Projeto Fotográfico 6 On 6 / Escrito Por Uma Dama

Eu participo da Scenarium Livros Artesanais como escritor desde 2015. Chamado por Lunna Guedes, comecei a integrar o selo com crônicas, prosas e poemas através dos lançamentos de coletâneas e de edições da Revista Plural, atualmente substituída pela série Scenarium 8, de Março a Junho, de Agosto a Novembro. A minha aparição com uma obra individual ocorreu em 2015, com REALidade, livro de crônicas. Depois escrevi Rua 2, de contos curtos; Confissões, de viés confessional, assim como Curso de Rio, Caminho do Mar, além de Senzala, um conto longo. Mas não estou aqui para falar de mim, chamado de “bendito fruto”, por Lunna por ser praticamente o único escritor de gênero masculino presente nos lançamentos do selo. Mas esta postagem gira em torno das damas, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, no dia 8 de Março.

Para não ser injusto e individualizar seis títulos específicos para mostrar aqui dentre os vários e belos lançamentos escritos por mulheres durante todos os anos do qual participo da Scenarium, decidi mostrar registros do conjunto de quase todas as obras das escritoras que encontraram guarida no selo.

Participam não por serem mulheres, apesar de ser uma ação afirmativa necessária num mercado em que os homens dominam por serem, justamente, homens. Lunna Guedes prima pela qualidade dos textos e dos temas importantes que envolvem questões humanas, independentemente de identidades de gênero diferentes.

Há títulos que me impactaram mais, autoras que atravessaram o meu entendimento como tanques, derrubando as minhas defesas, assim como escritoras como Lygia, Clarice, Cecília, Raquel, Hilda, para ficar entre as brasileiras. Dar vez e voz às mulheres é um acerto do selo. Mesmo porque percebo que a qualidade de seus textos, cada mais instigantes, me impulsionam a tentar escrever melhor.

Ano a ano, Lunna garimpa através de seus cursos e como observadora da cena literária novos nomes para comporem com as suas obras um mosaico cada vez mais diverso e rico de produtores de textos que ampliam significativamente a qualidade do quadro da Scenarium.

Uma característica importante e basilar dos lançamentos do selo é a sua confecção artesanal, com papel de qualidade, costurados à mão, um a um, visual apurado, em edições limitadas. Caso haja interesse de novos exemplares, são solicitadas edições extras, sob demanda. Isso garante que não sejam publicados livros que fiquem encalhados, como é comum acontecer com os lançamentos editoriais comuns.

Encontrar a Scenarium pelo caminho foi algo que me colocou diante de meu sonho de menino — escrever textos que fossem publicados e lidos por quem tivesse interesse. Esse movimento não me fez escritor. Como já aludi antes em outras ocasiões, assumir que a minha identidade preferencial como um escritor, demonstra a minha identificação com a arte literária, na busca de minha melhor possibilidade de ser, dentro das minhas limitações, o melhor escritor. Participar de um selo eminentemente feminino, me deixa orgulhoso.

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Silvana / Cláudia Leonardi

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Viagem Literária

O tema proposto para este 6 On 6 me deixou um tanto desconcertado. “Viagem Literária” era mais ou menos a sensação que eu tinha antes de empreender viver a vida literal. Eu era um sujeito fora do mundo “real”, em que cada dia surgia como um capítulo de um livro escrito página por página a cada hora. Viver, de certa maneira, era bastante penoso porque as personagens envolvidas se expressavam de maneira irregular em enredos aparentemente sem sentido, ainda que eu acreditasse que nada fosse por acaso.

O meu “texto” inventava uma realidade que não batia com a dinâmica humana. Aceitar que a maioria das circunstâncias apresentavam razões impenetráveis para um autor que tentava escrever sua própria história só se resolveu quando abandonei a escrita e comecei a trajetória de homem casado, com filhas para criar. Ganhei uma apresentação de capa que me habilitou a ser considerado “normal”. Durante alguns anos, vivi a “vida louca” de um cidadão comum. até que as redes sociais me possibilitaram voltar a expressar minha visão de mundo sem compromisso, de uma forma menos formal.

A minha viagem literária passa pelos textos que apresentei ao longo anos, porque ainda que tentasse escapar da formalidade, o escritor voltou a ganhar peso e que em 2015 acabou por ingressar num projeto — da Scenarium Livros Artesanais — que desde então me estimula a assumir o compromisso de me tornar o melhor escritor que eu possa ser.

Neste dia Dia de Reis de 2021, recebi de presente, em papel transparente, uma “sensação de estranhamento feliz”. À primeira vista, esta fruta que encontrei no jardim, parecia um pequeno abacate. O abacateiro que tínhamos se foi há algum tempo. Após lavá-la, ao posicioná-la para a foto, quase a confundi com uma pera. Ao toque, devido a lisura de sua casca, ficou evidente tratar-se de um maracujá mesmo já que, além das mangas (no final da safra), jabuticabas e goiabas, só temos mesmo um maracujazeiro em plena produção. A sua forma inusitada, causou aquela sensação nomeada acima. Um pequeno bálsamo em relação à antípoda “sensação de estranhamento infeliz”, tão em voga em 2020. Feliz Dia de Reis!

