Caminho cada passo no chão,
a marcar os meus pés nas nuvens…
Ou são as nuvens que marcam a minha passagem
Desvisto os meus pés de proteção
Porque quero ser anuviado.
Mas isso não quer dizer que queira impedir da Luz brilhar.
Ao contrário,
recebo as cores decantadas pela Luz que me atravessa.
Eu me visto de água em estado gasoso
E logo mais me precipitarei em chuva calma
e abençoada.
Para matar a sede de flora e fauna
E elevar a minha alma
Ao fazer parte desse ciclo sagrado…
18 / 09 / 2025 / Morte Em Família*
Na saída do Terminal, na pista oposta, em direção ao Centro, jazia o corpo recém atropelado de um pequeno cão. Ao seu lado, pedindo para que os carros parassem, alguém que provavelmente o retiraria do asfalto, cena que não presenciei, já que o meu ônibus havia partido.
No dia seguinte, uma faixa colocada entre dois postes pedia, aliás implorava, que na eventualidade de alguém encontrar uma cadelinha com determinadas características, seria bem recompensado, caso a devolvesse. Ao final do apelo, o motivo recorrente: “criança doente, família desesperada”.
Só mais tarde, vinculei um fato ao outro, já que as características da cadelinha perdida eram bem próximas a do bichinho estendido no chão, pelo que eu pude perceber à distância no dia anterior, pela janela do ônibus. Seria uma, a outra? E a proximidade, o sumiço, e a morte, todos itens do mesmo episódio?
Passei a especular sobre as várias possibilidades relativas à história. Na versão mais feliz, a cachorrinha seria encontrada, a criança ficaria bem, a família estaria contente e alguém acabaria recompensado. No entanto, um cãozinho morrera, de qualquer forma. A quem pertencia, provavelmente faria falta a sua companhia e o sentido de perda persistiria. Na pior versão, aquele corpo que jazia no cinza era o objeto de estimação perdido e, nesse caso, perdido para sempre. Restaria a lembrança eterna na memória de quem conheceu Jully…
*Texto que compõe REALidade, meu primeiro livro de crônicas, lançado em 2015, pela Scenarium Livros Artesanais.
17 / 09 / 2025 / Elipse Lunar*

A imagem acima é estritamente ilustrativa. Há um ano*, escrevi:
“Noite de eclipse lunar, quando a sombra da Terra é projetada sobre a Lua, fazendo com que fique com uma coloração avermelhada. Aqui em São Paulo não há eclipses solares, lunares e ou de quaisquer ares. A poluição não nos deixa ver… ou como geralmente está nublado, apenas podemos imaginá-los. Para depois poder ver os registros de outros lugares. Faz um friozinho gostoso — 13°C — e a garoa de vez em quando dá a sua cara. Noite perfeita para tomar banho de Lua encoberta”.
Aliás, neste ano, não foi diferente…
Foto por Ajinkyaaa em Pexels.com
15 / 09 / 2025 / O Salto*
Eu tenho 54 anos…
Estou, como nunca antes na minha vida, me sentindo em plenitude.
Não que tenha tanto fôlego mais como antes, porém nunca antes tive, como tenho agora, consciência de minhas limitações…
Além da certeza de minhas possibilidades…
Sei que sou falível e, portanto, me cuido mais e cuido mais de quem está a minha volta…
Tento não deixar nada ao acaso. A não ser quando sinta que é o acaso que deva comandar a situação…
E como disse alguém deste sertão, “a felicidade se acha nas horinhas de descuido”…
Então, antes de voltar para a Realidade, saltei para vida real…
Só não esperava que o mergulho nas águas da vida fosse tão profundo que não mais pudesse retornar…
*Texto produzido em 15 de Setembro de 2016, data da morte de Domingos Montagner Filho —ator, teatrólogo, palhaço, empresário e produtor teatral brasileiro — ao mergulhar nas águas do Velho Chico.



