B.E.D.A. / Primeira Pessoa*

“Hoje faz cinco meses que meu ano terminou. Prevíamos o fim do mundo. Para alguns milhões, realmente a vida acabou” — escrevi em Agosto de 2020, exatamente há um ano. As minhas atividades profissionais cessaram totalmente e poucas coisas me davam alento naquele momento. Uma delas foi o de estar fazendo um curso com a Lunna GuedesNarrativas Na Primeira Pessoa — que me ocupou a cabeça enquanto extraía da editora da Scenarium o que pudesse me oferecer de seu conhecimento sobre a escrita. O texto a seguir, de meados de *Junho de 2020, é o resultado de um exercício de Texto Narrativo Descritivo em que reproduzo um diálogo com a minha mentora.

Lunna, quando me perguntou, ontem: — Cadê o senhor? Fugiu? — apenas pude lhe falar que aconteceu algo inesperado. O meu dia foi mais nublado do que outros — estas horas sem fim, grudadas umas nas outras, em que os horários não se impõem como antes:  manhã, tarde e noite.

— Meu caro, no meu caso, tenho conseguido me organizar. Tenho sido muito produtiva.

— Acho incrível quando diz que consegue a organizar a loucura. Eu, não. A novidade é que tenho sonhado muito. Dizem que sonhamos sempre. Mas, ultimamente, tenho me lembrado dos sonhos. Outro dia, sonhei que estava na Coréia do Sul, em viagem. Em outra ocasião, que eu era uma mulher e estava grávida. Muitas vezes, me apresento nu diante de muita gente vestida, mas a agir de maneira natural. Assim como todos não parecem se incomodar com minha nudez.

—   Pelo áudio, percebi que não estava bem…

—  Se posso ressaltar um efeito é que acordei sem me recordar do que sonhei. Acho que meus canais se fecharam. Ou minha memória obliterou os acontecimentos sonhados e a realidade se fez mais pesada do que costumeiramente.

— Porém, de modo geral, se sente melhor?

— Acho que sim. Ao contrário de outras manhãs, decidi ficar em silêncio. Realizei as tarefas caseiras mudo e surdo, sem falar com ninguém. Não ouvi noticioso por qualquer meio. Sequer quis ouvir música. Os únicos sons que alcancei foram os latidos das minhas companheiras peludas. De vez em quando, pediam carinho e eu soltava vocábulos e inflexões de nosso léxico particular. O que me deu alento foi a marcação da aula que teria com você, agora à noite, sabendo que seria a melhor coisa que me aconteceria no dia…

Participam do B.E.D.A.:
Mariana Gouveia
Adriana Aneli
Roseli Pedroso
Lunna Guedes
Cláudia Leonardi
Darlene Regina

B.E.D.A. / Agosto*

Romy e eu, em 2017

Eu me lembro de Agosto antes de você. Era o mês indeciso — por vezes úmido, outras vezes, seco; meio quente, meio frio; a luz inclinada a festejar as cores mais absurdas no entardecer. Mesmo os tons de cinza eram mutantes e se percebia o Sol a brincar de esconde-esconde com quem quisesse vê-lo.

Agosto forçava o reinício dos ciclos escolares e abertura do segundo semestre. Desde pequeno, demarcava a volta para o ambiente onde encontrava os meus desiguais. A minha vida de rapaz só tinha futuro, lá adiante, igualmente a gosto quântico — indefinível…

Anos passados por mim, noivei em Agosto e, quase uma volta inteira em torno do Sol após, aconteceu você. Horas antes do Dia dos Pais, então. Preanunciada meses antes, nomeada antes de vir à luz, Romy — a primeira dos Oliveira Ortega. Veio como tinha que vir, inesperada-esperada, carreando tanta energia que mudou tudo ao seu redor.

Este mês, de remediado, se transformou em intenso. Passou a ser o primeiro do resto da minha existência terrena, aquele que me fez homem-pai. Como é incrível perceber o quanto você cresceu, além de qualquer expectativa. Como é inimaginável saber que você sente, além dos nossos pobres sentidos, toda a dor do mundo. Como é extraordinário vê-la renascer, mergulho após mergulho na profundidade do organismo, no ser que é.

