice, Temer), se bem que o entendimento possa tanto ser utilizado em relação ao personagem quanto à contagem do tempo.

O SEGUNDO

Ser protagonista não é o meu papel.
Sou o escada no número de humor.
Sou o segundo do lutador.
Sou o amigo tímido do namorado.
Era reserva do goleiro no time de futebol.
A opção confiável, mas nunca escolhida.
Ficava com as sobras da comida.
Eu me tornei o primogênito,
porque o meu irmão mais velho morreu…
Casei porque a minha mulher foi deixada
e eu estava lá para a consolar…
Na cama, os gemidos dela nunca foram para mim…
Certa vez, o nome do outro foi murmurado…
Sigo sendo servidor de segundos…
Outros segundos tempos…
O meu consolo é saber que a História
dos tempos
é contada por segundos…

Participam: Mariana Gouveia / Silvana Lopes / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi

#Blogvember / Madonas

No balaio ancestral, carrego em meu DNA minhas avós, madonas nonagenárias! (Rozana Gastaldi Cominal)

Minha avó materna, Maria Manuela, em registro do final Anos 30.

Minhas avós, com elas não tive muita convivência. Ou melhor, a mãe do meu pai, que vivia na Argentina, encontrei poucas vezes quando lá íamos para visitá-la a cada quadriênio, até falecer. Antes, por volta dos meus seis anos, vivemos com ela, meus irmãos, eu e minha mãe – por uns dez meses, ocasião em que meu pai se refugiou da perseguição política do final dos Anos 60 no Brasil. Ocupamos um quarto na casa dela, mas tenho poucas lembranças de proximidade. Mais me impressionava o seu marido, um austero militar que mantinha o bigode preto à custa de tintura. Talvez tenha sido por esse motivo que meu pai voltou antes, por não se sentir à vontade com a presença do milico. Ou para continuar a luta infausta contra o Regime Militar.

Por uns meses, ficamos, literalmente, sós. Ao voltar ao Brasil, antes de completar os meus 7 anos, falava espanhol e português meio a meio. Já dado a estranhezas, usava poncho na época do frio, o que fazia com que parecesse mais inadaptado. Quanto à Dona Dora, distante na quilometragem e na afeição, pouco tenho a dizer. A não ser pelo fato de ter sido uma mãe que não se esmerava no cuidado ao indiozinho, meu pai. A minha avó gostava de dançar e quando saía para os bailes, o deixava do lado de fora dos salões, advertindo: “si preguntan, no digas que es mi hijo”. Sei que essa falta de atenção carreou muita mágoa e talvez tenha gerado a aversão que ele demonstrava às mulheres, apesar da série de amantes que amealhou.

Quando tinha entre 5 e os 6 anos de idade, o meu avô Humberto o carregou do Paraguai para o Brasil. Registrou o menino como brasileiro em Foz do Iguaçu e o trouxe para São Paulo no final dos anos 30. Muito bonito, os seus olhos azuis conquistaram Dona Eloisa de família quatrocentona que o adotou como filho, lhe proporcionando as facilidades de um membro da classe abastada até a sua maioridade. Por responsabilidade do meu avô, a relação terminou em separação. Com isso, a Dona Eloisa também acabou por se afastar de meu pai.

Voltaram a se falar quando éramos bem novinhos e até acho que por nossa causa, decidiu ajudar o Sr. Ortega. Foi uma avó que não primava pela alegria, mas pelo olhar compassivo. Ficávamos calmos diante dela, comportados como poucas crianças naquela idade. Aliás, não éramos tão efusivos assim, pelo que eu me lembre. Ela não era daquelas avós que primavam pelo conhecimentos alquímicos de receitas culinárias pessoais. Tinha uma cuidadora que fazia as tarefas caseiras, incluindo as refeições. Desbravadora, Dona Eloisa foi uma das primeiras dentistas formadas no Brasil e em sua casa mantinha um consultório no qual atendia pessoas carentes.

Nossa terceira avó foi a última companheira de meu avô. Com ela, não tínhamos conexão nenhuma e se fosse para ser comparada a alguém, seria a de uma parente tão distante quanto a minha avó de sangue. O que não aconteceu com Dona Manuela. Ainda que não a tivesse conhecido fisicamente, pela devoção eterna que a minha mãe dedicava à sua mãe, eu a visualizava todas as vezes que se referia à mais importante referência de sua vida. Talvez nela se espelhasse para nos conduzir em nossa criação, apesar de tê-la perdido apenas aos 12 anos de idade. Dona Madalena tinha espírito de empreendedora, mas parece ter herdado dela o esmero da dona de casa das antigas que foi a minha avó.

Creio que a minha mãe reproduzia quase fielmente os saberes, gestos e as suas maneiras. Hoje, eu tenho consciência disso e se fosse para pinçar algo do balaio ancestral o DNA que me conduz, apostaria nos de Dona Manuela. Incluindo o processo de indução que me faz reproduzir receitas que minha mãe nos ofertava com o tempero que só a ancestralidade consegue legar…

Participam: Mariana Gouveia / Lunna Guedes