5.5*

Às portas de completar 62 anos, posto esta minha interpretação sobre viver, realizada no dia 9 de Outubro de 2016*, data do meu aniversário. Talvez, faça outras. São como exegeses da história de um sujeito contraditório em busca de uma identidade coesa.

O que e viver, exatamente?

Estar a consumir o ar? Apenas deglutir, digerir comida e excretar substratos? Mover-se de um lado para o outro, em busca de visões que lhe comovam? Escutar sons que lhe movam, tocar peles que lhe aqueçam, beijar sabores em bocas outras, cheirar perfumes vários?

O que é viver, por certo?

Amanhecer nascido, entardecer adulto, anoitecer velho, descer ao túmulo no final do dia? Trabalhar para morrer cansado? Chorar, sorrir, tossir, engolir e vomitar, beber e maldizer a sorte de ser sem ter, de ter sem aproveitar? Gerar e criar filhos, enterrar os pais?

O que é viver, afinal?

Para mim, viver é poder fazer perguntas fundamentais… E ser respondido com melhores e mais profundos questionamentos… E obter como saldo uma única certeza — todos nós fomos criados para amar! Esse é um testemunho de alguém que sempre duvidou do amor, porque não se permitia amar. Sofri e fiz sofrer por não me aceitar como sou — um homem que ama… De todas as questões que me coloquei, chego ao resultado de que quero ser cinco vezes cinco mais cinco vezes cinco mais cinco um amante e amoroso ser…

Homem-Calcinha*

“Sou um macho da espécie Homo sapiens. sou feliz sendo um macho, gosto de parecer másculo e amar como um homem. Está tristemente enganado quem acredita que o macho tem como prerrogativa oprimir a fêmea de sua espécie para se sentir funcional. E por me sentir tão bem e ciente da minha masculinidade, posso me dar ao prazer de cumprir tarefas que alguns não atribuiriam a um homem, como estender calcinhas no varal. Fiz isso hoje, antes de sair para trabalhar e, repentinamente, me senti muito bem, quase realizado… Tantos anos antes, quem as vestem atualmente, usavam fraldas…”.

Por outro lado, estou ciente que homens mal formados construíram essa estrutura que tanto mal causam não apenas às mulheres, como também aos próprios homens, ao criar barreiras ao acesso de ser um humano de maior amplitude. Sinto lágrimas vir aos olhos a cada feminicídeo que é noticiado. Pela dor de quem sofre e também por vergonha. Sim, choro por motivos graves e choro também pelas belezas delicadas que encontro pelo caminho. Sou um desgarrado dessa turba machista que insiste em perpetrar crimes hediondos em nome de uma distorção como a de acreditar que tem domínio legal e assegurado por antigas e anacrônicas escrituras sobre a mulher.

Sou daqueles que acredita no amor e em amar as diferenças. Não creio que a mulher pertença a um gênero oposto, mas complementar. Sabendo que são mais completas do que nós em todos os aspectos, menos naqueles em que prevalece a testosterona e a força física, compensada pela resistência de espírito.

Na verdade, só ganharemos se nos afeminarmos. Ganharemos em predicados como resiliência, olhar meticuloso, percepção aguçada, dedicação, competência e senso estético. Qual homem consegue, como muitas das mulheres o fazem, se desdobrarem em tantas atribuições como as que são designadas pela Sociedade Patriarcal a elas por “dever de nascença” e, apesar das barreiras, buscar em serem melhores pessoas? 