Como é insólito conhecer um ente mitológico em plena modernidade — uma leonina Fênix. Como é um privilégio poder amá-la e testemunhar o amor a reverberar para além da linha do horizonte, sem obstáculo a lhe impedir. Como é bom, Romy, ser o seu pai!

Tânia, Romy e eu, em 1989.

*Texto de 2017

Participam em B.E.D.A.:
Cláudia Leonardi
Mariana Gouveia
Darlene Regina
Roseli Pedroso
Adriana Aneli
Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Um Dia Depois

UM DIA DEPOIS

Um dia depois do Dia dos Pais,
o que mudou no País?
Para tantos pais, filhos e famílias,
o segundo domingo de agosto não foi comemorado.
Pais não receberam seus filhos,
filhos não abraçaram quem os gerou
cuidou,
trabalhou,
viveu por…
Muitos, estavam vivos, mas distantes
e distanciados, por força do isolamento
ou pela desavença e litígio.
Eu, mesmo,
passei os últimos anos de meu pai,
alienado da sua presença. Mas foi uma escolha.
Outros, partiram pela doença do descaso.
Cem mil vezes pranteados.
Há ainda os que estão acamados,
entubados,
estratificados.
Todos, marcados
por estatísticas macabras.
Eu pude estar com as minhas filhas.
Percebi o quanto sou agraciado
por ser beijado,
abraçado,
por me sentir amado,
entrelaçado
pelo enredo familiar.
A minha alegria carregava um travo.
Em domingos sequenciais,
vivemos dentro de uma bolha boçalizada,
em ilhas isoladas,
de mar que se nega a aprofundar.
É como se o oceano não fosse salgado,
suas águas não quebrassem em ondas ao chegarem às praias,
não se permitisse abrigar sereias,
miríades de outros seres,
tesouros naufragados
e continentes perdidos ̶ raso de vida, mistérios e poesia.
Contudo, se aproveitam da crença no fantástico
e renegam a profundidade da Ciência.
Existimos em realidade paralela,
afirmando nossa indecência.
Negamos o conhecimento e festejamos a morte.
Entre plantas ̶ coqueiros e bambuzais ̶
o supremo mandatário deglute a nossa humanidade.
À caminho da segunda centena de milhar,
o chefe do jogo do bicho medonho continua sem paradeiro.
Quem o impedirá o testa de ferro insubordinado dos coronéis do dinheiro de continuar a jogar?
Há remédio
para evitar que muitos mais pais e filhos
estejam separados no próximo Dia dos Pais,
por obra e artimanha da desconsideração por brasileiros,
por obra e arte da estultice de eleitores brasileiros?

B.E.D.A. — Blog Every Day August

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Projeto Fotográfico 6 On 6 / À…gosto

Agosto de 2020 — Pandemia de Covid-19 grassando no País com a média de mais de 1.000 mortes por dia — por volta de 100.000 mortos oficialmente registrados, amplamente subnotificados. A direção da companhia indicou que poderíamos postar seis imagens à gosto. Escolhi algumas imagens que remetem ao passado. O presente indicado acima está um tanto estéril e o futuro não parece ser muito diferente, com tendência para ser um tanto enigmático, feito um jogo de azar.

 

6 on 6 agosto 4

Esta imagem foi colhida outro dia. Um fusca 1969 estacionado quase em frente à minha casa. 1969, assim como esse ratão, também foi o ano da mudança definitiva para a casa recém levantada no terreno 22 do loteamento realizado na antiga fazenda de fumo, na região da Vila Nova Cachoeirinha. Durante muitos anos, os pés de fumo nasceram a esmo em cada canto livre do quintal. O que ajudou bastante no controle dos piolhinhos que infestavam as galinhas que começamos a criar para completar o orçamento familiar. Tirávamos água do poço, tomávamos banho de canequinha, expulsávamos os cavalos que comiam a cerca feita de bucha (a planta), festejávamos a colheita de bananas, goiabas, abóboras e abacates, nos irritávamos com as picadas dos marimbondos. Eu adorava jogar futebol — balizas improvisadas com tijolos — bola improvisada com pano, recheio de papel e cordinha na rua de terra. Em dias de chuva, andávamos de chinelo, calças arriadas, até o asfalto, distante quase 2 Km para só então colocarmos os sapatos levados em sacolas. Tempos difíceis. Eu era feliz.

