BEDA / Transições*

No texto abaixo, eu aproveito para fazer observações sobre o tempo climático e o tempo que vivíamos, política e socialmente. Eu sempre pautei pelos temas sociais à Esquerda. Porém, comecei a perceber que a manipulação de alguns setores dessa visão política agia como se tivessem total domínio sobre a situação. Enquanto isso, fervia no subterrâneo o fel das alas que pautavam por posicionamentos que não ousavam professar em público, mas mantinham intimamente em seus circuitos fechados a corrente elétrica do revanchismo fascista. A pregação separatista entre “nós’ e “eles”, pensada para eleger candidatos serviu para aquele tempo. Mas criou uma onda que emergiria como contragolpe que atacando os posicionamentos e às pessoas da Esquerda, terminando por desestruturar o País todo. As várias gradações de posturas à Direita costumam estar unidas para chegarem onde querem para depois dividirem o botim. A Esquerda costuma se perder em discussões menores e se dispersarem na obtenção de suas pautas. O panorama que traço na arguição abaixo mostra alguém que marcou ponto a ponto situações que são espelhos do que se desenrolou nos últimos quatro anos, mas com muito maior gravidade, inclusive namorando a extinção da Democracia e consequente instituição de uma Ditadura. O que também nunca deixou de pontuar o horizonte dos radicais do outro lado do espectro.

“O carro que estávamos, eu e meu irmão, quebrou no meio da chuva de hoje, quando nos dirigíamos ao trabalho. Montaríamos o equipamento para sonorização de um show do e tivemos que lançar mão de outro transporte. Graças aos deuses, tudo deu certo e chegamos com tempo bastante para que tudo estivesse pronto, no horário marcado. Enquanto esperava, preso no carro quebrado, vi o meu povo à espera do seu transporte para casa, estacado pacientemente debaixo das coberturas das vias preferenciais. Eu, quando não estou trabalhando, ando de ônibus. Não dirijo. Sou um pedestre e um passageiro.

Comecei a pensar… Os oportunistas de plantão hão de toda a sorte, em todos os lugares. Mas dependendo de quem esteja no Poder, eles são municipais, estaduais ou federais. Comecei a fazer algumas perguntas para a água que descia, inclemente, do céu: A quem interessa a depredação de meios de transporte, por exemplo? Qual trabalhador, em sã consciência, sabendo que utilizará aquele veículo no dia seguinte, destrói composições de trens, queima ônibus? A quem interessa fechar estradas e vias públicas, reivindicando casas que, quando conseguidas, são vendidas a preço de banana, já que aquela é a ‘profissão’ daquele pobre desgraçado?

Se os governos, em suas várias esferas, atendessem a todas as demandas, qual seria a função dessas organizações sem supostos fins lucrativos ou políticos que tomam à frente do povo oprimido? A quem interessa a deseducação de nossos filhos, à falência das Instituições, ao solapamento da Cultura, ao desenvolvimento de projetos tão ousados quanto o apoio a invasão dos centros de compras como se fosse a revolta dos oprimidos, mas com cara de contravenção? Logo, o outro carro chegou. Transladamos o equipamento para ele e partimos para o nosso destino. A chuva lavou a cidade, mas a sujeira é grossa demais!…”.

*Texto de 2014

Participam: Dose de Poesia / Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Alê Helga / Claudia Leonardi Lucas Armelim 

BEDA / Vila Madalena

Citei sobre “Vila Madalena”, um conto em capítulos, para uma interlocutora. Ela perguntou sobre a idade de uma das personagens, uma cantora. Respondi que seria em torno dos 40, 43 anos. Depois, percebi que errara a idade, já que deslocaria para dez anos após a linha temporal plausível – dentro das circunstâncias em que a estava colocando – bem como aos outros atores da ação.

Na verdade, essa empreitada começou de modo “errado” como costuma acontecer comigo na maioria das vezes. A personagem principal, a que descreve o desenvolvimento da história, já tinha em mente – um sujeito em torno dos 50 anos, cronista que veicula seus textos em jornais e revistas. O mote giraria em torno de algumas questões que gostaria de desenvolver. Eventualmente, descaminhos surgiram na sequência do texto que seria único. Após terminá-lo, não coloquei o queria e percebi que aquela entrada poderia ter sequências e consequências.

