BEDA / Mulheres Maduras

Mulheres Maduras
Helen Mirren, atriz
Eu convivo com mulheres maduras de todas as idades. As mulheres que ostentam números menores nos “RGs”, nunca menor que milhões, passaram por tantas fases internas e externas, sentiram tantas emoções, vivenciaram amores e desamores, sofreram decepções, sangraram decalitros de sangue, perceberam o mundo a doer no centro de sua barriga em tantas cólicas, que simplesmente poderiam deitar e declarar aos quatros ventos: “Não quero mais nada disso!”…No entanto, levantam a cada manhã a desejarem ser felizes. Querem mudar o mundo ou o cabelo; fundarem uma nova empresa ou iniciarem uma nova empreitada; comprarem sapatos ou carros novos; carregarem novos sonhos em bolsas novas; colocarem aquele vestido que fará o seu amor exclamar “Uau!”; chamarem a atenção de um possível novo amor, causar admiração ou apenas se sentirem bem. O amor que carregam dentro de si querem fazer valer a pena. Querem pagar todas as penas, se preciso for, para vivê-lo…

Pobre dos homens que não as valorizam. O quanto perdem por não poderem conhecer novos universos tão próximos de si. Garotos que um dia quiseram ser navegadores, astronautas ou mergulhadores, não se atinam que poderiam viajar para tantas realidades alternativas apenas se desligassem de seus umbigos para alcançar mundos inexplorados ao alcance das suas mãos, acionado os quase trinta sentidos que existem. Sei que, pelo menos as mulheres, os tem…

Homens, para o nosso bem, amem as mulheres maduras. Não precisam “tê-las”, porém as “tenham”, se forem “suas”, porque elas querem se sentir pertencidas, também. Só temos a ganhar em vida e substância se, mesmo por um tempo em nossas vidas, descobrirmos essas estranhas realidades a se imiscuírem em nossas parcas realidades…

Talvez alguns de vocês tenham percebido que eu tenha terminado cada parágrafo com reticências… – palavra que só se escreve no plural. Mulheres maduras são como reticências, para mim. Deixam no ar a ideia de continuidade sem muita explicação, porque carregam inúmeras delas… Como rastros de perfumes pessoais que semeiam, os quais nós, homens e meninos, não sabemos quantificar, mas que os nossos corpos acolhem em saraivadas de poderosas sensações inomináveis a nos fecundar a terra…

BEDA / O Desamado

DESAMADO
Amanhecer fogoso…
O sol assoma no horizonte,
impetuoso…
fulgurante…
No entanto, para o desamado,
os seus raios não apenas queimam,
mas penetram, feito adagas,
a golpearem o seu corpo cheio de chagas…

Aturdido, o desamado
não compreende como pode tanto amar
e se ressentir tanto
de quem ama…
Padece por estar longe…
Quando por perto, é repelido
e sofre por ver seu amor desperdiçado…

A quem ama,
também o amou…
Ou talvez ainda o ame…
Mas viveu outras histórias de paixão
que machucaram o seu corajoso coração,
tão bravo que insiste em se apaixonar de novo…
Precisa se sentir plena e ímpar,
não apenas distinta entre todas,
mas única e soberana,
feito uma leoa na estepe…
Qualquer olhar lateral a faz desconfiar,
a remete às presas fendidas,
às paixões perdidas…

Como defesa,
prefere boicotar o amor,
substituir a sofreguidão pelo corpo do amado
por outro vício –
cigarro, bebida, sexo sem sentido, qualquer droga…
Afastar o desejo por aquele que a fere sem querer –
o triste desamado, que naufraga
em sua santa ignorância
inepta e juvenil…

BEDA / Inveja Branda

Inveja

Inveja – talvez seja a palavra mais próxima ao sentimento que tenho com relação ao que observo nas mulheres que amam. É uma inveja branda e que considero, de certa forma, um salto para melhor na gama de sentimentos que se conflitam em mim. Tenho exemplos próximos e mais longínquos de mulheres que expressam esse amor em momentos os mais diversos. Tenho como um dos exemplos a minha mãe que, além de amar extremadamente a nós, seus filhos, amou a meu pai a sua vida toda. Amor não correspondido. Até quase o final de sua existência, nutria certa esperança de que ele, enfim, voltasse para o lar. Portanto, foi surpreendente para nós quando, depois de mais de quarenta anos de “casamento”, pediu o divórcio, para lá dos seus setenta anos. Nesse episódio, prevaleceu o amor por seus filhos e netas. Ela percebeu que talvez não tivesse tanto mais tempo de vida e precisava ter condições de realizar o que cria ser necessário, nesse ínterim, até o fim.

