06 / 06 / 2026 / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Seis Livros E Uma Xícara de Chá (Camomila)

Decidi reler livros de minha autoria, que são cinco e o sexto foi Alice — Uma Voz Nas Pedras — de Lunna Guedes, que me impressionou por ser tão pungente quanto radical ao adentrar na mente de quem sofreu abuso por ser “apenas uma mulher”. Sobre um dos capítulos, escrevi um texto, o chamando de “O Capítulo Perfeito“.

No último parágrafo do meu texto escrevi:
“Ao encontrar a autora hoje, a parabenizei por criar-reproduzir uma Alice que poderia ser tantas. Fazer uma resenha de um capítulo apenas parece estranho, mas esse que termina na página 93 me surgiu perfeito. Resume uma vida inteira em suas linhas. Proclama o desamor e faz inspirar amor, cuidado, atenção aos pormenores e ao sentido de ser-estar-ir-partir. Continuarei com Alice em mãos e, agora, no coração. Vou cuidar dela com todo o desvelo, sabendo que vivi em sua casa antes que soubesse que lhe pertencia”.

Em “Confissões” pretendi repassar a minha vida tentando ser o mais sincero e franco possível até as raias da auto preservação. Revela muito da minha relação com o Sr. Ortega, meu pai. Ainda voltarei a ele em outra oportunidade em forma de livro. Mas além dele, a minha família participa como dados de relação pessoal. Percebi que eu os usei para falar mais de mim do que sobre ela, incluindo a personagem central do nosso grupo, a Romy, minha primogênita que, devido à sua condição de saúde, foi moldando o nosso funcionamento como família. Mas ainda assim é um livro do qual gosto, porque consegui estabelecer uma escrita fluída.

Sobre o “RUA 2“, acabei por receber através de uma amiga o comentário de um rapaz para quem ela o emprestou:
“Nossa! É muito interessante a forma como ele vagueia com os contos sobre a rua em que ele morava. Ele traz as cenas cotidianas, suas gentes, os lugares… E cada conto ou capítulo traz o número da casa, achei isso maravilhoso. Cada personagem tem uma história… e os vários fragmentos da vida dele e da trajetória que ele traz. Tinha algumas palavras que eu não conhecia e aí pesquisei o significado o que me auxiliou até em enriquecer o meu vocabulário Um livro muito interessante e bonito!”

Eu comecei a publicar o que eu escrevia nas redes sociais, principalmente no Facebook. Obtive uma boa repercussão e as respostas me deixaram animado a publicar mais com observações do cotidiano das pessoas ao meu redor, meu meio social e sobre situações de grande visibilidade. Mas as histórias reais eram a minha maior motivação para jogar luzes sobre detalhes às vezes não notados, mas que sinalizam as sutilezas que tornam a vida interessante.

Senzala” é uma novela que me desafiou a ir mais profundamente na obscura alma humana. Criei situações em que o ser humano usa o outro por pura vaidade. O poder é baseado no desejo básico, quase animal, de satisfação sexual. Quando a personagem central se sente traída em sua vaidade, responde com o poder sobre a vida, a suprimindo.

Prestes a ter uma séria crise de ansiedade, me desloquei para o Litoral Norte e passei quatro Luas junto ao Mar. Ao mesmo tempo escrevi este livro que me trouxe alívio e, por ele, tenho imenso carinho. São relatos que mostram o quanto a Pandemia influenciou em nosso cotidiano, que coincidiu com uma espécie de abertura da Caixa de Pandora ou diria da tampa do esgoto da expressão mais canhestra de boa parte do povo brasileiro. A decepção que senti ajudou a tornar meu equilíbrio psicológico mais precário. No entanto, após essa estadia em Ubatuba, voltei renovado, trazendo o seu Mar cálido dentro de mim.
Salvei-me…

Post scriptum imagético:

Todas as publicações são da Scenarium Livros Artesanais

Participam: Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Silvana Lopes

BEDA / Frida Calada*

Frida
fala pelos olhos…
Nasceu ressabiada de gestos bruscos,
como se trouxesse abusos
de vidas passadas…
Passou a se aproximar aos poucos,
a vencer a timidez,
a se colocar embaixo de mesas,
em cantos de sofás,
junto aos nossos pés…
Hoje, perdeu de vez as travas…
Sentiu o frio chegar
e arranhou a porta para entrar…
Frida, outrora calada,
vive agora a deitar falas
com o seu olhar… 

*Poema de 2016, para Frida, que nos deixou logo depois, pela veleidade de um motociclista que corria a 100Km/h em uma rua de bairro.

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelim / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso

Bom Dia!

BOM DIA!

Creio que uma das atitudes mais salutares que há é o de dar “bom dia!” no momento que temos a oportunidade. Desejar que o dia seja bom para alguém, para os outros animais não humanos, para as plantas, para o mundo invisível, para si mesmo reforça o compromisso de que estamos aqui para melhorar a nossa condição, para que as altas vibrações se sobressaiam em relação às baixas. Porém…

Não sou ingênuo a ponto de crer que meus desejares benéficos penetrem os corações inflexíveis dos que se aprazem em viver a dor como padrão de vida. Eu sei que estados depressivos se imiscuem nossas vidas vez ou outra, principalmente quando nos colocamos tão abertos às solicitações mais insidiosas do mundo, aquelas que nos carregam como formigas operárias do mal. Mas estou me referindo aos que carregam a consciência nublada por opção.

Como oferecer o meu “bom dia!” a quem acredita que a desigualdade é a linguagem pela qual devemos nos pautar como padrão da existência? Seria o caso de jogar a minha improvável força mental como se fosse um raio redentor para tentar transmutar a natureza maledicente de gente que ama odiar? Somos, cada um de nós, como planetas que desenvolvem suas próprias leis físicas-mentais. É usual planetas regressivos se apartarem da ordem humanista e se reunirem em sistemas que adotam um sol escuro em torno do qual girar.

É habitual neste quadrante que hordas de sequazes orem pela crença no separatismo em castas, benéficos apenas para escolhidos, que creem que sejam capacitados por um deus exclusivista, que implantou a doutrina de dominação de poucos sobre muitos. Que abominam os diferentes e que fazem força para que as diferenças sejam classificadas como indicativas para qualificar os que devem viver e os que devem morrer, os que devem comandar e os que devem obedecer, que lutam para reforçar a desigualdade, para que nada mude na abençoada relação de servilismo que caracteriza a História do mundo.

Fiquei a imaginar que o comportamento dessa gente é tão repugnante que me leva a não exteriorizar o melhor de mim. Dar o meu “bom dia!” a esses tipos equivaleria em querer que continuem a se beneficiarem do mal que espalham pelos caminhos que tomam. Significaria que colaboro para que continuem em seus bancos de carros blindados a se sentirem confortáveis à paisagem exterior de desequilíbrio social, que sentem recompensados por contrapor a sua boa saúde ao mal ajambrado, ao deserdado, ao molambo. Representaria abraçar àquele que ri da morte de enjeitados, que se glorifica a cada corpo sem vida de um desfavorecido na sarjeta numa noite chuvosa ao ir jantar no restaurante da moda. Daria ensejo que fosse um bom dia para o desrespeito.

Contudo, não quero me tornar um semelhante aos que não compreendem aos dessemelhantes. Afinal, a compreensão do outro é a senda que busco desde sempre. Quebrar a barreira da incomunicabilidade para entender o porquê de certos comportamentos, buscar o mínimo sinal de humanidade no ser mais abjeto com o qual convivo. Isso não significaria absolver o que fazem ou o que dizem, o mal que querem impor como agenda diária. Aos que desejam implantar a xenofobia como prática de nossa realidade de incrível diversidade cultural e racial, a incorporando como política do País. Não lhes importa que a Ciência demonstre que as diferenças sejam mínimas entre nós. Dada a realidade, que seja derrubada a base sobre a qual pautamos o desenvolvimento humano nos últimos séculos!

Isso significa que para não me tornar um negacionista, um detrator do verdadeiro cerne do que eu acredito e me conduz que é o amor, deverei trabalhar diária e permanentemente para participar da resistência. Cansa? Cansa! Há momentos que não queremos continuar a bater a cabeça, a nos digladiar contra obtusos que vibram a cada vez que o seu representante destila diatribes e promove abusos. Para mim, são como facadas em meu coração. Mas sobreviver talvez seja a maior ofensa que possa oferecer a esses sujeitos. Portanto, também para esses, dou um “bom dia!” para mim, sabendo que, se assim for, não será um bom dia para eles…