Acabou que passei a conjecturar escrever de modo que essas partes pareciam capítulos. Quer dizer, em determinado momento, tudo começou a “desandar”. Aos poucos, foram pousando personagens que sequer havia imaginado – Carlos, Ella, Matheus, Fábia, Célia, Dani, Marinho (que ainda não estreou) – bem como Raul (já citado), que terá a sua chance aparecer.

Esse método de escrita, em que sequer monto um quadro em que as personagens apresentam determinadas características e que eu trabalharia para colocá-las em “confronto” não é o habitual. Infelizmente, talvez porque possa ter perdido várias chances de extrair melhores histórias desses encontros e desencontros.

A depender da necessidade de trabalhar melhor o cronograma dos acontecimentos em “Vila Madalena” poderei vir a adotá-lo daqui por diante. E enquadrá-las. Ou não. Gosto da ideia, totalmente baseada em nenhuma hipótese confiável, que essas “pessoas” se apresentam a mim vindas do Limbo. E dar-lhes vida e fala é a minha precária missão.

Participam: Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Suzana Martins / Lucas Armelim / Alê Helga / Claudia Leonardi / Dose de Poesia

BEDA / O Mineiro*

O mineiro é o brasileiro típico, segundo eu penso. Longe das influências vindas pelo mar, construiu uma personalidade montanhesa — íngreme como os picos, profunda como os vales que compõe o relevo das Minas Gerais. Tem, com certeza, a melhor e a mais variada cozinha do Brasil e as mulheres mais graciosas, na minha opinião. O falar é suave, quase um canto. Como é um povo desconfiado, tem que se enveredar por sua alma para compreendê-lo. A tradução melhor de sua grandeza se dá através de um dos meus escritores favoritos: Guimarães Rosa

Imagem: Mariana / MG

*Postagem de 2012 (Facebook)

P.S.: Originalmente, mantive a antiga apresentação neste texto. O que coloquei depois é que o mineiro apresenta as características típicas do brasileiro do interior. Mas que também não deixa de ser um aspecto diferente da realidade. A multiplicidade de personalidades dos cidadãos brasileiros, devido ao tamanho do País e aos perfis culturais variados, garantem que o jeito carioca de ser é apenas “para inglês ver”.

Participam: Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Mariana Gouveia Suzana Martins / Alê Helga / Claudia Leonardi Lucas Armelim / Dose de Poesia / Danielle SV

Vila Madalena / A Dani

O apartamento do casal ficava no limite aceitável pela Lei de Zoneamento para a construção de edifícios um pouco mais elevados. Do quinto andar, podia-se ver o casario ainda preservado de residências em boa parte da Vila Madalena. Célia vinha de família abastada, fazia curso de Direito na PUC e se encantou com a Fábia assim que a conheceu, quando acompanhadas das amigas, a viu cantar. Foi paixão à primeira vista. Entendi perfeitamente. Passaram a dividir o apartamento meses depois, há três anos.

Ficamos conversando por duas horas na sala do apartamento, enquanto ambas fumavam maconha e saboreávamos um bom vinho tinto. Relaxei bastante, principalmente porque, sendo pescador de temas e perfis, fui conduzido para as histórias que a jovem, uns dez anos mais nova que a Fábia, se dispunha a compartilhar, como se quisesse minha aprovação. Quando achei que não aconteceria mais nada, Célia disse que subiria ao apartamento da Dani, a Sacerdotisa e nos deixaria sozinhos. Ao perceber a minha expressão que eu adivinhei ser um tanto aparvalhada, riram, as duas.

Dada a minha natureza verborrágica, pensei em dizer qualquer coisa, mas fui calado com um beijo. Regredi décadas ao momento em que comecei minha caminhada pelo desejo e pelo prazer. Como um homem ridículo, quis assumir o controle do que acontecia, até me entregar aos descaminhos de outro ser desejante. Antropologia e Psicanálise à parte, eu me senti um ser poderoso ao ser conduzido por Fábia a um prazer indizível que misturava carne e alma. Senti que a voz, o canto, a arte que produzia era alicerçada em pilares para além do dom e do talento. Havia algo que a alimentava o espírito, transformado em corpo sensível e ampliado para além do encontro de genitálias. Eu me sentia como se fosse um iniciado em uma cerimônia de ritos tão antigos quanto a humanidade. O macho que foi programado a centrar a ato sexual no falo sentiu expandir o prazer para além da pele. Por um momento, congreguei com as forças da Natureza.

