Postagem Coletiva / Scenarium Plural / Oito Curiosidades Sobre Minha Vida Literária

OITO CURIOSIDADES
Meus dois livros: REALidade (Crônicas), de 2017 e RUA 2 (Contos), de 2018, pela Scenarium

1 – Não há diferença entre o início da vida literária de um escritor – em se tratando daquele que transforma a escrita em função criativa – com a de quem escreve apenas para a execução de tarefas práticas. Ela se dá quando começamos a ler. Antes, mesmo que tenhamos recebido estímulos auditivos ou visuais, muitos advindos originalmente da Literatura, apenas o contato direto com as palavras através da leitura nos fará despertar para a fantástica aventura do conhecimento de seus símbolos, signos e significados. Partir para a criação de textos que convidam leitores a ingressarem na realidade alternativa da Literatura se assemelha a recebermos um chamado – ao qual quis atender.

2 – Comecei a ler entre seis e sete anos. Antes disso, desenhava palavras em letra de forma no caderno. O gosto pelo desenho se acentuou nesse período. Foi a primeira maneira que utilizei para produzir temas que, com imagens, contextualizassem histórias. Como não compreendia textos e diálogos dos gibis, produzia enredos de acordo com a sequência dos quadrinhos. Cheguei a ficar decepcionado quando li pela primeira vez as mesmas histórias que anteriormente apenas imaginara as tramas. Primeiro indício claro da confusão entre interpretação e entendimento da mensagem.

3 – Sempre gostei muito de música. De gosto eclético, passeava do erudito para o popular com facilidade e sem preconceito. Cantor amador, gostava de entoar sambas-canção antigos, muitos que conheci na época que tocava violão com meu pai, aos cinco, seis anos de idade. Deixei o instrumento porque as cordas de aço machucavam meus dedos. Fazia versões de músicas que ouvia em outras línguas, desde os oito ou nove anos. Fã dos Beatles, transformei “Hey, Jude” em versos de amor para uma menina pela qual estava apaixonado. Mas foi a tradição de excelentes letristas do cancioneiro brasileiro que me influenciou, a ponto de criar poemas que pudessem ser musicados.

4 – O primeiro gênero que realmente me atraiu, como escritor, foi o de mistérios. Aos dez, onze anos escrevia contos em que o fantástico ganhava vida. Eu lia para o meu irmão menor, que os apreciava. Tendo esse “público” fiel à disposição, fiquei estimulado a produzir cada vez mais. Até que tive contato com Machado de Assis. Leitura obrigatória, entre outras, na escola, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” transformou a minha experiência de leitor e influenciou definitivamente a de escritor. Justamente nesse livro, Machado conseguia conciliar o contrassenso de morto e, com maestria, descrever a natureza humana, desnudada metódica e atentamente em vestimentas, gestuais, minúcias de olhares e silêncios.

5 – Sonhei um dia trabalhar no cinema como roteirista e diretor. Junto aos enredos, me chamava a atenção a maneira como as histórias se desenvolviam através do encadeamento das imagens. Pelos livros que conhecia adaptados para o cinema, pude perceber que um belo tema tanto poderia se esvaziar ou crescer a depender do diretor e edição, poderia ganhar em vivacidade e profundidade. Devido à influência que cinema, teatro e televisão exerceram em determinada época na minha escrita, muitos dos meus textos apresentavam sequências de representação imagética. Era como se escrevesse histórias para vir a público sob o comando de uma voz a clamar: “luz, câmara, ação!”

6 –Durante anos, vivi uma intensa fase mística, principalmente a partir dos 16, 17. De agnóstico praticante, passei a crer – abri a minha percepção para o invisível, obviamente, através da Literatura Não foi a Bíblia, que lia por “recreação”, mas um livro de inspiração na fé orientalista que encontrei – ou ele me encontrou – no “lixo”, pois trabalhava com recicláveis. Tudo que passei a escrever a partir desse “choque de realidade” pessoal trazia a marca do imponderável, do além-Terra. Cada texto que escrevia buscava trazer a mensagem de que a vida era maior do víamos-sentíamos.

7 – Até os 27 anos, escrevi intensamente. Publicá-los era algo que via como algo distante, apesar de não totalmente inviável. Ao casar, a vida familiar e profissional me absorveu de tal forma que aos poucos deixei de escrever regularmente. Praticamente, parei. Filhas crescidas, voltei devagar a lidar com as palavras, agora pelo computador. Com o advento das redes sociais, voltei a produzir textos, apenas para registrá-los. Com a repercussão inesperada dos meus escritos, a possibilidade de materializá-los em páginas do formato-livro tornou-se palpável.

8 – Publicar, percebi com o tempo, não me faria um escritor por si só. Chamar-se de escritor tem um peso absurdo para quem valoriza a palavra escrita. Normalmente é um processo demorado. Pelo menos, foi para mim – uma assunção. Quando a Scenarium Plural finalmente surgiu em minha vida, propiciando que meus textos – crônicas, poemas, contos – viessem a público em forma de revistas e livros, individuais e coletivos, já estava convencido que era um escritor. No entanto, o registro eterno representado pelo livro, realizou um sonho de garoto, que percebi ainda ter lugar no mundo, sem medida de tempo.

 

 

 

 

 

Projeto Scenarium 6 Missivas / Fev-19 / Carta A Uma Amiga

S…, como me dói lhe escrever como amigo, apenas. Apesar de nunca imaginar que isso viesse a acontecer, afinal dizia, caso terminássemos, nunca seria seu amigo… Mas não consigo deixar de lhe falar, saber do que acontece em sua vida. Ainda que venha a conhecer seu novo amor, gostaria ao menos que me colocasse em sua estante de amigos favoritos, como os livros que ama tanto. Afinal, você me lê tão profundamente…

Talvez tenha sido por isso que tenha me deixado. Não tenho mais mistérios a serem desvendados, surpresas a lhe oferecer. Eu achava suficientemente surpreendente que meu amor se mostrasse tão cristalino. Mas não se preocupe. Nunca mais perguntarei porque não me deseja mais. Imagino que seja algo que aconteça, ainda que eu não alcance a razão… Sei que o amor não tem razão. Começa e termina porque o coração quer, porque não quer mais… Apenas não me lembro de quando não a amei. Ou se amei outra pessoa na vida…

De vez em quando, gostaria que me chamasse para ouvir música como fazíamos durante tardes inteiras – Zizi, Gal, Bethânia, Elis… Juro que nunca mais a tocarei, a não ser para um abraço terno. Por alguns instantes, quero ouvir seu coração batendo em meu peito. Quando precisar de mim, pode me chamar – dia ou noite – até por sinal de fumaça, se a Internet não funcionar ou tudo mais falhar. Contudo, não quero parecer um intruso. Por este momento, sei que quer se distanciar de mim. Aceito. Não, sem dor, confesso…

Como a amo tanto, não quero que fique só, como disse que faria. Eu me sentiria muito mal que prefira a solidão a ter a mim como amante. Mas me esforçarei para entender que queira se entender sem mim. Caminhar sem ter meus passos ao lado dos seus, minha sombra a se confundir com a sua… Que queira se sentir única em vez de unida a alguém… ainda que esse alguém seja eu.

De seu antigo amor e, agora, amoroso amigo…

D…

https://www.youtube.com/watch?v=Z3v-K0YQ4vI

Projeto Seis Missivas Em Seis Meses — Scenarium
Participam: Mariana Gouveia, Lunna Guedes

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Nós Dois / Nós Todos

Nós dois fomos muitos. Todos vocês, seres especiais que estão ou passaram por minha vida, desde Tarzan, Cloé e Fofinha, me tornaram uma pessoa melhor. Tive envolvimento pessoal com cada um de vocês, amigos naturais. Saberia reconhecê-los se ou quando nos reencontrarmos, com personalidades memoráveis sob manifestações diferentes?

Nós Dois (2)
Betânia

Betânia, pequena tão presente como se fossem vinte ao mesmo tempo. Ciumenta, banguela de um canino, a lhe conferir um sorriso involuntário, quase de escárnio, chega a ser simpática. Grandes orelhas, desproporcionais à pequena cabeça, chegou em casa menor ainda, uma “ratazana” abandonada. Com o tempo, mais experiente, está deixando de confrontar a autoridade das mais velhas, substituindo o comportamento belicoso por outro, mais conciliador… às vezes. Da espécie “Cat-Dog”, sobe com facilidade a mesas, telhados e muros, sobre os quais passeia com a agilidade de uma felina e a curiosidade de uma alcoviteira. Minha companheirinha de escrita e leitura, igualmente, troca rapidamente minha atenção por qualquer movimento inusitado denunciado por algum som vindo de fora. Através de sua “irmã”, Romy, está ganhando notoriedade nas redes sociais com a alcunha de “Cu Preto”. Inquieta, antes de dormir, emite um longo suspiro digno da inocência em pessoa.

Nós dois (7).jpg
Frida

Frida, nós dois vivemos tantos momentos juntos… Agora que a chama que lhe animava o corpo se foi, está mais presente do que nunca. Resta a falta que faz seus olhinhos de avelã, sua timidez, sua invisibilidade. Sim, porque você conseguia se esgueirar silenciosamente por entre os obstáculos e se postar debaixo dos pés das cadeiras e mesa de jantar ou no canto terá sido apenas a irresponsabilidade de alguém que descia a cem por hora em uma rua de bairro? Frida – ainda que permanentemente invisível – estará sempre em meu coração.

Nós Dois (3)
Domitila

Domitila um dia caiu em uma vasilha de comida das cachorras de casa. Não sabemos como se deu. Apenas encontramos um bicho com sarna, banhado de tinta por obra e arte de crianças ou adultos descerebrados. Tão feinha, com a pele toda enrugada, que a apelidei de “Etezinho”. Ganhou o nome de Domitila. Nunca imaginamos que ficasse tão garbosa. Cresceu linda e forte, a ponto de chamar a atenção do Sultão, o altivo galã-cachorro da nossa rua. De seu caso de amor, nasceu alguns filhotes, entre elas, Frida. As duas, inseparáveis. Ao fazer carinho em uma, teria que fazer em outra. Um hábito que desenvolveu foi se acercar de mim assim que eu começava a varrer o quintal. Como a afastava com chamegos, associava uma coisa a outra. Sem problema. Atrasava minha tarefa, mas ganhava meu dia com sua alegria de criança crescida. Estes últimos dias, tem estado mais quieta com a falta da filha-amiga.

Nós Dois (4)
Penélope

Penélope foi o ser mais amoroso que conheci. Bem… talvez gatos não pudessem dizer o mesmo. Mas ela amava tanto aos humanos que eu tentava encampar a mesma visão. Em vão. Mas sou imperfeito. Ela era perfeita, da cor negra perfeita, sempre disposta a brincar e receber a contrapartida em massagens no dorso e pescoço. Recebia os novos membros do grupo, nesse caso, sempre alguma cadela rejeitada por aqueles que levam seus preconceitos muito a sério, com a guarda protetora de uma mãe. A Rainha da nossa família viu minhas filhas crescerem e doou-se com amor e dor para tornar nossa vida mais terna possível. Já velhinha, nos causou preocupação de membro da família. Fizemos todos os esforços possíveis para tornar seus últimos dias mais confortáveis. Nós a queríamos entre nós. Talvez fosse egoísmo – amor egoísta. Ela nos amava e sabia que faria a falta que faz. Resistiu o quanto pode. Quando finalmente se entregou, eu estava ao seu lado… foi tão pouco por tanta dedicação que devotou a nós.

Nós Dois (5)
Lola

Lola gosta de dormir. Interesseira, não importa com quem. Quer apenas encostar seu corpo do lado de alguém e se sentir protegida. Apesar de seu egoísmo, basta olhar para nós – olhos nos olhos – para nos rendermos. Encerra sua chantagem com lambidas para garantir sua conquista. Em sua atual fase preguiçosa, nem parece que foi encontrada por minhas filhas correndo de um lado para o outro da avenida, totalmente desorientada, em desabaladas carreiras. “Corra, Lola, corra!”. Ganhou seu nome. As meninas a trouxeram para cuidarmos um pouco dela para depois doá-la. Na época, uma delas namorava um rapaz que a quis como mascote. Decidimos que ficaria com ele. O casal – minha filha e ele – a tratava como a uma filha. Quando se separaram, como seu cuidador foi para outro Estado, ela começou a passar parte do tempo conosco e uma parte na casa da “avó”, mãe do rapaz – guarda compartilhada. Hoje, vive conosco e faz visitas ocasionais à outra família. Lola é uma sobrevivente.

Nós Dois (6)
Sandy & Dona Madalena

Sandy viveu conosco desde pequena. Quer dizer, ela nunca cresceu o suficiente sequer para um poodle, raça da qual devia descender. Fazia visitas a casa ao lado até que decidiu não voltar mais. Como a passagem de um terreno para o outro era livre, não foi difícil. Na verdade, os dois terrenos pertenciam a nossa família. Nós morávamos em uma casa, em outra, minha mãe. Ardilosamente, Dona Madalena foi cooptando a Sandy através de subornos na forma de comidinhas, petiscos e muito, muito amor. Minha mãe era um ser que tinha o dedo verde, falava com as plantas, amava os animais. Ao mesmo tempo, conseguia reunir em torno de si pessoas que apenas em sua presença conseguiam se tolerar. Sandy, aos poucos foi se tornando tão territorial que tentava impedir que os próprios filhos humanos beijassem a mãe. Quando Dona Madalena adoeceu definitivamente, após um tempo de internação, veio a falecer. Durante esse período, ela passou todo o tempo junto ao portão, esperando a sua volta. Certo dia, ela desapareceu. Apesar de nossas buscas, nunca mais a vimos. Foi em busca de seu grande amor…

Nós dois (8)
Dorô

Dorô – Dourada – amor de todos nós, da Família Ortega. Não podia deixar de falar de você. Sim, vale infringir as regras e ultrapassar a postagem das seis fotos para homenageá-la. Filha única da Lua – sua mãe – como que surgida por magia da noite, foi a nosso xodó, antes mesmo da Penélope. Amiga-filha-irmã, ajudou a Tânia a encontrar sua conexão com os cães, quando adoeceu, já velha. Tânia começou a entender que esses seres se expressavam de uma maneira diferente, por gestos sutis e olhares profundos. Isso a comoveu definitivamente. E se tentamos, todos nós, compreender qual seria o papel (em nossa mentalidade utilitarista) dos cães, suponho que seja a de nos ensinar a amarmos sem entender o porquê. Amor, sendo amor, por amor…

Participam dessa interação

Ale Helga | Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Projeto Scenarium 6 Missivas / Janeiro-19 / Para Machadinho

Machado, meu caro, sabe que o tenho em alta conta, que foi meu companheiro na adolescência e muito me influenciou em minha escrita. Sou um escritor mínimo que, no entanto, consegue alcançar fruição estética em suas tramas esmiuçadas, a passear pelos maneirismos dos seres que desfilaram suas precariedades pelas ruas do Rio, a antiga Capital do Brasil.

Sei que foi ambicioso e que se valeu de sua perspicácia e inteligência para influenciar seus confrades e obter meios de ascender socialmente. Tão incisiva a sua inteligência, que passaram por cima de sua origem e cor para o ter sempre por perto. Sabia como manipulá-los, não é certo? Fugiu das armadilhas políticas para enveredar cada vez mais fortemente pelas letras. Inquieto, fundou e participou de vários grupos e atividades incentivadoras das artes.

