BEDA / Amor Próprio

Ouvi uma canção em que o refrão o cantor expressa: “Eu gosto mais de você do que de mim”. Às vezes, eu entro nessa seara de analisar frases soltas, situações que se desenvolvem diante de mim como se tentasse entender como funcionam as relações humanas. Eu fiquei afastado voluntariamente das pessoas durante alguns anos. Favoreceu esse comportamento por causa de circunstâncias em que passei temporadas sozinho em casa na adolescência porque a minha mãe estava cuidando da madrasta do meu pai e após o seu falecimento, meus irmãos foram morar com ela na casa distante 2Km de onde vivia. Durante esse período mergulhei fundo nas filosofias orientais e desenvolvi alguns sintomas que se assemelharam à síndrome do pânico. A minha timidez ficou mais profunda e foi com muito esforço que consegui sair desse processo penoso isolacionista.

Nessa época, fui desenvolvendo uma autocrítica em que só via defeitos em minha personalidade. Afora um sentimento de inadequação que me impediria de que eu viesse um dia a ter algum relacionamento amoroso. Cheguei a flertar com a vida monástica, ainda que não fosse católico. Mas era cristão e franciscano, desejei ser frei. Acabei por começar a acalentar a ideia de me jogar na vida através do encontro com uma mulher. Com ela, formei uma família e fico feliz por amá-la como algo que apesar de ter nascido de mim, é bem melhor do que eu poderia desejar. Mas o meu amor próprio ainda enfrenta percalços se bem que defenda os meus defeitos com bravura de quem precisa deles para se reconhecer. Nesse caso, minha autoestima considero um tanto precária e percebo que gosto mais das minhas meninas do que eu de mim.

Mas sei que se eu não me dedicar à minha melhora como pessoa, não conseguirei ser amoroso comigo mesmo o suficiente para que o meu amor pelos outros seja valorizado. Amar é uma dádiva tanto para quem ama como para quem recebe esse amor. E deve ser cultivado para que floresça tanta interna com externamente, não importando as variações quanto a questão de gêneros.

Foto por Katerina Holmes em Pexels.com

BEDA / O Ciclo Do Amor

Os sentimentos humanos são características supostamente restritas ao Homo sapiens. Mas a relação que desenvolvemos ao longo de milênios de interação com os outros animais demonstra que a energia criada pela interação entre nós e outras espécies gera relacionamentos em que o amor que sentimos ultrapassa as fronteiras interespécies. Ao longo dos anos, estabeleci a crença que assim como nós, seres humanos, os outros seres estão em desenvolvimento da autoconsciência. Quando retornei do afastamento dos meus companheiros não humanos, percebi o quanto sofreram. A Bethânia, com a qual tenho uma conexão mais íntima, começou a me vigiar com os olhos por onde ia. Já foi tema de uma das crônicas de REALidade, um dos meus livros, em que discorro sobre o seu Ciúme. Amar seres supostamente mais simples diz mais sobre nós do que sobre eles. Mas creio que amá-los os ajudam a se desenvolverem na senda mais complexa da Vida. E não duvido que se torna um ciclo virtuoso que também nos ajuda a nos tornarmos seres mais evoluídos.

Nesta imagem acima, realizada em 2021, se deu o reencontro com a Bethânia, uma das minhas filhas de quatro patas após as quatro Luas de Fevereiro daquele ano. Estive fora para ajudar uma amiga das minhas filhas num projeto de alimentos leves. Participei entregando as encomendas com uma bicicleta — já que não dirijo automóveis — o que me ajudou bastante na recuperação da crise de ansiedade que desenvolvi naquela época. A minha atividade profissional, ligada a eventos, foi a mais prejudicada naquela época em foram suspensas todos as reuniões de pessoas em ambientes fechados. Foi uma medida necessária  a qual apoiei. Mas isso não evitou que tivesse uma sensação em que eu adoeceria como havia acontecido outras vezes. Sou uma pessoa que desde pequeno, somatiza. Foram vários eventos em que joguei para o corpo as dores mentais. Percebi que o fato da falta da atividade profissional, para além da cessação de ganho econômico, enfrentava um contexto político em que via a revelação de um País que me agrediu a consciência tornou todo o contexto que vivíamos então uma espécie de pesadelo. Sabe-se agora que os 700.000 mortos foram subnotificados. Provavelmente, ocorreu o triplo de casos mortais. Fora a questão política em que o Negacionismo representou um retrocesso como se voltássemos para mais de um século antes em que houve a Revolta da Vacina, em 1904. O choque que adveio com tal quadro de recuo histórico só não foi pior em consequências piores para mim porque pude escrever um livro em que expunha as circunstâncias do que ocorria — Curso De Rio, Caminho o Mar — que representou um suporte terapêutico.

BEDA / Romy

Há 37 anos vinha à luz do dia a primogênita da Família Oliveira Ortega. Quando chegou depois de um processo longo e doloroso de trabalho de parto, acabou por se decidir pela cirurgia para retirá-la do útero da Tânia. Quando a vi pela primeira vez, estava envolvida em panos simples, assim como era simples a estrutura da Maternidade da Casa Verde, já fechada. A Tânia, experiente na sua profissão de Enfermeira, pediu que eu a retirasse de lá urgentemente. Na época, ela trabalhava no Albert Einstein, então diante da enorme discrepância de qualidade de atendimento, ela não viu alternativa senão ir embora, com 16 horas de operada. Em casa, percebemos com o tempo que a icterícia que eventualmente ocorre com recém-nascidos, não declinava. Foi o início de nossa saga para entender o que ocorria. O resto é história de alguém que redefiniu a minha vida e a de muitas outras pessoas. A 12 de Agosto de 1989, o grande sucesso musical no Brasil era “Bem Que Se Quis”, de Marisa Monte.

por mais que eu quisesse ser feliz
nem saberia dizer como se daria
a trama que envolveria tanto amor e dor
a vida que medrava como flor
delicada
que deveria ser cuidada
todos os dias todas as horas
que orava que o sofrimento não se desse
que o seu corpo-flor sofresse
eu feito um jardineiro
em que doía o coração por não poder evitar
que o vento frio lhe arrebatasse
a pele o peito braços pernas cabeça
mas o espírito leonino persistia
a lhe conduzir o caminho
a lhe angariar simpatia
a trazer amizades e alegria
a agora mãe de Cora e Coralina
cuida de vidas dependentes
gatas que são vorazes por comida
assim como a mãe é pela vida
que a sagrada família perdure
que a alegria a cure em sua passagem
e que os momentos de felicidade
seja a marca de sua mensagem…

BEDA / Salivando

a invernar
debaixo das cobertas salivamos
você cavalga as minhas coxas enervadas de músculos
quase goza em delírio
nossa última refeição uma maçã com nossa saliva
alimenta nosso desejo em parte
mas queremos praticar a nossa arte
de amar nossas bocas ativas unidos
línguas que falam todas as línguas
e exprime grunhidos
de prazer e entrega
nossa busca cega em descobertas
quando nossos sexos se encontram
entradas e saídas em coreografia incessante
cada vez mais acelerada caminhos sem interdição
corpos em constante ação
quem nos julga são aqueles que não aceitam
os nossos pecados porque não são os deles
são vítimas do desamor do horror
de não se amarem uns aos outros
e
infelizmente
não
são
poucos…

Foto por Moussa Idrissi em Pexels.com

BEDA / A Coreografia

Eu voltava do supermercado quando encontrei na calçada, à minha frente, um casal que caminhava de forma sincronizada. Ela à frente, ele atrás no mesmo compasso, movendo as suas bengalas como se a coreografia fosse antiga, aprendida com anos de prática. Diminuí os meus passos e apreciei a cadência do casal que compartilhavam a mesma incapacidade como a herança de décadas de convivência. Quase um sinal de amor mal percebido com quem convive com eles. Ao decidir passar ao lado deles, percebi que beiravam os oitenta anos. Muitos passos à frente, ao olhar para trás, os vi entrando no condomínio próximo. Apesar das bengalas, havia uma certa leveza no caminhar e a pouca velocidade dos seus passos conferiam algo como um sentido de eternidade à cena.