Uma hora depois, suado como que lavado de substâncias alucinógenas, foi difícil sair do estado do transe. O que fiz aos poucos. Como que abrindo os olhos pela primeira vez naquele lugar, perguntei (ou imaginei perguntar):

— O que aconteceu aqui?

— Eu também o estou amando…

Eu, que sempre relutei em dizer que amava alguém, até encontrar Ella, percebi que havia ultrapassado o tempo imediato e migrei para o tempo da minha alma. Sabia que a sensação de eternidade repercutiria aquele momento por minha existência afora. E o que acontecera comigo e a minha ex-parceira fora apenas um tipo de introdução à verdadeira consumação da paixão.

Pedi à Fábia que me indicasse a porta do banheiro, para me banhar. Ela me conduziu até ele e disse que gostaria de me observar ao me passar a toalha. Um tanto desajeitado, entrei no box não muito espaçoso. Eu estava ainda enlevado e ousei perguntar se Fábia não queria também se banhar comigo. Ela sorriu, entrou e me abraçou sob a água morna. Não sabia que hora da madrugada seria aquela, mas como a medição temporal passou a não importar, ficamos demorada e intimamente massageando os nossos corpos com água e sabonete com cheiro de erva doce. Um pouco de luz ultrapassava levemente as cortinas brancas quando terminamos e permanecêssemos nus sob uma coberta leve no amplo sofá. Abraçados, adormecemos.

Por volta das 9h da manhã, fomos acordados por Célia. Estava com sacolas de supermercado, trazendo frutas, pães, geleias, manteiga e requeijão. Ela beijou a namorada na boca e anunciou que trouxera o café da manhã. Além do sorriso encantador, estava acompanhada por outra mulher, mais ou menos da idade de Fábia. Era a Dani, segundo se anunciou. Descoberto, estava nu e surpreendentemente, priápico. Quando as moças perceberam, riram gostosamente.

— “Benza”, Deus, como dizia a minha avó! – exclamou Dani, brincalhona.

— Desculpa, gente! Faz tempo que isso não acontece isso comigo… – mal reparando onde e com quem estava.

— Aceito o elogio! – disse rindo, Fábia.

Como parecia um menino pego numa traquinagem, tentei colocar a cueca rapidamente. Percebi que a pus ao contrário e ri, no que fui acompanhado pela assistência.

— Vá com calma, meu bem! Tira a cueca e põe direito… – disse Fábia, completando:

— Guarda direito o que é nosso!

E ria, acompanhada das amigas. Relaxei, a retirei com calma, com o instrumento ainda em riste. Parecia que havia tomado a pílula azul, como na única vez que o fiz para apenas me masturbar. Com Fábia, segui a minha intuição e paixão. Não queria que fosse de outra forma, ainda que não esperasse tamanha profundidade de estímulos, emoções e sentimentos.

No café da manhã, mais descontraído, perguntei para Dani sobre o apelido de Sacerdotisa.  Ao que respondeu que não era apenas um apelido, mas um título, se é que poderia se chamar assim. Ela havia estudado na Inglaterra e no México. Viajara para o Egito e os Estados Unidos, tendo contato com todas as filosofias e práticas ligadas ao que poderia se chamar de Esoterismo, mas que os versados sabiam se tratar da verdadeira maneira de entender a Realidade.

O que as religiões ditas oficiais fizeram ao longo do tempo foi condenar e atacar às práticas sacerdotais antigas, as tornando marginais. Seus membros foram perseguidos e mortos. A sociedade capitalista incorporou e adequou essas religiões a um padrão mercantil que acabou por obliterar os ensinamentos ligados à espiritualidade, apesar de sempre sublinhar que fosse seu cerne. Os vendilhões dos Templos haviam vencido.

