31 / 05 / 2025 / Vandos*

Saio debaixo de chuva para cumprir compromissos inadiáveis. Desço a rua, transformada em depositária de pequenos riachos surgidos por obstáculos e irregularidades do asfalto. Chego ao lugar onde deveria estar o poste do ponto de ônibus, que se encontra “despontado”. Pergunto a um sujeito que se protege debaixo da marquise de uma loja se ali seria a parada de ônibus. Ele responde que sim. Indica o poste caído junto ao meio-fio e com certo ar de desdém, completa: “‘Foi os ‘vandos’…”. Imediatamente, começo a sentir saudade do tempo em que os Vandos apenas cantavam: “Você é luz…”.

*Texto de 2017. Na representação acima, uma uma possível imagem dos Vândalos, um dos povos bárbaros de origem germânica, invasores do Império Romano. Nesse sentido, “vândalo” passou a designar truculência e, vandalismo, é um termo usado até hoje para nomear depredação ou destruição de qualquer ordem.

24 / 05 / 2025 / Coqueiros-Lua

Imagem de 2015

A Lua entre coqueiros.
Desta vez, os meus olhos carnais saíram ganhando,
pois puderam apreciar uma imagem mais nítida e evocativa.
Porém, comigo, os olhos da mente também têm vez…
Os três banhados de beleza luminar e placidez.


Tínhamos um belo coqueiro no quintal, visitado por abelhas, maritacas e outros pássaros que, além de nós, se deliciavam com os seus coquinhos amarelinhos, quando maduros Seus cachos viviam carregados, até que um dia… uma senhora, a nos visitar, lançou um olhar indeterminado e exclamou: “Que lindo!”. Na semana seguinte, de forma avassaladora, ele começou a definhar e secou. Tivemos que cortá-lo, já que ficou irrecuperável! Abaixo, podemos ver dois pedaços cortados, que conservamos como lembrança de sua bela existência. 

Imagem de 2012

18 / 05 / 2025 / Anjo*

Zezé nasceu e cresceu na rua. O único sobrevivente de seis irmãos. Se alimentava de restos e do que lhe ofereciam os moradores do bairro. Sua mãe, moradora de rua, igualmente abandonada, viveu tempo suficiente para amamentá-lo. Não teve agilidade bastante para desviar de um carro que acelerava ligeiro pela rua, que agora tem uma lombada para tentar impedir acidentes.

Zezé começou a circular pelas ruas em busca de cantos. Seu jeito de criança sapeca angariava simpatia por onde passava. Foi adotado várias vezes. Seu desejo por liberdade, no entanto, fez dele um exímio escalador de muros. Ele queria circular ruas, dobrar esquinas, não ter horários-regras. Uma alma livre a vagar calçadas, dormir em praças e a correr de vassouradas e pedras que atravessavam seu caminho.

Sua movimentação era noturna. Pela manhã queria dormir e, para isso, se apropriava de algum quintal para descansar. Sombra, comida e água fresca, sempre sabia onde encontrar.

O rapaz tornou-se conhecido ao salvar um bebê do fogo que consumia um barraco na favela do bairro. Ao espiar a fumaça e as chamas saindo pelas frestas da construção, feita de madeira seca, ouviu o que ninguém mais ouviu: um choro vindo de dentro.

Com toda a agilidade que faltou à sua mãe, adentrou pela porta fechada e abocanhou a roupa da criança, arrastando-a para fora. Coisa de herói. Foi exaltado. Recebeu banho, uma boa refeição e um nome.

De vira-latas a Anjo… o melhor amigo de todos na vizinhança. Era ele quem acompanhava — faceiro — as moças na volta da faculdade. Sabia rosnar alto-forte. Ninguém se atrevia em seu caminho. Todos sabiam de sua força. Muitos o tinham como confidente. Enquanto dividiam com ele um pedaço de pão, conversavam com seu olhar de compreensão… o melhor dos ouvintes.

Zezé foi encontrado morto na mesma praça em que brincava com as crianças da vizinhança. Foi envenenado.

A notícia surpreendeu todos os moradores da rua dois, que acabaram por promover um velório ali mesmo. Uma cova bem rasa e uma pequena lápide de madeira onde se lê: “Tão livre que foi invejado pelos encarcerados em si. Anjo de quatro patas, amoroso demais para viver entre seres inferiores”.

*Conto constante de RUA 2, livro de contos curtos lançado pela Scenarium Livros Artesanais, como Morador Da Rua 2.

Foto por Fatih Gu00fcney em Pexels.com

17 / 05 / 2025 / Fruição*

Presente da amiga e companheira de Nave-Mãe, Marineide. Pode parecer uma simples base térmica para colocar panelas ou formas quentes, mas para mim, representa o Círculo da Vida — em que o fim se confunde com o começo, mesmo porque, não há confusão, há fluição — nem início, nem final, apenas fruição…

*Postagem de 2016

12 / 05 / 2025 / Um Menino*

Conheci um menino que, por volta dos oito ou nove anos, recebeu a informação, por coleguinhas mais velhos, que a maneira mais comum de fazer amor com uma mulher, seria frente a frente. A principal preocupação do menino passou a consistir no fato de que teria que fazer algo tão íntimo olhando nos olhos da pessoa que viesse a namorar.

Aquela possível futura situação realmente o deixou estarrecido. Percebeu que não teria condições psicológicas de realizar aquela proeza. Seria tão fácil, pensou, se fosse apenas como os cachorros fazem, que era o modo que conhecia, pelo que via nas ruas…

Aliás, olhar nos olhos de outra pessoa era a coisa mais difícil de sua vida. Como igualmente enrubescia com a ideia de que alguém estivesse o observando. Tentou sempre ficar nos fundos ou nos cantos das salas de aula que frequentou. Essa atitude o favoreceu como um observador dos movimentos humanos e passou a sentir prazer em desenvolver esse talento materializando-o no papel. Tentava passar despercebido de todos, mas cedo percebeu que algumas de suas habilidades, passava a posicioná-lo no centro das atenções. Logo, passou a disfarçá-las, para melhor se esconder.

Lidar com as meninas, então, era o pior dos mundos. Elas o fascinavam ao mesmo tempo em que o deixavam paralisado. Gostava tanto delas, que preferia colocá-las na segurança de um pedestal, idealizadas como modelos de perfeição. O menino lembrou-se de quando começou a se apaixonar, à mesma época da descoberta sobre o intercurso frontal entre as espécies.

Primeiro, se apaixonou pela menina mais bonita da escola, depois pela mais desengonçada que, no entanto, gostava de seu melhor amigo. Aliviado por não ser o alvo daquela paixão, serviu alegremente de pombo-correio entre os dois. Mais um pouco, percebia que dava preferência às meninas comprometidas. Isso, o impedia de vir a querer se aproximar delas com intenções amorosas, já que seguia a rígida etiqueta da amizade entre os homens – “poderá até cobiçar a namoradinha do próximo, mas nunca deverá convidá-la para sair”.

No decorrer dos anos, o menino que conheci conseguiu, paulatinamente, mas com muito esforço e sofrimento, superar a sua mórbida timidez. Casou, teve filhas, mas apesar disso, nunca chegou a entender inteiramente as mulheres, mesmo as tendo constantemente por perto. Ou até por isso mesmo… Em suma, elas continuavam a fasciná-lo enormemente.

Se ele me pedisse um aconselhamento e se ele não estivesse tão longe no tempo, pediria covardemente que nunca se aproximasse das meninas, nunca se envolvesse emocionalmente, nunca se apaixonasse completamente por elas. Porém, advertiria também que ele perderia o melhor da viagem. Os altos e baixos do relevo, as curvas perigosas da estrada e a paisagem sempre inesperada. Diria ainda que podemos morrer por elas, no entanto é por elas que devemos viver.

*Texto de 2020