Pequenininhos* & Comestíveis*

Pequenininhos

“Paê, para onde está indo o Sol?”

“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol. E ele é apenas uma estrelinha entre milhões de outras na Via Láctea, em torno das quais giram outros tantos planetas como o nosso. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto deste Universo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.

“Pôxa, paê, isso eu sei… Sou o menor da escola…”.

*Texto de Julho 2016

Comestíveis

Bananas ao Sol invernal na manhã
desta terça-feira de feira.
Estão, a manhã e as bananas,
lindamente vestidas
de amarelo comestível…

*Poema de Julho de 2015

Quando Perdemos*

A bola veio de encontro ao craque. Poderia ter sido rebatida para o outro lado do campo, mas, como se diz, a bola parece procurar “quem sabe”. Muito provavelmente tem mais a haver com a noção de ocupação de espaço que os quem sabe têm do jogo. Era preciso pará-lo de qualquer forma!… E assim foi feito! O menino bom de bola, desde cedo acostumado a enfrentar os parrudos zagueiros dos times adversários, utilizava o seu alto desenvolvimento do tônus muscular esquelético para escapar meio segundo antes das entradas maldosas vindas de frente, do lado e até de algumas mais furtivas, por trás. No entanto, a oportunidade, unida à rapidez, chegou zunindo “zunigando”, zás-trás, com força e má intenção, com o joelho apontado para as costas do alegre inimigo, certeiro como uma bala perdida que atinge um inocente em seu berço.

Por um instante, a dor fez com que a vítima perdesse o ar e que, pior, tivesse a plena sensação de que ali se encerrava um ciclo. Bem possivelmente, chegou a passar por sua mente que a função para qual nascera para exercer também se encerrava. Acostumado a ser visto e reverenciado por sua irreverência, saía do “campo de batalha” ferido e em prantos, colhido que foi pelo trem desgovernado e carregado dos vários matizes das dores físicas e mentais.

Este país que produz tipos tão diferentes quanto um franzino garoto do litoral ou um “Hulk” no interior brasileiro, tal e qual a personagem de um quadro de Portinari, e os reúnem em um mesmo time, agora tem que ver os seus filhos darem um pouco mais de si para alcançarem a vitória contra uma equipe mais equilibrada, estável e bem dirigida, representante de uma nação que é mais desenvolvida em todos os setores da atividade humana, da cultura ao esporte, da economia à política. Bem por isso, não prescinde de se fazer prevalecer também no futebol.

Se passarmos pelos alemães, e chegarmos à final, não seremos melhores que eles nos outros aspectos, mas nesse, pelo menos, poderemos arrogar superioridade. O rato rugirá mais alto do que o leão, Davi derrubará o Golias e mais um épico moderno se consumará. Esperemos…

*Texto de 4 de Julho de 2014

Posfácio

O texto acima foi feito no calor da hora, tendo os dados imediatos como referência. O tempo passou, há dez anos as circunstâncias eram contraditórias, visto que claramente houve superfaturamento nos custos na construção dos estádios – uma festa para políticos de ocasião – enquanto o povo festava a possibilidade de um hexacampeonato. A maioria das personagens permanece como protagonistas de novos escândalos e outros foram ultrapassados pelas novas condições do movimento cíclico da História.

Uma dessas personagens que diminuiu em conceito foi o protagonista da crônica. Enquanto evoluía em termos de ganhos financeiros mais decaiu em minha avaliação pessoal. Apesar de absolvê-lo inicialmente de algumas peripécias, não houve como deixar de perceber que o ser humano em questão não passava de um macho escroto, politicamente aliado à causas espúrias, metido em negociatas, amigo de estuprador que pagou a fiança. Alguns diriam que foi fiel ao amigo. Eu diria que ele ajudou a si mesmo a fugir de acusações como a que o amigo se envolveu.

O então governo Lula esteve no centro das acusações de desvio de verbas na construção dos estádios. Precisou haver uma ameaça de Golpe de Estado no horizonte para reabilitá-lo como figura política viável e, apesar de ter as críticas, tem realizado um trabalho razoável, dada as condições contrárias, já o Congresso Nacional está eivado de agentes do Reacionarismo. Continuamos perdendo, de uma forma ou de outra…

Ciúme*

Na imagem, atrás da Bethânia, quase despercebida, a carinha da Indie, que foi doada.

Ciúme, o seu nome é Maria Bethânia. Quando começo a acarinhar as outras, ela logo se põe a protestar veemente. Chega a morder a minha mão e atacar fisicamente as demais do grupo, não importando os tamanhos dos alvos, diante de sua contrariedade desmedida.