— Por outro lado, vivendo neste estado de coisas, em que o tempo acaba por se tornar a moeda mais valiosa que existe, ao dispor dele para sobreviver, eu o conduzo de uma maneira que possa utilizá-lo para ajudar a quem quiser os meus préstimos. É uma contradição em si, mas com a qual tenho que me conformar. Originalmente, me formei em Engenharia. Isso porque eu queria reconstruir o mundo, feito uma deusa redentora… – completou Dani, sorrindo com um canto da boca. Continuou:

Eu também me apaixonei por Fábia. Se estamos aqui, reunidos nesta pequena mesa, é por causa dessa deusa nua – nosso centro vibracional.

Voltei os olhos para ela. Fábia estava apenas de calcinha. Eu, mesmo, vestia apenas o meu “samba canção”. Não pude deixar de lembrar Caetano e cantar baixinho:

“Leitos perfeitos
Seus peitos direitos
Me olham assim
Fino menino, me inclino
Pro lado do sim…”.

Apenas então me dera conta que eu estava numa canção do imenso baiano: “Rapte-me, Camaleoa”.

Fábia, Célia e Dani se entreolharam, aparentando mútuo contentamento. Depois de um momento de silêncio, Dani revelou:

— Quando conheci Fábia, essa foi a primeira música que a ouvi cantar. Eu a chamei, desde então, de Camaleoa

Confissões Em Rede

As redes sociais se tornaram invasivas, muito por aceitação pessoal. Aliás, por uma espécie de adesão de bom grado, passamos a despejar sobre os nossos incautos “amigos” de rede, passagens íntimas que antes talvez não revelássemos a nós mesmos. Em 2014, quando escrevi o texto abaixo, mal sabia sobre tantas coisas que vim a descobrir sobre mim. Lendo e me informando, vim a descobrir e aceitar o fato de ter sido, desde pequeno, uma pessoa ansiosa. Dormindo, fiz xixi na cama até os sete anos de idade, mais ou menos, uma característica que não era (no meu caso) de ordem fisiológica, mas psicológica. Quando robusteci a minha personalidade um tantinho decidi, e consegui, parar de urinar no colchão sempre protegido por uma cobertura de plástico.

“Bom dia!

Para quem possa ter percebido a minha ausência por estas paragens virtuais, estou de volta ao Facebook, após duas semanas. Peço desculpas a quem possa ter se ressentido por esta minha atitude intempestiva, que tomei em uma manhã que me sentia muito mal. Não sou afeito a confissões públicas de dor ou prazer, mas tento não recriminar quem o faz, mesmo porque sei que quando algo aperta o coração, quando não temos algum interlocutor por perto, tendemos a jogar no ar aquilo que nos afeta. Pode parecer uma atitude incorreta, mas reprimir o que nos oprime pode acarretar resultados perniciosos. Por experiência própria, sei muito bem que quando não liberamos de algum modo o que sentimos, em algum momento as consequências sobrevirão. Por experiência, no meu caso, somatizo.

Por muitos anos, o meu corpo recebeu saraivadas de impressões gravadas a ferro e fogo, normalmente, internamente, com resultados que acabaram exteriorizados. As mídias sociais têm servido de plataformas para expressões pessoais irreprimíveis, que precisam ser ditas, caso o contrário, podem matar o seu interlocutor. Se não imediatamente, aos poucos… Antes, eu implicava com esses tipos de “confissões” para a plateia, no entanto, tenho por princípio não me colocar como juiz de nada, se bem que mantenha opiniões (ou preconceitos) privados em relação a quase tudo. Agora, me permito não apenas não condenar, como até simpatizar com a quem faz, pelo desprendimento ou coragem em fazê-lo, seja lá o que for e da forma que for. (Observação: na época, não havia percebido que muitos desses relatos tinham por objetivo angariar seguidores).

Então, meus ‘amigos’ (alguns, mesmo distantes, o são, realmente!), desejo, mais uma vez, que seja um belo dia! Advirto que um dia pode parecer excepcionalmente bom até que, no último minuto, talvez possa se revelar ruim, por alguma informação nova que recebamos por algo que tenha sucedido durante o seu trajeto e não sabíamos. E isso é que faz a vida ser tão dramática, no sentido teatral, mesmo. Tal qual um jogo de futebol que só se define após o apito do juiz, que em nosso caso, deveria ocorrer quando o sono advém, mas isso também não é o fim… ao contrário”.