Imagem de 6 de Janeiro de 2016

Discos que não serão mais tocados
Céus que não serão mais riscados
Por pipas, aviões, ovnis, seres alados
Amores que não serão mais amados
Por você, por mim, por nós, passados
Todos, pela moenda dos sonhos dourados…
O Tempo!

Este ano esta mesma imagem ocorreu igualmente, mas esta é de 2013…

Da janela do meu quarto, se alcança as frutas. Este ano, houve uma superprodução de mangas, o que as minhas cachorras muito agradece! Quase sempre vejo um cão chupando manga e eu acho lindo! Durante todo o dia, se ouve o som do baque das filhas que abandonam as pencas mais amaduradas e elas se aproveitam, incontinentes. Nós, os humanos, a aproveitamos in natura, em suco e até para fazer sorvete. Estas aqui ainda estão verdes, mas por pouco tempo…

Meu quarto livro lançado pela Scenarium… em maio de 2021

No início de 2021, estava sentindo as consequências de me abrir para o mundo. Tudo me atingia. A situação do País em meio a uma Pandemia, envolto pelas sombras de um Reacionarismo que se autointitulou de Conservadorismo, como se devêssemos conservar todas as mazelas não de um passado recente, mas do Colonialismo — poder aos brancos, homofobia, misoginia, massacre dos originais da terra, exploração predatória de um país em que se plantando tudo dá. Pindorama sendo novamente devassada por usurpadores que acreditam que não existe lei ou pecado abaixo da Linha do Equador. Curso De Rio, Caminho Do Mar desaguou em páginas da Scenarium Livros Artesanais e me salvou de afogar em tanta angústia. Nele, tento manter a cabeça fora d’água, mas não deixei de mergulhar em águas profundas.

Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”. Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”. Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros ArtesanaisREALidade — por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no Home Office. É meio difícil explicar a forte personalidade dessa “pessoa”…

Este poema eu escrevi para uma apresentação no lançamento das publicações da Scenarium Plural – Livros Artesanais, em agosto de 2016, ao qual infelizmente não pude comparecer. Trata sobre um tipo que se sente depreciado e que se auto denomina “O Segundo”. Estranhamente, a linha final parece atual e premonitória (da época do golpe do Congresso Nacional sobre a Dilma e a assunção do vice, Temer), se bem que o entendimento possa tanto ser utilizado em relação ao personagem quanto à contagem do tempo.

O SEGUNDO

Ser protagonista não é o meu papel.
Sou o escada no número de humor.
Sou o segundo do lutador.
Sou o amigo tímido do namorado.
Era reserva do goleiro no time de futebol.
A opção confiável, mas nunca escolhida.
Ficava com as sobras da comida.
Eu me tornei o primogênito,
porque o meu irmão mais velho morreu…
Casei porque a minha mulher foi deixada
e eu estava lá para a consolar…
Na cama, os gemidos dela nunca foram para mim…
Certa vez, o nome do outro foi murmurado…
Sigo sendo servidor de segundos…
Outros segundos tempos…
O meu consolo é saber que a História
dos tempos
é contada por segundos…

Participam: Mariana Gouveia / Silvana Lopes / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi

Confissões*

Senhor, confesso que pequei… e continuo a pecar. Registrei uma parte em livro.

Eu nem me lembro se já fiz um diário. Talvez eu tenha feito. Mas para ter certeza, teria que revirar os meus papéis antigos, guardados em alguma caixa de papelão jogada em algum canto da casa.

Onde devem estar reservados vários livros antigos, degredados da biblioteca oficial, estabelecida em uma das salas. Devido ao estado um tanto precário de alguns — encardidos, com páginas rasgadas, comidas por cupins ou traças — vivem escondidos dos olhos de quem julga um livro pela capa.

Tenho alguns defeitos e vou enumerá-los aos poucos. Um deles é ter apego a esses velhos companheiros. Fui catador de papéis e outros materiais descartáveis quando moço, junto com o meu pai, aos sábados e domingos. Utilizávamos a Gertrudes, a nossa Kombi, para carregar o que conseguíamos. Vários desses livros são dessa época. Foram jogados fora, alguns reconhecidos clássicos da Literatura. Outros, recolhi do lixo do colégio no qual fiz o Segundo Grau, expulsos da antiga biblioteca, então demolida. Muitos, doados por ex-estudantes ou colaboradores que têm os seus nomes neles registrados.

Se há rastro de algum diário, estará entre esses papéis… inúteis para tantos.

*Lançado em 2019, pela @Scenarium Livros Artesanais.

#TBT Do #TBT

No Dia das Bruxas e da Poesia (em homenagem ao nascimento de Drummond) de 2011, fiz uma pequena postagem que achei pertinente. Desde então, sinto que não mudou muito o meu estado mental.

À época, há exatos doze anos, fazia o 5°. Semestre do curso de Educação Física na UNIP-Marquês. Escrevia algumas crônicas postadas no Facebook, mas por respeitar muito a função da escrita, apesar de meu espírito de escritor, eu não me assumia como tal.