Quando quero chamar a sua atenção ou quando a chamo e ela não me atende imediatamente, uso sempre o expediente de passar a mão pelas cabeças das amigas, o que é suficiente para transformá-las em oponentes, vindo em nossa direção, a enfrentá-las, ainda que saiba que são maiores e mais fortes do que ela.

De onde deriva esse ciúme, afinal? Sou aquele que não deve dividir a minha dedicação e zelo com mais ninguém? Ela se sente minha proprietária? Um sentido de territorialidade natural exacerbada talvez explicasse a sua reação, no entanto, o seu cuidado não se estende tão fortemente à sua cama nem ao pote de comida, aliás, quase nada.

A contrariar o fato aceito de que somos a nós a possuí-los (a determinar-lhes o destino), quem decide levar a cabo os melhores cuidados a esses seres especiais, sabe que somos nós a sermos possuídos por eles. Será que chegam a ter consciência que seja um pecado sério dispensar atenção a mais alguém além deles, da família dos canídeos e de outros seres humanos?

O meu desejo de expressar em palavras as minhas suposições foi motivada por um episódio. Quando fui à casa da minha irmã, que mora ao lado, logo na entrada acarinhei a Vitória e a Dominique. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir um latido lastimoso vindo da minha varanda. Lá estava a Bethânia, a demonstrar o seu desacordo em relação à minha afetividade por aquelas que conheço há anos. O seu olhar era quase desesperado. As suas orelhas eriçadas quase tocavam o céu!

Maria Bethânia foi resgatada da rua por uma das minhas filhas humanas a pedido da minha companheira, Tânia. Em direção ao trabalho, ela a viu a correr sem rumo por nossa vizinhança e quase entrar debaixo de seu carro, condoeu-se de sua condição. Era um sentimento novo para ela, que nunca foi tão achegada aos cães. A experiência de acompanhar a Dorô em sua jornada de combate ao câncer que finalmente a vitimou, lhe trouxe a inesperada percepção da nossa imensa conexão com esses seres únicos.

O meu interesse pela origem do ciúme de Maria Bethânia é quase antropológico – no sentido que o cão é um ser que tem, ao longo dos tempos, adquirido comportamentos assemelhados ao do Homem. De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa, então, de maneira mais acintosa. Amor, ciúme, posse — onde começa um e termina outro?

Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos; se a sua base é espiritual ou físico-química; se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, principalmente os mais próximos de nós, “aculturados”, possa dizer muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revela-nos animais básicos ou, basicamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…

*Texto de 2017, constante de meu primeiro livro de crônicas lançado pela ScenariumREALidade

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Viagem Literária

O tema proposto para este 6 On 6 me deixou um tanto desconcertado. “Viagem Literária” era mais ou menos a sensação que eu tinha antes de empreender viver a vida literal. Eu era um sujeito fora do mundo “real”, em que cada dia surgia como um capítulo de um livro escrito página por página a cada hora. Viver, de certa maneira, era bastante penoso porque as personagens envolvidas se expressavam de maneira irregular em enredos aparentemente sem sentido, ainda que eu acreditasse que nada fosse por acaso.

O meu “texto” inventava uma realidade que não batia com a dinâmica humana. Aceitar que a maioria das circunstâncias apresentavam razões impenetráveis para um autor que tentava escrever sua própria história só se resolveu quando abandonei a escrita e comecei a trajetória de homem casado, com filhas para criar. Ganhei uma apresentação de capa que me habilitou a ser considerado “normal”. Durante alguns anos, vivi a “vida louca” de um cidadão comum. até que as redes sociais me possibilitaram voltar a expressar minha visão de mundo sem compromisso, de uma forma menos formal.

A minha viagem literária passa pelos textos que apresentei ao longo anos, porque ainda que tentasse escapar da formalidade, o escritor voltou a ganhar peso e que em 2015 acabou por ingressar num projeto — da Scenarium Livros Artesanais — que desde então me estimula a assumir o compromisso de me tornar o melhor escritor que eu possa ser.

Neste dia Dia de Reis de 2021, recebi de presente, em papel transparente, uma “sensação de estranhamento feliz”. À primeira vista, esta fruta que encontrei no jardim, parecia um pequeno abacate. O abacateiro que tínhamos se foi há algum tempo. Após lavá-la, ao posicioná-la para a foto, quase a confundi com uma pera. Ao toque, devido a lisura de sua casca, ficou evidente tratar-se de um maracujá mesmo já que, além das mangas (no final da safra), jabuticabas e goiabas, só temos mesmo um maracujazeiro em plena produção. A sua forma inusitada, causou aquela sensação nomeada acima. Um pequeno bálsamo em relação à antípoda “sensação de estranhamento infeliz”, tão em voga em 2020. Feliz Dia de Reis!

