Estaiada

Da ponte, a trama
Da cidade, o drama
Dos campos sem grama
Dos rios de lama
Da vida em programas
Dos corpos em chamas
Da luta pela fama
Do império da grana
Que aos corações inflama…

Velhinho

eu acordei hoje velho
quase sempre acordo jovem
e só restabeleço o que sou
ao surgir do outro lado do espelho
sonhei que era criança
foi um sonhinho-lembrancinha
menino pequeno queria ser crescido
ficava indignado egoísta queria
me sentar sozinho no banco do ônibus
minha mãe puxava para o colo entre
suas pernas de pelos mal aparados
pinicavam deixa os outros se sentarem
queria ficar na janela vendo o mundo
passar rápido mais rápido menos rápido
às vezes o mundo parava
minha mente continuava antecipava
surpresas

voltei velho fui à feira
quando garoto gostava de falar com velho
o velho de hoje puxa assunto quase
ninguém lhe responde olham
desconfiança ou indiferença
na banca de frutas um velho de longos
cabelos e barbas brancas puxa fumaça
de um apequenado cigarro de palha
seu olhar é mais profundo
do que uma fossa oceânica de tantas turbulências
acalmadas na escuridão
passo por um bar velhos jogam dominó
perdem partidas ganham idade
um deles olha para as peças
como se fossem pedaços da vida
que insistiam em não serem encontradas
respira pesado
ar que pouco permanece e se esvai
mais um ser antigo caminha
com seu velho cão
comem do mesmo pão
são amigos pais filhos irmãos
qualquer um que partir antes
levará consigo seu ente querido
darão adeus às mútuas lembranças
esquecidos

desconsolado desço a angélica
por uma travessa chego ao portão lateral
cemitério da consolação
me movo entre pedras me perco
revisito jazigos pássaros cantam
persigo ruelas ventos sopram
pareço ouvir vozes dos que se foram
admiro mausoléus árvores respiram
o sol ilumina o tempo construções desabam
em silêncio registro estátuas vivas os mortos falam
piso sobre lágrimas que já secaram
acalmo os meus pensamentos divago
tropeço em mim busco solução
os eternos moradores respondem desde o chão
calma… tudo está em dissolução…

Foto: imagem pessoal de um mausoléu do Cemitério da Consolação.

Dança Mágica*

Em relação à imagem acima, escrevi em 13 de setembro de 2016:
“Ontem, como estava há quatro dias “virando” de um evento para outro, não estranhei que me sentisse em um sonho quando começou o cortejo dos candelabros conduzidos pelas bailarinas do grupo de Nazira Izumi. Ao adentrarem ao “Picadeiro“, com o auxílio generoso da bela trilha sonora, o clima da apresentação pareceu o de uma reunião de modernas bruxas na floresta, a homenagear os mistérios femininos com a ciência da vida. Cumpriu a nós, expectadores, apenas nos deixarmos levar pela beleza dos movimentos ritmados daquele ritual…”.

Antônio De Godói*

Em setembro de 2022*, eu voltava da Rua Santa Efigênia quando quis tomar um café. Entrei em uma lanchonete que fica quase em frente ao terreno baldio onde antes ficava a antiga sede da Polícia Federal que, depois de abandonada, foi ocupada por moradores em situação de rua. No dia 1° de Maio de 2018, após um incêndio, o edifício de ferro, concreto e aço, desabou matando nove pessoas. Informação lateral, na parede da lanchonete vi este pôster da rua congestionada em direção ao Largo do Paissandu registrada dois dias depois de eu nascer, a 9 de Outubro de 1961, quando John Lennon fazia 21 anos. O garoto de Liverpool havia formado um ano antes com Paul McCartney, George Harrison e Pete Best, Os Beatles. Um ano depois, Rindo Starr substituiu Best e, a partir daquele 1962, Os Beatles se tornou a maior banda pop de todos os tempos. Atualmente, a Antônio Godói tem mão de trânsito invertida e serve mais como estacionamento do que via de passagem de carros. Os Beatles passeiam por todas as criações pop que já foram compostas desde então…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Mania Literária

Neste novo episódio de 6 On 6 (simplesmente perdi a data do anterior), versarei sobre algo que é intrínseco à minha personalidade — ou sou um homem literário — e, como tal , ouso dizer que seja apenas mais uma personagem do escritor que sou. Comecei a escrever desde que fui alfabetizado, a partir dos 7, 8 anos de idade. Comecei a “ler” mais ou menos aos 6. Pelo que me lembro (minha memória é oscilante), lia algumas palavras e completava com o que eu adivinhava. Assim como quando “lia” gibis em que sem saber de todas as palavras, inventava as situações. O leitor precedeu o escritor e o solidifica, o completa e continua a ser talvez mais importante. Ler livros é uma arte que estimula a arte da criação de histórias. Ao lermos, interpretamos a realidade, ficcionamos nossa estrutura de forma mais rica. Neste episódio, mostrarei os livros (artesanais) que publiquei pela Scenarium Livros Artesanais.

REALidade é o meu primeiro livro pelo selo Scenarium. Trata-se de uma reunião de crônicas feitas para a edição, mas em sua maior parte, de textos recolhidos das redes sociais. Eu escrevia para a Scenarium desde 2015 para edições da Plural ou coletivos propostos por Lunna Guedes, sua editora. Apenas em 2017 lancei essa empreitada individual. Gosto muito dele e envelheceu razoavelmente bem…

RUA 2 foi o meu segundo lançamento. Foi um projeto difícil de ser produzido. O meu pai havia falecido e eu estava “seco”. Não imaginava que a sua passagem fosse causar tanta repercussão interna. Eu estava distanciado dele quando ocorreu. Nascido à forceps (como eu) reproduz a vida/morte de moradores da Periferia paulistana. A ideia da minha editora foi reuni-los todos na mesma rua. Decidi usar Rua 2 porque era o nome original da rua onde eu moro, no bairro nascido do loteamento de uma antiga fazenda. São histórias “inventadas”, ainda que baseadas em fatos e situações que vivi ou tomei conhecimento, incluindo o conto final, aparentemente fantasioso.

A imagem acima é de uma das edições da Revista Plural. Nasceu junto com a Scenarium, há 11 anos. Reúne textos de vários autores e autoras versando sobre propostas feita por Lunna Guedes. Nessa edição, especificamente, compareço com um texto que gostei de reler, relatando em forma de prosa poética a minha primeira vez de um encontro sexual.

Este coletivo propõe o horror/terror como fio condutor de suas histórias. Escolhi escrever sobre o vício de drogas ilegais. É uma trama que se passa na Cracolândia. Nesse cenário turbulento e caótico, crianças começam a desaparecer. Chama-se Os Gêmeos — separados logo após do nascimento —, um deles é vendido pelo próprio pai para estrangeiros através de um esquema internacional de tráfico humano. Mesmo vivendo realidades diferentes, o dois mantém uma conexão mental transatlântica.

Comboio foi uma incursão da Scenarium por um tipo de edição popular na França — a plaquete — livro de pequena espessura. Aqui, em resposta a um texto original de Lunna Guedes, eu trago à luz, relato uma história de abandono real. Nesse caso, de um cão branco percebido na noite de São Paulo. Com ela, faço conexões com a vivência da autora quando menina com a visão de um homem que esperou em vão a chegada de uma pessoa na estação de trem de Nervi, na Itália.

Senzala é uma novela escrita em tom polêmico, mas que não foge à realidade que conheço mais de perto ou mais distante. Versa sobre uma mulher de personalidade forte, que se apodera da vida de um garoto preto e o usa para se satisfazer como dominadora sexual. Ela não é o único a ser usado, outros homens não escapam à seu poder de sedução. O título já é bastante provocativo, mas a considerar que também é usado como nome de restaurante em São Paulo, se percebe a sua banalização sem dimensionar o horror de sua origem.

Claudia Leonardi – Mariana Gouveia
Lunna Guedes – Roseli Pedroso – Silvana Lopes