Mulheres que amam declaram o seu amor a plenos pulmões, bagunçam a vida de seus objetos de amor porque, muitas vezes, eles (por exemplo, homens) preferem ficar na zona confortável da platitude. Muitas vezes, no entanto, esse amor salva a vida de quem é amado, aquele que chafurda penosamente na sensaboria da areia movediça sem uma referência amorosa valorosa. Eu sou alguém que foi salvo pelo amor. Nunca é tarde para alardear que mulheres – mãe, companheira, filhas – constituíram a minha boia de salvação no mar calmo e sem limites da absência sentimental que era a minha vida.

BEDA / Ouça, Meu Mundo Caiu

O meu pai tinha vários discos de 78 rotações, que eu comecei a explorar por volta dos 12 anos ou antes, talvez. Em certa ocasião, caiu em minhas mãos um que apresentava de um lado “Meu Mundo Caiu” e, do outro  “Ouça”, de Maysa Matarazzo. A bolacha  datava de 1961, ano do meu nascimento. No início do anos 70, eu os ouvia como se fossem hinos que traduziam a melancolia que já começara a se esboçar em minh’alma juvenil. Quando a audição de cada uma delas beirava a dúzia, os meus pais pediram para que eu parasse, “pelo amor de Deus!”. Desde então, os olhos verdes de Maysa (mais imaginados do que vistos) se tornariam um dos meus faróis. Por eles, passei a explorar esse lado gostoso da fossa por amores que eu nunca vivera que, por isso mesmo, se tornavam mais reais.

Um dos clipes que estou a indicar aqui são da série televisiva “Quando Fala O Coração” (2009), escrita por Manoel Carlos, com argumento e direção de seu próprio filho, Jayme Monjardim, que a obra decanta os seus dramas pessoais e revela sua relação conturbada com a mãe – mulher forte que ousou desafiar os limites impostos às mulheres da época em que viveu.
Após ser descoberta por mim, acompanhei Maysa com sofreguidão todas as vezes que surgia em minha televisão em preto e branco, quando sua voz já vivia uma fase de decadência, cada vez mais rouca. O que não impedia que continuasse a amá-la, como ainda a amo, mesmo depois de seu passamento, em janeiro de 1977. Foi um ano difícil para mim, que em agosto vi Elvis Presley se despedir da vida (ou não) e Charles Chaplin descerrar as cortinas em dezembro.
Ouça
Meu Mundo Caiu

BEDA / Rasga-Lixo

Rasga-lixo

Já ouvimos várias vezes alardeado que nós, brasileiros, temos “complexo de (cachorros) vira-latas” – termo criado por Nelson Rodrigues a se referir sobre a nossa baixa autoestima como povo. Ele versava principalmente sobre o futebol, então (anos 50) acostumado sempre a quase ganhar e que não reconhecia seus grandes predicados para vencer. Superamos o nosso complexo de vira-latas no esporte bretão – fomos 5 vezes campões do mundo no futebol. Porém, ainda não conseguimos superar a nossa antiga condição de vira-latas, se bem que não haja mais latas para receber o lixo que produzimos colocadas fora do portão.

Eu me dei conta disso quando vi um cachorro rasgar sacos de lixos deixados na calçada, na busca de comida. Nunca mais vi, pelo meu bairro ou em qualquer outro, latas ou quaisquer tipos de recipientes particulares para conter os nosso restos. E a causa é simples de explicar – com o tempo, as latas são levadas-roubadas. Eu me lembro quando se deixava vasilhames de leite e pão nas portas das casas e não eram tocados. Éramos, então, um país muito mais pobre economicamente, contudo isso não constituía motivo para que o nosso cotidiano fosse tão incivilizado. Portanto, não é uma questão de baixo autoestima, mas de autoavaliação: atualmente, somos um povo “rasga-sacos de lixo”…