Blogagem Coletiva Scenarium / De Que Eu Me Lembro? / Lembrar-Me

Do que eu me lembro, nada obedece a uma sequência programada, sequencial, consequente. Talvez, caso eu fosse chamado para um interrogatório — onde você estava em tal dia, em tal lugar, com quem, de que maneira chegou até lá, quais eram as suas intenções? — quem sabe conseguisse puxar pela memória fatos que me revelassem o crime cometido.

Por mais que me sinta culpado — aquela culpa atávica de estar vivo e inteiro num mundo em processo de desintegração não creio que seja um sujeito ruim. Colabora para esse sentimento liquefeito a facilidade de me esquecer. Por uma estratégia de sobrevivência, vou me desvencilhando dos elos da pesada corrente que nos puxam para o passado. Não as arrasto feito fantasma de mim mesmo. Ainda que identifique aqui e ali marcas de ferrugem na minha memória.

Ao mesmo tempo, tento me manter atento ao fato de fazer parte da espécie que me dá as referências sobre as quais caminho — Homo sapiens — homem, brasileiro, idoso (renitente), simpatizante da diversidade de gêneros e identidades sexuais, feminista mentalmente formado no Patriarcado, portanto, contraditório. A situação mais marcante que aconteceu comigo nos últimos tempos foi o arredondamento da minha idade para os fatídicos 60 anos que me faz automaticamente precipitar para o abismo dos “idosos”. Brincando, digo que o “fardo” que carrego é de alguém com 59.

Para muitos, é como se fosse a chancela para seja sacrificado por sua inutilidade. Para mim, é a oportunidade de demonstrar para mim mesmo as teorias que desenvolvi desde novo, quando já não sentia acolhido pelos números que designam os ritos de passagem de criança, para adolescente, depois para jovem adulto, adulto, meia-idade, velho, decrépito… — a que o processo de desenvolvimento é pessoal. As idades mentais não se coadunam muitas vezes como as físicas, que o espírito é independente do corpo, apesar da gravidade atuar inexoravelmente para que concordemos com os parâmetros confortáveis que ditam tarefas afeitas a cada tempo de vida.

De modo mais claro, eu me lembro que transitei por “idades” díspares pelas quais era identificado. Já fui um velho moço, um adolescente quase à morte, um senhor criança e sou, se é que se pode estipular dessa maneira, um eterno curioso de mim no mundo, em busca de uma desesperada identificação com os outros seres da minha espécie. No entanto, rejeito rótulos, oblitero exteriorizações, tento caminhar por referências pessoais, procuro me incluir entre os tolerantes. Ainda que seja eu a principal vítima de minha intolerância.

Fisicamente, quando passei por um processo de enfermidade, em que emagreci 30 Kg em pouco tempo, lutei para não me assustar com a imagem que via no espelho, totalmente diferente da que carregava em minha memória como sendo a do Obdulio que conhecia. Não apenas eu, mas as pessoas não me reconheciam de imediato e o olhar que apresentavam quando me viam era assustador. Mais novo, ao adotar o vegetarianismo, também havia perdido bastante peso e ocorreu algo diverso — eu continuava a me ver como era antes.

Eu havia desenvolvido a distorção de imagem pela qual muitas pessoas passam em diversas circunstâncias. O ex-gordinho continuava a se ver gordinho e o olhar de horror das pessoas era mais evidente em uma época que a AIDS surgia com força avassaladora. Isso serviu para me identificar com quem sofria a rejeição pela doença e atento às informações sobre a enfermidade, sabia que a “peste” que grassava maior então era a da ignorância — algo cíclico em todos os tempos — que se abateu sem dó sobre quem viveu aquela fase tenebrosa.

Muita da minha memória é autorreferente. Eu fico encantado com quem consegue falar sobre o que aconteceu com os outros como se estivesse descrevendo um filme. As minhas lembranças que pontuam espasmodicamente aqui e ali, normalmente são de aparente insignificância, sem correlação com algo que pudesse ser chamado de “história”. Tem mais a ver com cacos de fatos disparatados como se fossem flashes instantâneos de recordações randômicas, aleatórias. Talvez fosse o caso de fazer análise de forma mais sequencial. Todas as vezes que começo, porém, acontecimentos alheios à minha vontade se interpõem, fazendo com que pare.

