Deve saber que há muitos que o procuram em vão, não?
Onde se esconde?
Tenho por mim que, de tão perfeito, você passe despercebido em forma de cumulus nimbos que interdita a luz do Sol apenas para refrescar o calor.
Ou passa disfarçadamente como uma simples sardinha num grande cardume no Atlântico.
Com certeza, morou por um instante nos olhos verdes da moça triste.
Dever caminhar em grupo de pinguins que se juntam para enfrentar a tempestade de neve.
Estou quase certo que o vi de relance no arabesque preciso da bailarina.
Tenho por mim que esteja no beijo de boa noite de uma mãe em seu filho… também. Mas não apenas.
Sei que está no gesto de carinho do namorado no cabelo da amada, ainda que se restrinja a existir em tempo escasso, diante do cotidiano de dissabores.
Todos o desejam eterno, mas somos mortais e nossos desejos urgentes, sem compromisso com o que é permanente. Está nas ondas do mar que se quebram em ruídos d’água espumosos. No entendimento de seu fluxo e refluxo.
Está no quarto 102 de um hotel barato do centro em que os amantes se bastam por tempo determinado.
Caminha nos primeiros passos claudicantes da criança que meses antes mergulhava na barriga materna.
Outro dia, eu o encontrei numa palavra singela, mas que me fez perceber a sua eternidade — “é”.
Amor Ideal, sou dos poucos que desacredita em sua existência sempiterna.
Eu me surpreenderia se eu o encontrasse por aí, ao procurá-lo com insistência. Assim como a Felicidade, deve estar em momentos de descuido…
“O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” (Carlos Drummond de Andrade)
Para mim, escrever sobre o que é real e não é, é muito fácil. Tudo é real, incluindo a falsidade e o que é falso. Aliás, dadas as circunstâncias, o status do que é falseado ganha a projeção de realidade incontestável. Com o advento da Inteligência Artificial, nos acostumaremos a crer em discursos de gente morta. O menino do Sexto Sentido nos diz que vê gente morta olhando dentro de nossos olhos. Só saberemos que não somos nós, os mortos, se a nossa pele arrepiar.
A pele não mente, graças a Deus! Quando estamos com alguém, o corpo se assanha com as suas respostas que reverberam enquanto decoramos a superfície do corpo que nos antepõe pelo toque de nossas mãos. A depender dos seus movimentos, entradas e saídas, bocas, línguas, dedos, palavras ditas, entrecortadas e caladas por beijos que respondem sem duvidar. Eu elejo esta última ação como o objeto real, palpável, inebriante e permanente sobre todas as outras coisas — O Beijo. Ah! E a Morte…
por que não me chama? que esta chama que me abrasa queima que dói… nos unimos para brincar de fogo coisa de jovens ainda que muito mais jovens já fomos bebemos um do outro a água que saciou a sede mas não matou a seca renascida a cada estação de dias rios desviados e ventanias ciclos de algo que não conhecemos a profundidade sentimos que ainda não chegamos ao fim por mais que estejamos partidos em mil pedaços como que espatifados contra a concretude da realidade lutamos contra as forças inequívocas da natureza que nos moldaram os corpos fadados a desejar em evoluções de cantos músicas danças esperas e ânsias esperanças quando deitamos levantamos pernas braços membros expectativas vontades redivivas para não morrermos em vida que viver é morrer todos os dias para a solidão que nunca deixa de tentar prevalecer sobre a bola azul resta amar é muito mar mais que terra a boca fala e a língua diz muito tanto as mãos tocam as peles se pronunciam as entradas se expõem às penetrações e abrasões com pupilas dilatadas movimentos de placas terremotos volta ao mundo consumação do gozo e da dor da roda que gira e roda que roda sem sentido e sem nexo o sexo é sexo mas o amor ah! o amor é foda…
Há treze anos*, ao nono dia de outubro, completava meio século de vida. Como legenda da imagem coloquei que estava me sentindo meio a meio. Estava fazendo o Curso de Educação Física e conseguia, mesmo estudando com jovens com metade da minha idade, acompanhar as atividades práticas. Esta foto foi feita num ambiente festivo – um evento surpresa – que reuniu parentes e amigos em um buffet próximo de casa. Nunca imaginei que o sujeito que jamais havia tido uma festa de aniversário quando menino, pudesse participar de uma montada especialmente para si. Agradeço à todos que dela participaram. E, principalmente, à minha família, que pôde me proporcionar esse momento único.
Estou cercado de quinquilharias. Quando jovem, imaginava que viveria à margem da Sociedade, uma vida alternativa em que não precisasse de penduricalhos para me afirmar como pessoa. Eu estaria sempre em trânsito, mochila nas costas, usufruindo da Natureza para sobreviver, trabalhando para me sustentar minimamente. Sonhos de uma noite de verão juvenil. Passadas as décadas, estou atulhado de objetos, muitos supérfluos. Outros, nem tanto. Ao me casar, fui transportado para outra plataforma de vida. As circunstâncias me obrigaram a entrar como colaborador do Sistema.
Para complicar, fui criado por pais que passaram necessidades materiais. Guardavam tudo o que podiam. Principalmente, o meu pai. Graças às suas latinhas de manteiga que abrigavam parafusos pregos, porcas, elásticos e outros utensílios, e pelas quais era fascinado, comecei a escrever, desenhando as letras. Queria saber o significava aqueles desenhos que “enfeitavam” as embalagens. Comecei a reproduzi-las. Ao longo do tempo, o acervo de guardados do meu pai aumentou exponencialmente. Para ajudar, ele se tornou recolhedor de materiais recicláveis. Daí, pude começar a minha própria coleção de quinquilharias. As mais importantes, os livros.
Livro se come? Não, mas a depender do interesse que desperta em mim, eu o devoro. Livro é um item supérfluo em muitos lares brasileiros. Seria uma quinquilharia dispensável. É raro irmos a algum apartamento, por exemplo, e encontrar um cantinho em que haja livros dispostos a ocupar o espaço físico. O que não quer dizer que o morador não possa ter o hábito da leitura. As bibliotecas estão aí para suprir essa demanda.
Um dos motivos para guardar quinquilharias apresenta apelo sentimental. Os objetos expressam, de alguma forma, as lembranças que venha a ter de um determinado fato. No caso do trofeuzinho quebrado – cada vez menor ao longo do tempo – eu o recebi como prêmio num festival escolar de música. Esta envolto a tantos outros objetos, embalagens e dispositivos que larguei por ali até ser finalmente desprezado, como as pilhas que precisam ser dispensadas com segurança para não poluir o meio ambiente.
Eu tenho um quarto que fica fora da casa em que guardo parte do meu equipamento de trabalho e que não uso tão frequentemente, além de ferramentas e peças de uso eventual como pregos, parafusos, fitas, elásticos, lâmpadas e os recicláveis que dispenso para os catadores de recicláveis no dia da passagem do caminhão de lixo. Mas antes de ter uma parede reformada para organizar a bagunça, ela aumentou consideravelmente com o acréscimo de outras coisas, como esses quadros que estão à espera da parede reformada.
Eu tenho certa dificuldade de me desapegar de certas coisas. Uma meia velha e rasgada, a qual gosto muito, deixei a encargo da Tânia dispensá-la. Objetos que fizeram parte da história das crianças, também. A dispensa acontecerá, certamente, mas o exercício do apego é um tanto viciante.
Há objetos que ficam em trânsito, indo de lá para cá e em sentido inverso, igualmente. Vivem em estado “provisório-permanente”. Até que sejam recuperados ou definitivamente colocados fora de nosso alcance. Por um tempo, cumprem a sentença de ostracismo.
Gosto muito desses lagartos fujões! Retirados da parede da sala para reforma, ainda penso vê-los a nos observar largados nos sofás vendo TV. Ou escrevendo ou me vendo a participar dos cursos de literatura da Scenarium etc. Por enquanto, estão descansando em um ponto diferente, longe dos nossos olhos cotidianos.