*Parágrafo de 2016

Pelos (Des)Caminhos

Passageiro passo
Eu e mais tantos coletivamente motorizados
Por uma pracinha de uma única árvore larga
Do tamanho do abraço de oito homens
Nela
uma placa propagandeia:
“Alianças
a moda antiga”…
Terei lido errado
Na rapidez da minha passagem?
Uma lanchonete
Uma igreja
Um posto de gasolina
Pontos comerciais à direita do meu olhar
À esquerda
Padaria
Loja de tintas
Uma oficina
Quantas funções
Serviços
Precisões
Consórcios
Empresas
Dos quais somos presas
Não bastam as necessidades básicas
Temos que adquirir novas e variadas
Outras muitas
Vender e comprar desejos de consumo
Sem eles
O que nos move?
Amar?
Atravessar pontes sem ultrapassar portais?
Nos desvestirmos de roupas
E posições sociais?
Nos apoderarmos de emoções
E sentimentos?
De sermos mais do que o corpo
Nos proporciona de prazer
E transcender o gozo?
Alcançar o prazer de ser
Sem ter?
O que somos além de animais
Racionais que praticam irracionalidades
Identidade e idade
Cor e nacionalidade?
Já buscou dentro si o universo
E o multiverso?
O que você É
Sem o nome que carrega?
A ouvir o som eterno do silêncio
Consegue se imaginar sem tamanho
Sem o apego ao ego
Indefinido e infindo?
Deixaria de ser servo
E se tornar um com Deus?

BEDA / Elocubrações

Tenho por mal hábito discorrer sobre tudo e nada. Produzo elocubrações confusas e rasas, em muitas oportunidades. Em outras, viajo para fora do contexto ou acerto sem querer em coisas mais profundas e interessantes. Feito um pescador, tenho recolhido antigas publicações antes que sejam deletadas pelos seres invisíveis do Senhor Algoritmo ou seja lá quem for quem comande a Rede. Na época de BEDA, na falta de ideias novas, essas recordações vem bem a calhar.

PRISIONEIROS (2016)

Quem está solto? Quem está preso?…
As calopsitas passeiam pela gaiola a se sentirem seguras, mesmo com a aproximação de um suposto predador. As plantas do jardim estão cercadas para que elas não sejam prejudicadas por invasores. Da mesma forma, nós nos imaginamos protegidos por grades nas janelas, portas e portões de ferro… O que diferencia uns prisioneiros de outros? O que é liberdade?…

LUNAR (2016)

Pode ser a última Lua…
A última vez que atua…
Pode ser a sua última noite…
A derradeira hora do açoite…
O último abraço e o colo quente…
O último suspiro e o beijo ardente…
A última chance de perdoar…
A última oportunidade de amar…

PRINCESA ISABEL (2011)*

Vista da Praça Princesa Isabel, onde vemos o Duque de Caxias estacionado com o seu cavalo e seu braço em riste com uma espada, para sempre. À esquerda, abaixo, um catador de papel, figura onipresente na região e, mais ao longe, no horizonte, Cristo, no topo do prédio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, observa o domingo na Cracolândia. Bem ao fundo, temos o perfil da Serra da Cantareira — Em registro fotográfico de Março de 2009.

*Atualmente, a Praça Princesa Isabel está cercada por todo o seu perímetro por grades. Meses antes, estava ocupada por um acampamento de pessoas em situação de rua, viciados e traficantes de drogas, num amálgama que demonstra a evidente falha em solucionar as contradições do Sistema.

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelim / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi / Roseli Pedroso

BEDA / Quem Sou Eu Em Você

eu não gosto muito de mim isoladamente
mas quando estou consigo eu me amo em você
sou tão poderoso sou deus que busco
voltar à intimidade da criação
do início da vida explosão
que átomo a átomo abraço em seus braços
entrego a mim redivivo e me sinto homens
tantos que escapam ao domínio do medo
que teria o poder de amar suas mulheres
noites e dias tardes e alvoreceres
de continentes apartados pelos mares
tornar-me força única uma só ideia
toque particularizado em seu corpo
um planeta unido pantalassa-pangeia
renascido como quando a amei pela primeira vez
imenso e pequeno amado e intocável
diante de tanta infinitesimal grandeza
à luz da vida quando se expressa em choro
o som do universo exteriorizado
para dentro de meu peito inacabável
o fim é buscar o começo à procura do beijo
sugar a mama entranhar-se suar beber o sumo
línguas gemidos grunhidos urros falas e falo
faço vibrar preencho de sangue veias
que se aquecem
em ondas até verterem lágrimas leite e mel
sementes derramadas em solo impermanente
entre lábios nuvens dobras lençóis fronhas águas e areias.

Foto por cottonbro em Pexels.com

Participam do BEDA: Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Darlene Regina