 

6 on 6 agosto 6

Essa imagem remete ao sincretismo religioso de minha mãe. São resíduos físicos de um tempo em que eu não compreendia como uma pessoa abarcava todas crenças possíveis em seu cotidiano. Além de acender velas aos “espíritos”, não via contradição em apresentar imagens díspares na prateleira. Um Buda gordo, inadmissível num asceta que jejuava frequentemente, se referia a símbolo de prosperidade. Assim como o elefante de costas. O Cristo em pedra sabão, apontava para a sua criação cristã, de primeira comunhão — a qual também fiz — crisma, missas dominicais e adoração aos santos. No entanto, seu nome — Maria Magdalena — já apontava para a tendência em ultrapassar os cânones e se ater ao teor herético da religião. Ela adorava ter o nome da 13ª Apóstola e, para alguns, mulher de Jesus.

 

6 on 6 agosto 7

Essas conchas estão há muito tempo conosco na casa de praia, onde estou. Porém é bem provável que os moluscos que as ocuparam possam ter vividos mais de um século, antes dos 40 conosco. Há moluscos que, devido ao metabolismo muito lento, chegam a mais de 500 anos, a depender da espécie. São prodígios do passado. Mensagens de eternidade em tempos de rápida deterioração do mundo que nos rodeia, em todas as suas formulações. A arquitetura dessas habitações é esplêndida. Construída pouco a pouco, enquanto cresce, sua natureza é de deixar, após a sua partida, um monumento a beleza e a transcendência, para quem conseguir-quiser ver. São templos dignos de oração.

 

6 on 6 agosto 3

Ao vir para cá, recebi essas toalhas embaladas em plástico. Segundo a Tânia, eu as recebi de presente em meu aniversário de meio século de vida. Nem ela, nem eu nos lembramos quem me presenteou. Eu não sou ligado a regalos. Talvez uma postura de defesa de alguém que dificilmente ganhava presentes quando garoto. Quando acontecia, geralmente eram roupas. Sei que essa impassibilidade é mal recebida, mas não consigo evitar. O meu aniversário de 50 anos foi um acontecimento inesperado para mim. Minha família disse que haveria uma festa a qual deveríamos ir. Era um domingo e eu queria ficar em casa, assistir a um futebolzinho ou um a filme. Fiquei de mal humor. Disseram que não demoraria. O Buffet ficava perto de casa e vi ali a oportunidade de me mandar a pé assim que fosse possível. Ao subir as escadas, pelo menos 50 pessoas me esperavam. Revistas, as fotos com a minha expressão de surpresa dizem tudo. Pessoas que não via há muito tempo, compareceram ao evento e me senti um tanto estranho ao perceber que fosse alguém que merecesse ser homenageado. Os presentes, alguns guardo como marcas, como a camisa do São Paulo F.C. com meu nome e número 50. Outros, pertencem ao passado. O da imagem, tem sido útil para enxugar o meu corpo a caminho dos 60 anos…

 

6 on 6 agosto 5

Da parte inferior do cacho da banana ainda imaturo, sai um pendão e, em seu extremo, destaca-se um cone de coloração e consistência diferenciadas (avermelhado-roxo), que é a flor da bananeira. É conhecida como buzina, umbigo, flor, coração ou mangará da banana. Costumo chamar preferencialmente de coração. Dois dos cachos produzidos, cortamos os corações. Deles, podem ser feitas excelentes saladas. Analogamente ao umbigo, quando cortamos o cordão, os filhotes-bananas se desenvolvem mais rapidamente. Deixados sobre a mureta, sem a seiva que os alimentava, murcharam pouco a pouco, até fenecerem. Umbigos ou corações — quedaram amargurados.