“Gosto de pensar enquanto ando. Hoje, pensei bastante… Coisas do coração… Ainda bem que temos a cabeça para tal mister! Como já disse Pessoa, ‘se o coração pensasse, pararia’.”

Em 2015, ao ser chamado por Lunna Guedes para compor o time da Scenarium, “saí do armário” para me anunciar como escritor. O que significa transformar em palavras a vida que acontece. Registros que podem cair no ostracismo por falta de qualidade ou por exigir o esforço da leitura e da interpretação. O que é uma construção mental. Em tempos em que a distração é o objetivo, focar seus olhos e pensamentos em desenvolver uma interação, vai contra a modernidade de simplesmente ver a vida acontecer, sem se envolver. Levamos a arte do voyeurismo à quintessência. E dá-lhe fórmulas prontas e imagens manipuladas para nos dirigir a atenção…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Polaroides

Em 1944, de férias com a sua família, a filha de Edwin H. Land lhe perguntou porque não podia ver imediatamente as fotografias que o pai tirava. Edwin conta que nesse mesmo dia idealizou a mecânica da câmara de impressão instantânea. Três anos depois, veio a público uma tecnologia que transformou um processo que demorava horas, que exigia um estúdio próprio e acesso a químicos de revelação fotográfica, para algo que demorava apenas alguns minutos. Chegou ao mercado em 1948 com o nome Polaroid Land Model 95, que funcionava usando dois rolos separados para o negativo e o positivo, os quais permitiam que a imagem fosse revelada dentro da câmera.

Ainda tenho uma câmera Polaroid guardada em algum canto. As minhas filhas têm uma câmera similar e gostam de brincar de tirar e revelar fotos instantâneas. Mas com o tempo a chegada dos smartphones rapidamente mudou a dinâmica da produção de imagens reveladas quase imediatamente através das redes sociais, de tal modo que a maioria das pessoas sequer pensam em algo diferente. Como não tenho polaroides à mão, compareço aqui com similares para rememorar o último semestre deste ano insano.

Em Agosto, fui informado pelo Facebook que havia ficado noivo da Tânia há 35 anos. Não houve exatamente um pedido de noivado, mas (in)formalmente, essa foi a data em que começamos a namorar. Foi tudo muito rápido. Em Maio do ano seguinte, ao décimo terceiro dia, nos casamos, com o testemunho da Romy, há cinco meses no ventre da mãe. O resto é História.

Em Setembro, estreamos a Primavera mais quente que a Humanidade já presenciou, segundo informes climáticos mensurados por institutos do mundo todo. Entre os negacionistas de plantão, não é algo para se preocupar. Alugados pelos donos do jogo, há quem queira negar que estamos à beira do colapso. Gaia está simplesmente reagindo às ameaças de sobrevivência de todas as espécies vivente neste planeta. Não duvido que se o Homem for um empecilho, a Natureza o colocará em seu devido lugar. Sinais não faltam. Enquanto isso, as orquídeas aqui em casa, se sentindo protegidas, continuam a florescer na Estação das Flores.

Parece incrível, mas apenas há um pouco mais de um ano, em Outubro, surgia Alexandre em nossa vida. O rapazinho todo desmilinguido, desnutrido, mais ossos do que carne, um tanto cego pelos olhos anuviados, de tímido que se apresentou, foi se empertigando. Pudemos perceber que se tratava de um exemplar variante de Pinscher, com todas as características que apresentam — corajosos, leais, cheios de energia, curiosos, divertidos — e guardiões, o que deixa a Lívia, que trabalha parte da semana em Home Office, muitas vezes com gana de lhe dar uns tapinhas na bunda seca. Os seus latidos, para quem passa no portão vazado, interfere frequentemente em suas reuniões. Coloca o pessoal com quem fala no modo mudo e grita para o bichinho impertinente: Aleeexaaandreee!

Bem, Novembro foi cheio de aventuras. Mais um fato recorrente marcou o meu mês. A Tigresa nos deixou na mão na subida da Serra do Mar, na volta de nossa casa da praia. E a Tímida, à caminho de Ibiúna, onde faríamos um evento pela Ortega Luz & Som. O que essa torre de caixa d’água teria a ver? Bem ela marca o ponto onde esperamos o caminhão guincho que nos levaria para o local onde conseguimos chegar à tempo para a montagem e a realização da sonorização e a iluminação da banda para festa de temática italiana. Enquanto esperávamos o transporte, fiz algumas imagens para relaxar. Afinal, temos sempre que tentar ver o outro lado da moeda.

Nesta foto, encontramos, além de mim, Marco Antônio Guedes, Lunna Guedes — mentores da Scenarium — e Flávia Côrtes, que veio à São Paulo direto de Salvador, Bahia, para o lançamento do lindo livro de poemas, Correntezas. Dias após, nos encontrarmos no SESC Paulista e posteiormente fomos ao Café da Livraria Cultura, cercado por livros, como gostamos, onde fiz este registro. A baiana mostrou ao vivo a sua verve, animação, lirismo e alegria de viver que podíamos perceber apenas através do virtual. Uma agradável surpresa de Dezembro e do real!

Participa: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia