Tarde, quase noite,
saí para pescar no mar vermelho
do céu…
Por entre retas paredes de corais
e rochedos de formas estranhas,
balançava a vegetação
ao sabor do vento acidental…
Por fim,
quando já alcançava
o seu refúgio final,
consegui capturar,
através do olhar,
a estrela do mar continental…
23 / 09 /2025 / Escravocratas Modernos
Pindorama foi invadida por portugueses em 1500 AD. Encontrou povos que andavam nus e disso não davam conta porque era assim que as suas culturas se expressavam. Na terra “onde se plantando tudo dá”, segundo Pero Vaz de Caminha, o mesmo que aproveita da carta enviada ao Rei de Portugal para versar sobre o novo território, pede um emprego para o irmão. E assim, o registro do encontro, alcunhado de “descoberta” inaugura igualmente o compadrio que marca o nosso comportamento institucional até hoje.
Como o nosso litoral estava apinhado de uma árvore que tinha o caule em brasa, os moradores que aqui se instalaram, foram chamados pela profissão dos que extraiam a madeira — brasileiros. Ou seja, a nossa nacionalidade está vinculada à uma função e parece que desde então, valemos por nossa capacidade de gerar lucro. Assim como a tinta gerada pelo pau-brasil, de cor avermelhada, muito apreciada pela a nobreza e pelo clero. Para que essa produção lucrasse mais, decidiram escravizar os gentios da terra. Continuou quando houve a incrementação dos engenhos de cana-de-açúcar, que criou uma classe abastada o suficiente para incentivar a Metrópole Colonial a criar as Capitanias Hereditárias, quase como instituir uma espécie de semi-reinos autônomos de certos pressupostos.
O problema para os Senhores de Engenho e governadores das Capitanias era que os originários de Pindorama morriam como moscas. Não estavam acostumados a usarem a força física de maneira a produzir qualquer coisa, a não ser objetos de uso imediato como adereços e peças como potes, cumbucas, redes, lanças, arcos e flechas. Dessa forma, houve a ideia de trazer homens africanos, escravizados, que tinham uma capacidade física bem mais desenvolvida, além de mais adaptados ao trabalho pesado. Como “compensação” desse novo empreendimento, os lucros gerados pelo aprisionamento, transporte e venda de escravizados gerou um negócio incrivelmente lucrativo. Assim como hoje, apesar de proibido. Ao lado da venda de armas e de tóxicos.
Mas há quem proponha que o escravismo exista de maneira aberta e institucional. Chegou a mim um vídeo de um moderno “Senhor de Engenho” — CEO de alguma empresa — que disse que uma hora de almoço, como indica a legislação, é tempo demais. Que o próprio funcionário poderia querer abrir mão desse tempo excessivo e almoçar apenas em 15 minutos. Fato testemunhado por ele nos EUA em que um operador de máquina comia o lanche com a mão esquerda enquanto operava a máquina com a mão direita.
Essa escravidão consentida pelo escravizado já existe de forma velada. Aceitamos um sistema de trabalho em que não temos tempo de descanso suficiente para descansar por vários fatores — tempo de deslocamento, horas trabalhadas, sistema 6 X 1, 40 horas de função in-loco. Tem crescido o modulo de Home Office que também acaba por absorver um tempo maior de atividade porque a demanda de trabalho é cumulativa.
O Brasil viveu quase 400 anos de modelo Escravista desde a sua criação como nação. É uma marca estrutural tão profunda na gênese de nosso povo que mentalmente estamos pensamos tendo essa concepção de mundo como plausível. Eu, pessoalmente, trabalho como autônomo, e muitas vezes ultrapasso com facilidade as 40 horas de trabalho semanais. É uma opção, mas com tendência de diminuição por questões de saúde física e mental. Enfim, posso fazer isso depois de mais de 30 anos de atividade autônoma, com o profissionalismo que deu a mim e a meu irmão, Humberto, meu sócio, essa chance de escolher com quem e quando trabalhar.
21 / 09 / 2025 / Paulo Freire*
Por ocasião do aniversário de Paulo Freire, em 21 de Setembro de 2021, publiquei no Facebook um texto que repercutiu de uma maneira que me fez entender o quão profundo era o buraco escuro em que nos metemos ao eleger um sujeito despreparado e mal-intencionado para o Executivo do Governo Federal. Aliás, melhor dizendo, a eleição talvez tenha sido consequência da personalidade de País de espírito escravista que nunca deixou de existir e encontrou ressonância no discurso do sujeito eleito. Vamos ao texto:
“Feliz aniversário do pensar e do pensador! Cem anos deveria ser tempo suficiente para celebrarmos o pensamento que nos libertaria dos grilhões da ignorância imposta se tivéssemos feito a lição de casa. Para percebermos a diferença entre o que é um pensamento sólido e outro baseado em mitologia. Mas somos um povo que foi sendo deixado na ignorância, apesar de termos um dos maiores pensadores sobre a educação entre nossos filhos. Atacar o pensamento e o pensador é a tática fácil e perniciosa de quem está satisfeito com o que temos hoje — um País rico de gente pobre material e mentalmente, que elege salvadores da pátria sem pensamento crítico, estruturado e em permanente reestruturação. Pensar não nos livra das dores de viver. De certa maneira, as evidencia. Porém, sem sabermos da doença não há como curá-la. Interessados em deixar que a nação continue enferma para se arvorarem de médicos é de interesse de muitos, em todas as vertentes. Não estarei aqui para ver um país melhor. Deixamos a nossos filhos um legado pesado. Salve, Mestre! A benção, Paulo Freire!”
A reação ao que está escrito acima foi intensa, em vários sentidos. Tanto a favor quanto contra. Os ataques ao maior educador brasileiro, reconhecido em todo mundo como um dos mais proeminentes, foi descomunal. Sem entender de início, percebi que pessoas que não faziam parte do meu círculo imediato de contato, começaram a reproduzir em comentários que percebi serem estruturas com a mesma linguagem e viés. Foi com essa experiência que identifiquei uma espécie de direcionamento estruturado para desvalidar as questões que envolviam a Educação e a Cultura. Tanto quanto se pode observar no que está acontecendo nos EUA atualmente, existe uma estratégia montada nos laboratórios da Extrema-Direita com sede exatamente naquele País, principalmente pelo grupo de Steve Bannon.
Durante o tempo do (des)governo do Ignominioso Miliciano, o Brasil serviu de campo de atuação desse movimento que renuncia às criações humanas no campo do Conhecimento, Pensamento e Cultura para aderir a uma política em que o populismo utiliza as mesmas estratégias criadas no bojo do Nazifascismo do Século passado. Cem anos passados desde então, ideias e sentimentos que estavam supostamente enterrados, ressurgiram após a ascensão do agora condenado por tentativa de Golpe de Estado. O seu grupo continua mobilizado para manter o “legado” de cunho retrógrado. Cumpre estarmos sempre atentos.
20 / 09 / 2025 / Centopeia*
Está pequena centopeia caiu na cuba da pia do banheiro de fora e não conseguia vencer a sua curvatura. É muito frustrante escorregar com dois pés, imaginem com algumas dezenas. Ajudei o bichinho a superar o trajeto com um graveto e ganhei a minha tarde…
*Realizei esta postagem em 2013. Qualquer coisa para mim importava registrar, como se fosse um diário no Facebook. Situações aparentemente sem importância ganhavam proporções de acontecimento. Eu me sentia mais leve, mais saudável. Ainda não perdi o hábito de registrar fatos e circunstâncias sem aparente relevo. Apenas para lembrar que a vida é exatamente isso…