Enquanto isso, escrevo. É bem possível que minhas histórias sejam lembranças guardadas em algum depósito mental, liberadas aos poucos como se pertencessem a outros. Ou poderia dizer que essas histórias acabem por se incorporarem à minha, as tomando como se fossem comigo. Essa simulação de ser que muitas vezes me sinto, se mostra débil, mas estranhamente vigorosa, como se fosse a maior característica de minha existência: um sobrevivente que caminha sobre escombros de terra arrasada. Sobreviverei enquanto a curiosidade me guiar à procura de saber quem eu sou.

Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso

Eu Escrevi Outro Livro

Eu estava como que boiando solto no rio de asfalto paulistano, a ponto de ter mais uma crise de ansiedade de consequências funestas. Eu me conhecia. Já havia passado por isso antes. Em outras ocasiões, quase embarquei numa viagem sem volta. Cheguei a tocar o limite e quase vislumbrei ultrapassá-lo. Terminava o mês de janeiro deste ano e encontrei uma maneira de não afundar — parti para o Litoral Norte o meu norte junto ao mar, onde busquei boiar no líquido amniótico marinho para renascer. Ao mesmo tempo, comecei a fazer um dos cursos de escrita da Scenarium, conduzido pela Lunna Guedes.  

O sincronismo entre a necessidade de escrever sobre o que acontecia comigo e o curso voltado para a produção de crônicas, encontrou ensejo na busca da união de uma linguagem íntima e a expressão do que acontecia ao meu redor, no tempo presente. A visão pessoal sobre os acontecimentos, talvez fizesse com que superasse minha condição mental precária. Como se fosse um antídoto obtido do veneno — o que via acontecer no País colaborava para o aprofundamento da minha natural melancolia — conduziu-se a produção do meu texto. Ao mesmo tempo, o contato com o Mar foi paulatinamente resgatando meu equilíbrio no embate contra o movimento das ondas.  

Curso De Rio, Caminho Do Mar é o meu quarto livro pela Scenarium — Livros Artesanais, o terceiro de crônicas, o segundo numa linha mais intimista. Páginas de papel enlaçadas com arte que me resgataram das turbulentas águas da atual realidade brasileira, buscando vieses alternativos ao vislumbrá-la. Em um momento em que precisamos alimentar o povo deixado à própria sorte, percebi de maneira clara a necessidade de também alimentar o espírito. Essa interdependência se provou indissociável para sobrevivermos ao assédio do neofascismo.

O lançamento ocorrerá virtualmente, dia 27 de novembro, sábado, às 17h, pelo canal do Instagram do selo. Quem quiser adquirir esta e outras obras, entre o contato com a Scenarium — Livros Artesanais.

Luares*

Sem Super Lua…
Apenas superação…
A eterna ação
da Terra em movimento…
Em uma viagem de velocidade controlada
em torno do Sol.
Bilhões de pessoas já viram céus e astros
mudarem de lugar quando, em verdade,
foram elas que se moveram
vida adentro,
do nascimento à morte…
Essa é a nossa eterna sorte…
E a nossa redenção…

*Poema de 2016

Bom Dia!

BOM DIA!

Creio que uma das atitudes mais salutares que há é o de dar “bom dia!” no momento que temos a oportunidade. Desejar que o dia seja bom para alguém, para os outros animais não humanos, para as plantas, para o mundo invisível, para si mesmo reforça o compromisso de que estamos aqui para melhorar a nossa condição, para que as altas vibrações se sobressaiam em relação às baixas. Porém…

Não sou ingênuo a ponto de crer que meus desejares benéficos penetrem os corações inflexíveis dos que se aprazem em viver a dor como padrão de vida. Eu sei que estados depressivos se imiscuem nossas vidas vez ou outra, principalmente quando nos colocamos tão abertos às solicitações mais insidiosas do mundo, aquelas que nos carregam como formigas operárias do mal. Mas estou me referindo aos que carregam a consciência nublada por opção.

Como oferecer o meu “bom dia!” a quem acredita que a desigualdade é a linguagem pela qual devemos nos pautar como padrão da existência? Seria o caso de jogar a minha improvável força mental como se fosse um raio redentor para tentar transmutar a natureza maledicente de gente que ama odiar? Somos, cada um de nós, como planetas que desenvolvem suas próprias leis físicas-mentais. É usual planetas regressivos se apartarem da ordem humanista e se reunirem em sistemas que adotam um sol escuro em torno do qual girar.

É habitual neste quadrante que hordas de sequazes orem pela crença no separatismo em castas, benéficos apenas para escolhidos, que creem que sejam capacitados por um deus exclusivista, que implantou a doutrina de dominação de poucos sobre muitos. Que abominam os diferentes e que fazem força para que as diferenças sejam classificadas como indicativas para qualificar os que devem viver e os que devem morrer, os que devem comandar e os que devem obedecer, que lutam para reforçar a desigualdade, para que nada mude na abençoada relação de servilismo que caracteriza a História do mundo.