Imagem de 6 de Janeiro de 2016

Discos que não serão mais tocados
Céus que não serão mais riscados
Por pipas, aviões, ovnis, seres alados
Amores que não serão mais amados
Por você, por mim, por nós, passados
Todos, pela moenda dos sonhos dourados…
O Tempo!

Este ano esta mesma imagem ocorreu igualmente, mas esta é de 2013…

Da janela do meu quarto, se alcança as frutas. Este ano, houve uma superprodução de mangas, o que as minhas cachorras muito agradece! Quase sempre vejo um cão chupando manga e eu acho lindo! Durante todo o dia, se ouve o som do baque das filhas que abandonam as pencas mais amaduradas e elas se aproveitam, incontinentes. Nós, os humanos, a aproveitamos in natura, em suco e até para fazer sorvete. Estas aqui ainda estão verdes, mas por pouco tempo…

Meu quarto livro lançado pela Scenarium… em maio de 2021

No início de 2021, estava sentindo as consequências de me abrir para o mundo. Tudo me atingia. A situação do País em meio a uma Pandemia, envolto pelas sombras de um Reacionarismo que se autointitulou de Conservadorismo, como se devêssemos conservar todas as mazelas não de um passado recente, mas do Colonialismo — poder aos brancos, homofobia, misoginia, massacre dos originais da terra, exploração predatória de um país em que se plantando tudo dá. Pindorama sendo novamente devassada por usurpadores que acreditam que não existe lei ou pecado abaixo da Linha do Equador. Curso De Rio, Caminho Do Mar desaguou em páginas da Scenarium Livros Artesanais e me salvou de afogar em tanta angústia. Nele, tento manter a cabeça fora d’água, mas não deixei de mergulhar em águas profundas.

Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”. Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”. Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros ArtesanaisREALidade — por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no Home Office. É meio difícil explicar a forte personalidade dessa “pessoa”…

Este poema eu escrevi para uma apresentação no lançamento das publicações da Scenarium Plural – Livros Artesanais, em agosto de 2016, ao qual infelizmente não pude comparecer. Trata sobre um tipo que se sente depreciado e que se auto denomina “O Segundo”. Estranhamente, a linha final parece atual e premonitória (da época do golpe do Congresso Nacional sobre a Dilma e a assunção do vice, Temer), se bem que o entendimento possa tanto ser utilizado em relação ao personagem quanto à contagem do tempo.

O SEGUNDO

Ser protagonista não é o meu papel.
Sou o escada no número de humor.
Sou o segundo do lutador.
Sou o amigo tímido do namorado.
Era reserva do goleiro no time de futebol.
A opção confiável, mas nunca escolhida.
Ficava com as sobras da comida.
Eu me tornei o primogênito,
porque o meu irmão mais velho morreu…
Casei porque a minha mulher foi deixada
e eu estava lá para a consolar…
Na cama, os gemidos dela nunca foram para mim…
Certa vez, o nome do outro foi murmurado…
Sigo sendo servidor de segundos…
Outros segundos tempos…
O meu consolo é saber que a História
dos tempos
é contada por segundos…

Participam: Mariana Gouveia / Silvana Lopes / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi

BEDA / Mulher De Parar O Trânsito*

Estávamos no carro… em mão contrária a ela — que parou, enxugou o suor da testa e olhou em nossa direção. Eu me senti diretamente atingido por seu olhar. De repente, me vi intimidado pela força da cena que presenciávamos. Atrás de si, se estendia uma fila imensa de automóveis, que esperavam que ela se movesse tão depressa quanto possível, dada a sua condição. A mulher talvez tivesse quarenta anos, mas as mechas de cabelos brancos e desgrenhados denunciavam mais. Era magra, devia pesar uns 55 quilos e carregava pelo menos 200 quilos de papel, papelão, lata e plástico… na imensa carroça que puxava. Na verdade, como vinha do acentuado declive da primeira parte da Gal. Penha Brasil, sua tarefa — até aquele momento, em que chegava à parte plana — tinha sido segurar o peso na descida.

O movimento de automóveis naquela hora da manhã desse sábado estava bem intenso, tanto para subir quanto para descer… mas, a lentidão na mão para baixo era provocada por ela. No entanto, não se ouvia qualquer buzina impaciente, nem sequer um semblante tenso nos motoristas que a seguiam. Ao contrário: os paulistanos daquele pedaço da Zona Norte pareciam estar totalmente solidários àquela cidadã, que carregava o seu sustento pelas ruas irregulares. Imaginei que não se sentissem tão diferentes dela, em suas jornadas pessoais para ganhar o pão com o suor do rosto. Quiçá, não se achassem tão corajosos para enfrentar uma tarefa tão dura…

*Texto constante de REALidade, livro de crônicas lançado pela Scenarium Livros Artesanais, participante de BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi