O prato acima está cheio. Não, não estou falando de comida, mas de memórias. O que também pode ser um rico alimento para a alma. Até o outro dia era um prato simplesmente, igual a outros que temos por aqui, até a Tânia me dizer que a minha mãe deu a ela porque era o meu favorito. Talvez fosse em relação a outros, mas não me lembro de preferi-lo como tal. Mas a minha mãe me conhecia melhor do que eu, não duvido que o utilizasse mais frequentemente. De qualquer forma, passei a utilizá-lo mais vezes desde então. É como se tentasse reaver as lembranças que o preenchia de antigos sabores. Reparei apenas que o arroz e feijão ficou mais apetitoso. A mente é realmente um grande ingrediente em qualquer prato…
Categoria: Serial Ser
1º / 06 / 2025 / Atrás Da Igreja*
Sábado, dia 12 de março de 2016. Passo às 6h50 da manhã por trás da igreja. No interior, ouvi dizer que atrás da igreja acontecia coisas bastante interessantes. Nesta manhã, o centro da cidade parecia tranquilo. Nada de muito instigante sucedia. Os ônibus faziam os seus itinerários. Uma pombinha dormia no alto do poste de luz; um senhor caminhava desde a banca de jornais; um carroceiro e catador de recicláveis, que é a sua própria mula, cumpria a sua faina diária… Além do horário, o relógio de rua anunciava a exposição “Aprendendo Com Dorival Caymmi — Civilização Praieira“, no Instituto Tomie Ohtake. Nasci no planalto, mas a minha alma é praieira. Vou tentar vê-la…
31 / 05 / 2025 / Vandos*
Saio debaixo de chuva para cumprir compromissos inadiáveis. Desço a rua, transformada em depositária de pequenos riachos surgidos por obstáculos e irregularidades do asfalto. Chego ao lugar onde deveria estar o poste do ponto de ônibus, que se encontra “despontado”. Pergunto a um sujeito que se protege debaixo da marquise de uma loja se ali seria a parada de ônibus. Ele responde que sim. Indica o poste caído junto ao meio-fio e com certo ar de desdém, completa: “‘Foi os ‘vandos’…”. Imediatamente, começo a sentir saudade do tempo em que os Vandos apenas cantavam: “Você é luz…”.
*Texto de 2017. Na representação acima, uma uma possível imagem dos Vândalos, um dos povos bárbaros de origem germânica, invasores do Império Romano. Nesse sentido, “vândalo” passou a designar truculência e, vandalismo, é um termo usado até hoje para nomear depredação ou destruição de qualquer ordem.