 

6 on 6 agosto 2A

A foto mais prosaica deixei para o final. Nela, apareço com a face taciturna, amplificada pela heterocromia dos meus olhos. Quase uma marca registrada da minha condição mental diante do que vivemos, a natureza cromática dos tempos atuais — verso, reverso, controverso — ganham melhor definição em foto em preto, branco e tons de cinza, amálgama-palheta da composição de cores da maldição em ser brasileiro.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

BEDA | O Dia Seguinte

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Ingrid e Gus, o australiano

Hoje, o dia seguinte, amanheceu frio e nublado. Agosto é um mês de mutações térmicas drásticas. O dia anterior, iniciado quente e ensolarado, foi se transformando gradativamente, até se precipitar em água.

AGOSTO (1)
Val Guimarães e Roseane “Poesia”, primeiras a chegar

Trabalhei muito. O que me ajudou a não pensar frequentemente sobre minha paixão tornada confissão. Lunna soube bem identificar um dos significados da frase anunciada em rede social: “A loucura nos faz cometer paixões.”.

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Cláudia Leonardi, a Mãe Literatura

Uma dessas paixões foi testificada por palavras e seria colocada em mãos e, eventualmente, decifrada pelos olhos de quem quisesse conhecê-la – criar-recriar-transformar a vida em cenas e vivências – por personagens que representam minha experiência nesta jornada de quem me lê e dela participa.

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Maria Gonçalves, fã da Scenarium

Essa magia que é viver pode estar sempre por um fio. Feito Agosto. Repentinamente, podemos mudar de “estado”. Somos, mas estamos. Tento registrar essa dinâmica, como escritor.

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Minhas filhas – Ingrid e Romy – e amigas

Espero ter alcançado, com Rua 2, sucesso nessa empreitada. Porque, sucesso, para mim, é isso – encontrar receptividade para o que tento mostrar. Ainda que seja por apenas uma pessoa. Ainda que a mensagem seja entendida de maneira totalmente particular.

AGOSTO (7)
Com Mariana Gouveia, que lançava “Corredores, Codinome: Loucura

Com um livro de contos, cada um deles é uma chance de sucesso e, naturalmente, de fracasso – incentivo na busca do aprimoramento.

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Com outro autor da Scenarium, o poeta Marcelo Moro

O que chamo de “queda no precipício” foi acompanhada por muitas pessoas no ambiente do Café. Com certeza, perturbamos a rotina do local. Eu vestia uma camisa e carregava um chapéu em tons parecidos com o da capa de Rua 2.

AGOSTO (9)
Destaque para Maria C. Florêncio e Joaquim Antônio, poetas da Scenarium

Amigos, parentes e leitores seguidores da Scenarium, reunidos para um congraçamento em torno da literatura – um acontecimento cada vez mais estranho em um país em que as mídias visuais e sonoras preponderam. Diferentemente do “esforço” de ler.

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Com Mister Scenarium – Marco Antônio Guedes

Foi uma noite prazerosa. Os sorrisos irradiavam sem querer. Risadas espocavam alvissareiras de encontros festivos. O encanto se estabelece simplesmente por todos estarem reunidos em torno de um projeto de vida – Lunna e Marco – seus mentores e anfitriões.

AGOSTO (11)
Com  Adriana Elisa Bozzeto, autora de Verbo: Proibido

A artesã da palavra e das palavras transformadas em livros, editora de ideias transmutadas em projetos de vida. Vidas lançadas em embarcações sem destino, até chegarem ao coração de alguém – porto inseguro.

AGOSTO (12)
Lunna Guedes, escritora-editora da Scenarium

Acordei cedo. Prometi para mim mesmo colocar este texto no blogue por volta das 11h de Brasília. Consegui apenas às 16h, pois a vida nos solicita para além do escritor, realizar as tarefas cotidianas.

AGOSTO (13)
Frida, solicitando atenção…

Quem me lembra disso é a Frida, que pede atenção e comida. É hora do almoço. Interrompo a minha escrita e a alimento, como igualmente as outras meninas – Penélope, Lola, Betânia e Domitila.

Comeram tudo… Foi um sucesso!

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari