BEDA / Scenarium / Eu Renasci De Óculos

Os Óculos

Corria meados dos Anos 80 e o Rock Nacional adquiria um fôlego inédito desde a época da Jovem Guarda, vinte anos antes. A banda Paralamas do Sucesso havia lançado em 1984, o Álbum Passo do Lui e entre os vários êxitos do disco estava “Óculos”. Para quem se tornou um “quatro olhos” aos doze anos de idade, aquela canção expressou muitas coisas que todos nós, meninos que portamos lentes em armações sentimos: a rejeição das meninas, o uso delas como anteparos da tristeza ou acentuação da alegria ou até a atratividade um tanto duvidosa do “ar de intelectual” que poderia ser confundido com estranheza ou bobeira.

Eu percebi que estava começando a perder a acuidade visual depois dos onze e lancei mão de óculos de meu pai guardados em uma gaveta, que pouco o vi usar. Como em muitas ocasiões antes, o Sr. Ortega estava fora de casa. Quanto aos óculos, as lentes deviam apresentar um grau maior do eu necessitava. Doía meus olhos ao usá-los, além de deformar as imagens diante de mim. Eu os punha e os tirava frequentemente. Até que, acidentalmente, caíram. A armação não impediu que as lentes grandes e pesadas fossem preservadas. Fizeram-se em cacos. Passei a usar o maior caco para poder acompanhar as lições escritas na lousa. Apesar do medo em relatar o ocorrido ao Sr. Ortega, em uma das estadas em casa, tive que abrir o jogo. Achei estranho como aceitou o fato sem me criticar, como quase sempre fazia por qualquer coisa que dissesse ou fizesse. Ele me levou para fazer exame de visão com um oculista para aviar uma receita. Comprou novos óculos e voltou a sumir.

Minha personalidade passou a usar óculos. Quem começa a usá-los, começa a perceber que aquele dispositivo pode ser usado como apoio para quem não precisa de subterfúgios para se expressar. Para mim, foi assim. Acabei um tanto prejudicado no esporte, principalmente no futebol. Sonhador, como tantos garotos, em me tornar jogador profissional, percebi que tinha que reinventar meu estilo. Outros sentidos e possibilidades se sobressaíram. Soube que o Pelé também era míope, a ponto do técnico da Seleção de 70, anterior a Zagallo – João Saldanha – querer colocá-lo no banco. Obviamente, eu não era um Pelé. Mas sabia que não era ruim. Durante um certo período, tentei levar esse projeto adiante. Estava quase para desistir quando o meu irmão gastou uma parte de seu salário na compra de lentes de contato para mim. A minha performance melhorou muito.

Porém, outros projetos ganharam corpo. Eu estava cada vez mais ensimesmado e os óculos passaram a funcionar como escudos. Continuava a jogar futebol, agora como diversão. De tempos em tempos, com o crescimento da miopia, tive que comprar outros óculos. Lentes de contato, apenas para atividade física competitiva. Quando surgiu a operação corretiva, de início não tinha recursos para fazê-la. Depois, mais velho, percebi que os óculos passaram a fazer parte de mim. Atualmente, não cogito deixar de usá-los. Acrescentou-se a hipermetropia e o astigmatismo. Um dia, minha visão será obliterada pelo tempo. Os olhos são os órgãos que, entre todos, refletem mais cabalmente a passagem do tempo, pelo menos, por enquanto. Com o avanço da ciência, talvez encontremos caminhos para enxergarmos prescindindo deles, com conectores artificiais ligados diretamente ao receptor da visão – o cérebro – que verdadeiramente produz as imagens que vemos e interpretamos.

Além dos probleminhas com meus amigos, atualmente tento encontrar um modo de não embaça-los com o uso da máscara de proteção. Para os olhos, já os tenho. Sou tão apegado a eles que, os atuais, rachados por causa das várias quedas, os mantenho unidos em um só corpo atados com fitas isolantes pretas – para não “dar muito na vista”. Infelizmente, brevemente terei que trocá-los. Esses amigos de anos ficarão na reserva. Como o antigo, os guardarei com carinho. Sabedor de muitas histórias vividas comigo, sentirei saudade suas. A morrer e renascer em muitas ocasiões, desde os doze anos renasço com óculos. Ao final de tudo, certamente morrerei com eles.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Poeminha De Amor Nos Tempos Do Corona

POEMÍNIMO 2
Semântica do olhar…

A pena da Quarentena a terminar…
A moça, romântica,
daquelas de novela de TV,
depois do isolamento,
sem lamento,
procura pelo amor que crê
ser o ideal –
deleitoso, íntegro, leal…

Ainda que este pareça ser o momento errado.

Pela semântica do olhar,
imagina que com ele cruzará
pelas calçadas que caminhar.
É otimista, mas idealista –
mais que beleza, quer integridade –
descarta a quem dela se aproximar
desmascarado…

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Lógica

Lógica

Lógica tem dois significados principais: discute o uso de raciocínio em alguma atividade e é o estudo normativo, filosófico do raciocínio válido. No segundo sentido, a lógica é discutida principalmente nas disciplinas de filosofia, matemática e ciência da computação.

De início, o uso do raciocínio, a depender de quem o utiliza, passa por caminhos insuspeitos, redundando desde criativas análises estruturais a mirabolantes teorias da conspiração. Para esses, “raciocínio válido” é o que vale para explicar porquê as coisas “são” o que “estão”. Os argumentos são apoiados em ideias coletivas normalmente orquestradas externamente.

Deve ser mesmo difícil para quem não encara de maneira racional os acontecimentos cotidianos ver escapar de suas mãos os rumos alternativos aos seus paradigmas. Uma gripe vinda da China, de cepa mais virulenta, poderá significar desde indício de guerra biológica até a um projeto comunista específico para derrubar o governo de um país latino americano do outro lado do mundo. A morte de centenas de milhares de pessoas no planeta inteiro é apenas um mero detalhe.

Contra a determinação do estabelecimento da Quarentena de afastamento social, esses seres “lógicos” levantam a bandeira do prejuízo econômico resultante, sem levar em conta que a elevada mortandade igualmente causa não apenas revezes financeiros como psicológicos. A escolha pela vida é mais ética. Todos os governos sérios a estabeleceram como prioridade. Também filosoficamente falando, é a decisão mais lógica a ser tomada para impedir a progressão da Covid-19.

Porém, por estes lados, para os seguidores do governo central, o isolamento trata-se de um conluio de opositores para derrubar o líder supremo. Da maneira que vejo as atuais circunstâncias, por mais que sejam políticos (portanto, dignos de desconfiança), os chefes dos executivos estaduais e municipais adotaram as medidas corretas. Melhor para eles – em termos de repercussão política a longo prazo – que, em sendo da oposição, enfrentem a rebeldia psicótica do Capitão.

Da mesma forma que é lamentavelmente muito ruim para a população brasileira, já que muitos vagueiam entre atenderem ao chamado para permanecer em casa e o de saírem às ruas para angariar recursos para pagarem as contas. O risco de perder a vida é colocada como possibilidade distante, isso até acontecer com o amigo, com o pai ou a mãe, o marido ou a esposa, consigo. Ser soldado de uma causa não o torna mais nobre, apenas mais um número na operação de soma… ou seria de subtração?

A lógica, em termos filosóficos, me leva à metafísica – exame da natureza fundamental da realidade, a relação entre mente e matéria, entre substância e atributo e entre potencialidade e atualidade. Esse processo me eleva acima das circunstâncias comezinhas, as quais que chamo de crispações na superfície do oceano. Igualmente, me salva do sentimento de me ver como um elemento dispensável no jogo da vida – ainda que seja. Prefiro, se for para morrer de forma tão estúpida, que o faça contrapondo a minha capacidade mental lógica à perfídia de servir de peça num jogo irracional e vaidoso. Política é a arte da convivência. O que se apresenta hoje como cenário é da convivência sem abraços, sem toques e beijos somente à distância – para sobrevivermos. Para podermos voltar a viver, em futuro novo, uma vida plena.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte II

Velho estava acostumado a dormir pouco. Ainda que em dias de baile voltasse às 5h, às 8h se punha de pé. Não encontrou Sorriso. Gato pedia para sair para o jardim e foi atendido. Ao abrir a porta, viu Sorriso passando pelo portão com leite, frios e pãezinhos nas mãos. Ao vê-lo, sorriu.

– Bom dia, Velho! Não tinha quase nada, a não ser café. Fiz umas comprinhas.

– Bom dia, Sorriso! Não precisava… Nos últimos tempos, estou habituado a tomar apenas café, pela manhã.

– Também não estou acostumada… Vamos mudar um pouco. Tome um café da manhã completo, comigo, por mim, tá?

Sorriso, ao verbalizar seu pensamento, percebeu então sua ousadia. E se o que estivesse pedindo fosse demais? Será que ele a considerava tanto quanto imaginou?

– Se fosse fazer algo por alguém, seria por você, Sorriso… e pelo Gato, claro…

Seu rosto se iluminou no sorriso mais aberto. Entraram.

Se era uma coisa que Sorriso sabia fazer era café. Desde bem pequena, aprendeu a preparar a bebida para sua mãe. Em casa, mesmo cansada da noite do trabalho pelas esquinas do Centrão, encontrava prazer nesse cuidado de filha. Ao contrário do que acontecia com a maioria das pessoas, bastava Helena tomar a sua dose encorpada de café para se sentir torporizada. Dormia a manhã toda, enquanto Sorriso cuidava dos três irmãos. Sorriso acabou por ficar só quando dois deles morreram de parada respiratória por uso de cola e o terceiro sumiu sem deixar vestígios, todos antes dos dez anos. Sucessivamente, como praga dos deuses, Helena caiu gravemente enferma e morreu. Ainda antes mesmo de completar doze, já oferecia o corpo em troca de subsistência. Seu Zé, dono do cortiço onde morava – que ela via como uma espécie de pai – teve essa ideia para pagar o aluguel. Foi o primeiro a usá-la. Depois, passou a oferecê-la para outros homens. Fugiu. Vez ou outra, algum homem solitário a chamava para morar um tempo consigo. Ficava o tempo até perceber que se tornara uma empregada mal paga: de cama, mesa e limpeza, além dos eventuais espancamentos. Nunca quis ser uma “típica dona de casa”.

Desta vez, foi Sorriso que tomou a iniciativa de ficar com Velho. Percebeu que tinha uma imensa ternura por aquele homem experiente e triste. Queria cuidar dele, se assim permitisse. Alternativa que pareceu ser aceita quando, após o cheiroso café da manhã, Velho disse para Sorriso ficar à vontade e permanecer o tempo que quisesse. Completou que não impediria que ela continuasse o seu trabalho, se assim desejasse. Pela primeira vez, Sorriso desejou que alguém demonstrasse certo sentimento de posse por si…

Com o correr dos dias, semanas, meses, a relação dos dois se transformou em algo bem mais rico do que apenas uma mescla de simpatia e ternura que sempre existiu. E foi essa situação que os dois filhos de Velho – Júlio e Juliano – encontraram quando foram visitá-lo: um casal feliz. Aquela conjuntura os pegou desprevenidos. Mais uma vez, estavam decididos em convencer o pai a deixar a casa e ir para um asilo. Logo a vista do jardim redivivo, com flores novas a brotar nos canteiros, os deixaram desconcertados. Era como se Dona Nina estivesse esperando com suco, café e bolo. A saudade aumentou ao sentirem os mesmos aromas ao chegarem à porta.

Velho não havia lhes alertado sobre a nova situação quando avisaram que iriam encontrá-lo. Entretanto, preveniu Sorriso sobre como eles se comportariam. Experiente no trato com as pessoas, promotor e relações públicas durante cinco décadas, conhecia a natureza humana. Nada e ninguém o surpreendia. Suspeitando da insistência dos filhos em tirá-lo da casa na qual cresceram e onde ele viveu os últimos sessenta anos, procurou se informar e soube que aquela área estava cada vez mais valorizada e o terreno que abrigava a sua residência valia muito dinheiro. Era disso que se tratava. Nada de desvelo ou preocupação com o velho pai, ainda que se enganassem mutuamente que assim fosse. Nada de desejar o melhor para aquele que os sustentou, educou e se esforçou para que chegassem à faculdade. Apenas interesse econômico. Ele valia mais morto do que vivo. Já vira isso acontecer durante seu trabalho com o pessoal da terceira idade. Tornou-se confidente de muitos velhos – homens e mulheres.

– Como vai, papai? – perguntou o mais velho, Júlio, que aliás carregava o nome do pai.

– Bem! Como pode perceber…

Realmente, Velho parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Continuou:

– Eu apresento a vocês, Sorriso, minha companheira…

Literalmente, com os queixos caídos, os Jota-Jota, como eram conhecidos, gaguejaram coisas como “pensamos que se tratasse de uma empregada ou cuidadora”; “o senhor nunca foi disso, se envolver com uma garotinha”; “deve ser uma aproveitadora, de olho em sua grana”…

Sorriso fez que não ouviu e mostrou porque carregava aquela alcunha. Disse de maneira bastante suave e até alegre:

– Fiz bolo de cenoura, café e suco. Por que não se sentam?

Como se tivesse lhes dirigido impropérios, os filhos de Velho começaram a gritar:

– Que é isso? Você não é Mamãe! Quem pensa que é? Putinha!

Velho apenas se dirigiu à porta e pediu que saíssem, com o coração apertado, intuindo que os filhos, para atingi-lo, impediriam que visitasse os netos.

– Isso não vai ficar assim, Velho! Vamos interditá-lo!

Quando saíram, Velho desabou no sofá e quase agradeceu por sua Nina não estar viva para presenciar aquela cena. Sorriso se sentou em seu colo e o abraçou afetuosamente.

O encontro com os filhos se deu no início de 2020. Ainda que doloroso, não quebrou a feliz rotina do casal. Velho e Sorriso, meses antes haviam se tornado assíduos frequentadores dos salões da noite paulistana. Velho reviveu as suas melhores noites. Para Sorriso, que com ele aprendeu seus primeiros passos de dança de salão, se descortinou uma vida que sequer imaginara. Em meados de Março, os bailes de casais começaram a ser cancelados com a chegada do novo corona vírus, com a promessa da progressão da Covid-19. Para evitar o seu avanço, a Quarentena foi instaurada. Não era difícil para o casal ficar em casa, com Gato a lhes acompanhar. Quem pudesse vê-los ocasionalmente, logo identificaria a cumplicidade natural daqueles que se amam.

No início de Abril, Velho começou a se sentir cansado e a tossir um pouco. Logo, percebeu que não estava nada bem. Disse a Sorriso que não queria ir para o hospital, nem que avisasse aos filhos. E pediu a ela que o deixasse sozinho para que não se infectasse com a doença que sentia progredir rapidamente. Sorriso o olhou dentro dos olhos, como gostava de fazer para ali encontrar o brilho do homem gentil e amoroso. Percebeu que estavam um tanto embaçados. Disse:

– Eu nunca mais sairei do seu lado…

Velho sorriu um sorriso de velho que era. Sorriso se deu conta que o estava perdendo. Tomou uma decisão, cujo desfecho só foi conhecido dias depois. Gato, que miava incessantemente no jardim frontal, pedindo para entrar, chamou a atenção dos vizinhos que passavam. Ao se aproximarem, sentiram um forte cheiro vindo de dentro da residência. Chamaram os bombeiros, que arrombaram a porta. Encontraram uma jovem de vinte anos e um senhor de oitenta, abraçados na cama de casal. Mortos. Um leve odor de gás evidenciou a causa dos óbitos.

Ao saírem com os corpos, os soldados passaram por Gato, assentado na cômoda da ante sala. Sonolento e indestrutível.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte I

O velho homem, entre tantos no salão de baile, não era percebido. Não mais. Antigo promotor de eventos, ainda sorri quando é reconhecido por poucos saudosos de seus bailes. Na maior parte do tempo, observa aos dançarinos, a dançar com os olhos em lugar dos pés cansados. Quase sempre, é um dos últimos a deixar o espaço como se ele mesmo se esvaziasse.

Num desses dias, madrugada alta, a caminhar para casa, o Velho passou mais uma vez pela mocinha sorridente. Costumeiramente, naquela área, ela se oferecia como a alegria passageira de homens e mulheres que pagassem 20, 10 Reais, durante anos-noites seguidas. Por vezes, sumia por semanas outras. Apesar do sorriso fácil, quase um cacoete, como se fosse um cachorro que abanasse o rabo entre as pernas por medo de ser atacado, Sorriso se abria em lábios de forma sincera para o velho. Em troca, recebia sempre um sonoro “boa noite” ainda que a manhã ameaçasse surgir.

Naquela madrugada, ocorreu algo diferente. Velho parou diante da moça que, surpresa, estancou em sorriso-esgar.

– Como vai você?” – ele perguntou.

Desacostumada a falar, a não ser para oferecer serviços e valores, pareceu não entender. Percebeu que a pergunta não havia sido mera formalidade.  Respondeu sinceramente:

– Hoje, não estou bem, Velho… – Ao se ouvir, Sorriso parou de sorrir, denunciando seus olhos tristes.

– Faturou pouco?

– Nem tanto…noite de muitos solitários…

– Quer amainar a solidão de mais um? Mas não quero entrar nesse cubículo escuro. Moro a uma quadra daqui. Sozinho. Gostaria de me acompanhar?

Sorriso não estava habituada a ser bem tratada. Via a Velho, como era conhecido por todos, sair acompanhado cada vez com menos gente ao seu lado. Ultimamente, ninguém. Aceitou o convite. Os dois caminharam sem mais nenhuma palavra. No entanto, pareciam conversar a cada olhar evidenciado pela luz artificial. Velho morava em uma casa baixa, uma das mais antigas da região, quase toda tomada por novas torres de moradia.

Passado o portão, o jardim escuro escondia o roseiral que sobrevivia apesar de não ter mais os cuidados de D. Nina, falecida há três anos. Os dois filhos, desde então, pressionavam pai viúvo a sair de casa para um retiro, já que viviam em apartamentos que não suportariam a presença de mais um, ainda que ele não tivesse problemas de saúde aparentes; ainda que fosse um avô amoroso. Em contrapartida, era pouco visitado.

Restou como único companheiro o gato angorá, tão antigo quanto alguns dos móveis da casa. Portento de resistência e pelos, postado sobre a cômoda que ficava no corredor de entrada, Gato foi a primeira coisa que Sorriso viu ao avançar com seus passos tímidos casa adentro. O miado quase inaudível foi acompanhado do olhar sonolento. Confirmada a presença de seu velho cuidador, Gato fechou os olhos de brilho preguiçoso.

Sorriso tinha diante de si uma casa ampla e de opressora solidão. Tudo cheirava a cortinado e mobiliário antigo. Velho disse para que Sorriso ficasse à vontade. Indicou o banheiro caso quisesse usá-lo e a cozinha, se estivesse com fome. Sorriso já não sabia quando estava com fome. O estômago, porém, o sentia continuamente vazio. Disfarçava com uma pedrinha de vez em quando ou, com sorte, um pó. Não gostava de maconha, por causa da larica. Após lavar as mãos, foi ver o que poderia encontrar na cozinha. Com pão amanhecido e queijo branco um tanto amarelado, fez um sanduíche simples. Perguntou se Velho gostaria que preparasse alguma coisa. Respondeu que poderia ser o mesmo que o dela. Para incrementar, ela esquentou o pão na frigideira e ao queijo acrescentou um tomate perdido na geladeira. Disfarçou a velhice do queijo com orégano e o serviu com a última lata de cerveja.

Aquela ação enterneceu o coração de Velho. O preparo do lanche simples o fez viajar para anos antes, quando Nina ainda conseguia erguer os braços e caminhar. As dores reumáticas começaram a impedir que pudesse fazer o mínimo esforço sem muito sofrimento. Desgostosa em não poder mais servir ao seu companheiro de meio século, definhou até falecer. Quando aconteceu, os filhos não estavam presentes, em férias, o que deixou Velho bastante abatido. Desejou acompanhá-la na viagem sem volta e só não o fez pelo compromisso assumido: cuidar de Gato.

Após o lanche, Sorriso perguntou o que ele queria que fizesse. Velho, franco e jovial, sorriu. Por um instante, ela chegou a vislumbrar o jovem que o velho um dia foi através da luz do tempo emanada de sua boca. Disse que queria que Sorriso tirasse a roupa e se deitasse ao seu lado. Acrescentou o convite para que dormisse ali, naquela noite.

– Atrapalha o seu trabalho?

– Não! Já estou no final do expediente. Há muito tempo, ninguém me espera!

– Ótimo! Não precisa acontecer nada. Estou cansado. Mas também vou tirar a roupa.

Ato contínuo, começou a despir-se do elegante terno preto de anos, mas bastante preservado. Deitou-se logo após. Sorriso pousou uma das pernas sobre o corpo de Velho e, se sentindo realmente segura e confortável, dormiu quase imediatamente.

Velho, comovido, fechou os olhos. Com a pele jovem a lhe tocar pernas e púbis, inesperadamente, teve uma ereção. Sentiu-se homem de novo. Adormeceu.

Beda Scenarium