22 / 11 / 2025 / Blogvember / Os Telhados Estão Molhados…

… para quem tem telhado para se abrigar
porque as casas são modelos nas cabeças das crianças
mesmo as mais pobres as desenham em folhas sujas
em noites escuras à luz de velas
bruxuleantes
sendo tão pequenas acreditam em bruxas voando seus telhados
molhados
mas os monstros estão por perto
são humanos
armados de ódio e maledicência
não gostam dos desvalidos
não suportam a ideia de que tenham residência
um lugar para ficar
ainda mais perto de si
querem distância de tudo que revele a sua pequenez
seres abjetos
em suas mentes carregam dejetos
mas pela eternidade crianças continuarão a desenhar
em folhas de papel suas casas de telhados
molhados…

Participação: Lunna Guedes

21 / 11 / 2025 / Blogvember / Tarde Da Noite Recoloco A Casa Toda Em Seu Lugar

teria que sair logo cedo às 5h da manhã
às 4h os pássaros já iniciam os seus cantos primaveris
percebo que não tinha dormido um pouco sequer
mas mesmo assim sinto necessidade de deixar a casa arrumada
varro passo pano com detergente lavo a louça
quando saio para colocar o lixo para fora entrevejo a lua entre as folhas
a trilha sonora dos seres alados é a ideal para compor o cenário idílico
bocejarei o resto do dia mas ao respirar o ar da manhã imaculado
dos odores humanos produzidos por suas máquinas
me sinto recompensado pelo resto do dia…

Participação: Lunna Guedes

20 / 11 / 2025 / Blogvember / Fiz Misérias Nos Caminhos Do Conhecer

a mais difícil jornada do conhecimento é conhecer a si mesmo
sou um ser curioso quero saber (as versões) de tudo
a ideia do que fazem de mim por minhas exterioridades e intimidades
estão no plural por sou muitos ao longo dos tempos
tanto que muitas vezes não me reconheço
ao acordar tento comprovar se estou mesmo lidando comigo
ou um outro que se esqueceu de mim apesar de estarmos no mesmo corpo
fico espantado com o sol estrelas a lua fico a registrá-los imageticamente
a me atrair magneticamente
por suas versões ilusórias são meus sóis minhas estrelas luas
minhas ideias de mundos não apenas as referências deste que comungamos
estamos juntos mas separados nós mesmos mundos estanques
saber que somos múltiplos iguais mas diferentes
e que o conhecer é um processo infinito de infinitos espaços-tempos
e só seremos plenos de conhecer ao nos tornamos igualmente infindos…

Participação: Lunna Guedes

19 / 11 / 2025 / Blogvember / Quando Morrerem Os Cardeninhos…

… irão todos para a vitrine de exposição póstuma: relíquias
os pensamentos os desejos emoções sentimentos ações descritas
serão mumificadas talvez percam os sentidos as intenções
de quem as escreveram amores perdidos vidas sem testemunhas
seguras e secas entre folhas esmaecidas talvez uma flor morta entre as páginas
pessoas que morrem por esquecimentos cadernos como túmulos
passarão à sessão de histórias ocultas sem serem conhecidas
mudas e esquecidas…

Participação: Lunna Guedes

Foto por Polina u2800 em Pexels.com

18 / 11 / 2025 / Blogvember / Havia Que Deixar O Corpo Descoberto Entre As Pedras

a pele a conversar com esses seres imóveis e permanentes
testemunhas de outras eras
sábias pedras em essencial mutismo ainda que digam —
estamos aqui — somos proféticas
somos compostas de eternidade aqui estaremos depois que vocês partirem
outras vidas pisaram se assentaram se expressaram
em nossa constituição mineral
vocês já tiveram a sua oportunidade fracassaram
testemunhamos a sua decadência
passaram a existência sobre nós a desrespeitar
outras vidas outros cantos outras forças belezas energias
dias e noites noites e dias
também gostamos da luz que nos aquece os contornos
mas em seu caminho autodestrutivo
os humanos estão criando maneiras de que a luz seja apagada
vocês serão extintos nós continuaremos
perfeitos em nossa dura e explícita consciência de cristal…

Participação: Lunna Guedes

Foto por Lucas Pezeta em Pexels.com