Fiquei a imaginar que o comportamento dessa gente é tão repugnante que me leva a não exteriorizar o melhor de mim. Dar o meu “bom dia!” a esses tipos equivaleria em querer que continuem a se beneficiarem do mal que espalham pelos caminhos que tomam. Significaria que colaboro para que continuem em seus bancos de carros blindados a se sentirem confortáveis à paisagem exterior de desequilíbrio social, que sentem recompensados por contrapor a sua boa saúde ao mal ajambrado, ao deserdado, ao molambo. Representaria abraçar àquele que ri da morte de enjeitados, que se glorifica a cada corpo sem vida de um desfavorecido na sarjeta numa noite chuvosa ao ir jantar no restaurante da moda. Daria ensejo que fosse um bom dia para o desrespeito.

Contudo, não quero me tornar um semelhante aos que não compreendem aos dessemelhantes. Afinal, a compreensão do outro é a senda que busco desde sempre. Quebrar a barreira da incomunicabilidade para entender o porquê de certos comportamentos, buscar o mínimo sinal de humanidade no ser mais abjeto com o qual convivo. Isso não significaria absolver o que fazem ou o que dizem, o mal que querem impor como agenda diária. Aos que desejam implantar a xenofobia como prática de nossa realidade de incrível diversidade cultural e racial, a incorporando como política do País. Não lhes importa que a Ciência demonstre que as diferenças sejam mínimas entre nós. Dada a realidade, que seja derrubada a base sobre a qual pautamos o desenvolvimento humano nos últimos séculos!

Isso significa que para não me tornar um negacionista, um detrator do verdadeiro cerne do que eu acredito e me conduz que é o amor, deverei trabalhar diária e permanentemente para participar da resistência. Cansa? Cansa! Há momentos que não queremos continuar a bater a cabeça, a nos digladiar contra obtusos que vibram a cada vez que o seu representante destila diatribes e promove abusos. Para mim, são como facadas em meu coração. Mas sobreviver talvez seja a maior ofensa que possa oferecer a esses sujeitos. Portanto, também para esses, dou um “bom dia!” para mim, sabendo que, se assim for, não será um bom dia para eles…

O Broche

Segunda-feira de rescaldo dos eventos do final de semana pela Ortega Luz & Som. Satisfeito, mas cansado, começo a fazer as tarefas caseiras costumeiras: recolher o lixo, alimentar as cachorras e as garnisés, varrer os pisos da casa e do quintal, lavar a louça. São tarefas que me reconectam. Tenho textos a escrever, mas a perspectiva é que não possa ver o sol se pôr… pela nebulosidade que tomou conta do entardecer.

Entre os itens a serem descartados, encontrei um broche. A Tânia deve considerar que não seja importante ou que possa vir a usar eventualmente. Tem um aspecto passadista e um tanto chamativo. Normalmente, não encontraria guarida na caixa de acessórios das vestimentas e serem usados sem chamar a atenção como uma bijuteria espalhafatosa. Eu apenas suponho. Não perguntei a ela. Não a perturbaria no trabalho para questionar sobre isso.

Mas não a jogarei fora. Foi apenas vê-lo para lembrar de Dona Magdalena Nuñez (Blanco Y Prieto) Ortega. Mamãe adorava esses apetrechos. Tinha um estojo com alguns deles. Eu, em pequeno, os olhava fascinado como se fossem tesouros resgatados de piratas ou de Ali Babá. Eu a via experimentar vez ou outra, ensaiando para as ocasiões que em determinada época não eram tantas, em que nos reuníamos à grande família espanhola.

Incrível é o poder que uma simples peça sem valor tenha o poder de movimentar as pesadas engrenagens endurecidas do Passado e faça funcionar a Máquina do Tempo, o levando num átimo ao passado de meio século, nos transformando no menino que ficava a admirar a mãe a se pentear e se maquiar na antiga penteadeira, ao qual ela chamava de “pechinchê”. Os perfumes são reavivados, a escova volta a deslizar pelo sedoso e abundante cabelo, a luz indireta a entrar pela janela do passado é generosa ao trazer para os olhos míopes do velho a clareza da visão juvenil.

Um simples broche não é um simples broche. O seu corpo carrega tanta energia memorial que mesmo sendo feito de latão e plástico colorido, passa a ser tão valioso tanto quanto o tempo inteiro de nossa vida…
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