BEDA / A Coreografia

Eu voltava do supermercado quando encontrei na calçada, à minha frente, um casal que caminhava de forma sincronizada. Ela à frente, ele atrás no mesmo compasso, movendo as suas bengalas como se a coreografia fosse antiga, aprendida com anos de prática. Diminuí os meus passos e apreciei a cadência do casal que compartilhavam a mesma incapacidade como a herança de décadas de convivência. Quase um sinal de amor mal percebido com quem convive com eles. Ao decidir passar ao lado deles, percebi que beiravam os oitenta anos. Muitos passos à frente, ao olhar para trás, os vi entrando no condomínio próximo. Apesar das bengalas, havia uma certa leveza no caminhar e a pouca velocidade dos seus passos conferiam algo como um sentido de eternidade à cena.

As Amigas

Em 2022 publiquei:

“Esse #TBT de 2016 é muito especial para mim. Além da Bethânia, recém chegada, mais afastada, vê-se à esquerda, Frida, que há uns três anos deixou de estar conosco fisicamente e, à direita, Domitila, que encantou-se há pouco. Não são poucas as vezes que acabo por pegar vasilhas a mais para dar comida para as meninas… e me lembro que elas não precisam mais se alimentar de ração, mas apenas do amor que não lhes faltam em nossas lembranças” 

#amoresfamiliares #amigosnaturais

DIA DOS ENAMORADOS

Meu bem querer, distante como está (fisicamente), disponho da memória e da imaginação para lhe alcançar a pele ao toque de minha mão. Sei que pode parecer uma desculpa oportunista, mas fico a imaginar se consigo fazer com que saiba que eu a desejo para mim. Egoísmo? Sim! Quando queremos algo ou alguém, pensamos apenas no que isso possa oferecer de bom, de belo, de prazeroso, de transcendente para além do aqui e do agora. Mas o tempo passa e sofremos pela ausência mútua de nossos corpos se unindo, bocas se entretendo de volumes e reentrâncias, invadindo abismos ao som de frequências guturais.

Há namorados e os enamorados. Os primeiros se sentem eternos, mas passam. Os segundos apreciam a sensação de permanência dessa energia ao sentir o amor ultrapassar as fronteiras do tempo e do espaço. A lembrança é como se fosse a própria presença na ausência. A saudade é pungente, dói. Quando a matamos, renovávamos o seu poder. E sofremos. Lágrimas substituem o suor. A dor se faz onipresente como se fosse corroer nossos corações, por amarmos.

Qual seria a alternativa? Deixarmos de nos ver, de nos ter, de nos entregarmos? Ah, meu bem querer, neste dia comercial, prefiro ser aquele que é enamorado de você, um sentimento de permanência, sinónimo de estabilidade. O que é uma contradição. Porque quem ama vive na corda bamba. Isso não é desejável, mas compõe a vivência de quem se apaixona. A paixão é explosiva e deixa um rastro de mortos pelo caminho. Só sobrevive quem a ultrapassa para entender que esse fogo queima, mas também nos regenera a alma encarnada. Estamos vivos e voltaremos a nos encontrar sentir peito contra o peito os corações a bater. As línguas a falarem a linguagem do amor.

Feliz Dia dos Enamorados!

Foto por Sergio Fdez em Pexels.com

10 / 03 / 2026 / Lola Maria

Lola Maria e a sua língua de rapidez sônica.

Na madrugada, deitada em sua caminha, junto à cama do casal, a Tânia pôde constatar que Lola Maria fez a sua passagem. Sou daqueles que entendem que a consciência evolui a cada vivência em seres de organizações físicas cada vez mais sofisticadas. Quem convive com cães, gatos e outros animais de estimação percebem que, de alguma forma, eles se comunicam conosco, desenvolvem a intimidade de quem compreende quando estamos emocionalmente abalados, tristes, depressivos e, da mesma maneira, ao contrário. E nem é preciso a expressão verbal, mas o olhar de quem não tem medo de nos ver como somos ou estamos.

Lola Maria foi encontrada há dez anos correndo esbaforida pelas ruas. Encontrada pela Romy e pela Ingrid, foi trazida para nós. Assim, a cachorrinha magrela e sapeca foi crescendo… para os lados. Muito gulosa, o seu cardápio era extenso em termos de gostos: banana, mamão, abacaxi, melancia, ovos mexidos e ração molhada. Quem chegava em casa nem sempre era bem recebido. Para alguns, os “lambeijos” mais rápidos da Zona Norte de São Paulo muitas vezes invadindo as bocas desavisadas das visitas. Ou, para a nossa chateação, mordidas traiçoeiras em calcanhares menos protegidos.

Nas últimas semanas, começou a crescer a nossa percepção de dores nas costas. Há mais tempo ainda, uns meses, havia começado a engasgar até ao tomar água. Com a nossa crescente preocupação, iniciamos consultas com veterinários para minimizar seu sofrimento, mas certamente a idade de cerca de 12 anos começou a cobrar o seu preço. Lola Maria, minha netinha, filha adotiva da Lívia, deixará saudade, que eu considero um sentimento de “presença na ausência”. Assim como os amores anteriores — Tarzan, Gita, Fofinha, Sandy, Lua, Penélope, Dorô, Frida, Dominic, Elvis, Baleia, Cotoco, Índie e vários outros amores — esses seres nos fazem pessoas melhores, mais atentas às nuances de sentimentos tão delicados quanto poderosos como o amor incondicional que eles nos devotam.

Lola, você nunca deixará de passear pelos pensamentos nas ruas da memória de nossa família enquanto vivermos!

Lola Maria junto às mangas que caíam da nossa mangueira, às quais amava se lambuzar…

08 / 03 / 2026 / “Minhas Mulheres”*

Mulheres às quais pertenço: Lívia, Ingrid, Tânia e Romy

Hoje é o Dia das Minhas Mulheres, internacionalmente comemorado. Em todo mundo, tecem-se loas a ela, deitam-se versos em sua homenagem, fazem-se referências à sua luta pela emancipação no trabalho e nos estudos, além da sua capacidade de salvar o planeta pelo amor.

Por uma mulher eu nasci – minha mãe, Madalena – e por outras eu renasci, Tânia – minha esposa e namorada –– Romy, Ingrid e Lívia –– minhas filhas. Quando digo “minhas”, coloco em proporção contrária o tanto que sou “delas”. Pertencem-me, porque fazem parte de mim, de minha alma, de meu corpo. Mesmo a minha mulher por matrimônio entranhou-se de tal modo em minha pele e avançou tanto para dentro de mim, que não consigo imaginar-me sem a sua presença. Reciprocamente, de uma maneira extraordinária, e talvez não tão benéfica, interferi na proporção de seu corpo ao longo do tempo, ao gerar as nossas filhas.

Enfim, amo as minhas mulheres e confesso que as amo muito mais por serem mulheres, esses seres que me fascinam e busco codificar, muito provavelmente em vão. Talvez seja esse o segredo sobre elas – amá-las sem entendê-las, com todo o entendimento de saber que não as decifraremos totalmente. E olha que coisa incrível — pode-se continuar a ama-las ainda depois que se retiram de diante de nossos olhos e até muito mais, talvez. De outra maneira, como compreender que a minha mãe esteja tão mais presente em meus pensamentos, mesmo após o seu passamento físico?

*Texto e imagem de 2012