Poderia ter se enredado definitivamente com algumas das bailarinas ou atrizes que conheceu, mas seu amor se apresentou na pessoa de Carolina, sua Carola, a mulher de sua vida. Quando ela partiu, a visitava em seu descanso todo o domingo – macabra rotina de quem deseja ficar mais perto de quem amou – a saber que ali reside apenas a intenção física-deteriorada de quem foi viva e apaixonada por você. Escreveu “À Carolina…

Querida! Ao pé do leito derradeiro
Em que descansa desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda humana lida,
fez nossa existência apetecida
e num recanto pôs o mundo inteiro…
Trago-te flores – restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;
que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos.”

Era para ela que verdadeiramente escrevia. Ela era o público que queria cativar e demonstrar que era merecedor da atenção que devotava ao feio mulato nascido no Morro do Livramento. Ela lhe mostrou o mundo novo da literatura vinda do Velho Mundo. Carola lhe conduziu os olhos para as minúcias do comportamento humano, revisou seus textos, orientou seu caminho. Ela o amou. Ela o tornou o nosso Machado de Assis. Sem a presença dela, para quem escrever, como em suas cartas a se autodenominar Machadinho?

Você, Bruxo do Cosme Velho, depois de tudo, percebeu que amar como amou era a autêntica dádiva que poderia alcançar em vida de reconhecido mestre das letras. Nada de receber como galardão batatas que apenas alimentam o corpo. O escritor que ganhou a vida ao viver dentro dos olhos de mar calmo de Carolina, morreu um pouco quando a luz deles se foi. Desabrigado igualmente de seu sorriso, foi-se deixando ir diante de seus pares e amigos próximos, que preferiam vê-lo morto a presenciá-lo morrer. Atendeu gentilmente o pedido e tornou-se eterno.

machadinho
Carola & Machadinho

Participam deste projeto:

Maria VitóriaMariana Gouveia | Lunna Guedes

Post Coletivo de Janeiro / Meu Livro Proibido Favorito

lua de papel
Luna visita a praia…

Quando foi sugerido o tema para a postagem coletiva no blogue – livro proibido – achei uma tremenda coincidência, pois estava preparando um texto para ser publicado na terça-feira, versando sobre um livro lido em segredo na adolescência. Nesse caso, vetado pela Ditadura. No dia 22, colocarei “O Livro” no ar, mas hoje tratarei de outro que eu mesmo me proibi de ler: “Lua de Papel”, de Lunna Guedes.

Eu queria manter distância do romance de minha editora-mentora por algum temor estranho. Apesar de lê-la em “Catarina…”, nas revistas trimestrais da Scenarium e em edições especiais do selo, ter contato com uma história tramada por ela com começo, meio e (mais ou menos) fim, era como me deparar com a minha incapacidade para tal empreitada. Convocado para a leitura de um trecho de “Lua de Papel II”, em seu lançamento, dei vexame e chorei quando o fiz. Isso me ajudou a querer manter distância. Este ano, ao contrário, estipulei o objetivo de ler Lunna em livro. Talvez, obtivesse mais respostas ou melhores perguntas a seu respeito. Em vão, tenho tentado apreender a escritora-ente-personagem pessoalmente.

Imaginei ter escolhido o lugar perfeito para isso – um espaço composto por areia, sol e mar – cenário que a Lunna já me disse não frequentar. Antes fosse uma praia deserta, mas Ocian Beach fervilhava de turistas com corpos, abertos à visitação pública de seus pudores, de todas as formas e cores possíveis, incluindo cinquenta tons de branco. E comportamentos indomáveis, que passavam longe da educação básica de convivência. Guerrilhas eram travadas em várias trincheiras compostas de guarda-sóis e cadeiras de praia – cada uma com equipamentos portáteis de som – a reproduzirem a batalha nas muralhas de Jericó, com horripilantes demonstrações sonoras de nossa decadência cultural.

Naquele ambiente humanamente inóspito, enquanto super-heróis trafegavam de um lado para o outro a vender guloseimas, decidi fazer a minha fortaleza, crendo na capacidade de me ausentar quando “caía” em um livro. Antes de “Lua de Papel”, teria em mãos as páginas de um amigo e colega de trabalho – Alex Ribeiro do Prado. Procrastinação necessária, já que havia prometido uma devolutiva a respeito de sua incrível história. Além do que, seria uma espécie de adaptação às condições de “minha sala de leitura”.

Intercalava a leitura de “Modigliani…” com mergulhos no mar de águas quentes e ariscas daqueles dias. Placas de “Perigo” advertiam sobre a possibilidade de afogamento. Salva-vidas na areia e na água, fiscalizavam os banhistas. Sou daqueles que compreendem a linguagem das águas do mar e suas variações de humor. Consigo me entregar e me adaptar aos seus movimentos de fluxo e refluxo. Ondeio com as ondas. Mergulho e flutuo, me deixo levar, com habilidade para pegar jacarés a me carregarem por dezenas de metros.

Todos brincavam. Homens, mulheres e crianças trocavam de corpos e consciências no jogo que a Natureza propunha diante de seu poder recriador. Pais passeavam com seus filhos no raso, incentivando passinhos até um pouco mais adiante, mostrando para os pequenos que podiam confiar em suas forças. Chegava a me lembrar que a complicada relação que tinha com meu pai apresentava uma trégua quando íamos para ali. Talvez o mar tivesse nele o mesmo efeito que em mim – sensação de naturalidade. O que me fazia recordar igualmente de meu outro projeto para o ano – escrever nossa história, agora que fisicamente ele partiu, há quase um ano. No entanto, antes disso, deveria chegar até a Lua…

Felizmente, no quarto dia, um domingo, a praia esvaziou o suficiente para que eu não precisasse batalhar para ficar atento à leitura da “Lua…”. Além do que, a obra se impôs desde o início. Logo, as personagens começaram a ganhar vida e a preencher meus olhos com a paisagem de Teodoro, cidade onde se desenrolava inicialmente a trama de Alexandra, Maria, Delegado, o Padre, Duca e seu mar particular… O menino de periferia se identificou com as angústias de uma escritora que poderia ser eu.

Lunna, além de presente em suas linhas, se apresentou via mensagem quase ao mesmo tempo que eu acabava de ler a primeira parte. Confessei minha emoção ao terminá-la, ao que ela contrapôs que hoje faria diferente e melhor. Aliás, como qualquer escritor deseja ao reler seu trabalho. Objetei que a graça da escrita igualmente residia naquela suposta “precariedade” da obra. A sensação de pertencimento me remeteu às palavras de Tatiana Kielberman ao apresentar “Lua…”: “… há aquelas histórias que, ao primeiro contato, sabemos como nossas.”

A chegada de Raissa e seus cabelos coloridos causaram tanto efeito em Alexandra bem como em todos a sua volta, incluindo a mim, que já participava do enredo. A cada sessão, fazia uma viagem no tempo e passeava pelo início dos Anos 2000 (época que imaginei ou escolhi), carregando como se fossem minhas as vivências de cada uma daquelas pessoas. Isabella, Carol, Mariana começaram a projetar suas sombras existenciais baixo ao sol deste janeiro de início de 2019. Por fim, Rodrigo e Ernest – tipos antípodas e complementares – se apresentaram para instaurar contrapontos surpreendentes na história de Alexandra e Raissa, que ouso dizer se tratarem da mesma pessoa. Mais um pouco, chegava a ver as personagens a caminharem pelas areias de Ocian Beach.

Como aconteceu após conhecer a antiga professora de Alexandra e sua “prima”, solteironas atéias que viviam juntas em Teodoro. Em um dos meus encontros com as ondas, observei duas senhoras que se afastaram um tanto para mais longe. Ao se sentirem seguras, sorriram, se abraçaram e se beijaram ao sabor do movimento das águas. Fiquei enternecido e imediatamente convencido que “Lua de Papel”, o livro que havia me proibido de ler até então, poderia representar a inauguração de um tempo de grandes possibilidades e materialização de sonhos – ou escolhi que assim fosse.

Participam deste post coletivo:

Ale Helga | Ana Claudia | Fernanda Akemi Gustavo Barberá
Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes | Roseli Pedroso

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