BEDA / Luz & Sombra

Há dias de luz que nos ofuscam a visão
Enquanto estamos quase cegos
Sombras nos cercam como que atraídas
Para o abismo que nos tornamos
Antes, evitava pensar estando assim
Agora prefiro mergulhar em queda livre
Penetrar em profundidade no meu eu
Saborear a falta de referências sobre a vida
Beijar a possibilidade da morte na boca
Fazer amor com o obscuro e a impermanência
Num triângulo amoroso com a imortalidade
Voltar a respirar acima da superfície
Me assenhorar de mim e dizer simplesmente
Sim!

BEDA / Notas De Agostos*

Para compensar o erro de tomarmos a estrada errada, nos deparamos com o outro lado do Pico do Jaraguá — o ponto mais alto da Cidade de São Paulo. Logo depois, retomamos o caminho. Quilômetros a mais, gastos a mais, fruição a mais. Muitas vezes, pagamos por nossos erros com o maior prazer do mundo… *(2015)

Sol amarelo do Super Homem, um alienígena que deu de cair no Meio-Oeste americano para confirmar o poder da grande nação do norte como líder da liberdade vigiada e do Capitalismo. *(2015)

Frio e nebulosidade. Clima de serra, por aqui… Recomenda-se o abraço apertado de seu amor. *(2014)

Poder Extraordinário

Como não temos controle sobre tudo, jovem imberbe invadi o meu interior com questões existenciais que implicavam em quase total paralisia. Nunca seria eu, por exemplo, a chegar em uma menina na qual estivesse interessado — se bem que todas as mulheres me interessasseem — mas do pior modo. Como se fosse um vampiro que sugaria as suas energias e delas me alimentaria de mistério. Sim, porque a mulher — qualquer uma — carrega essa marca de um poder misterioso que não tem a ver com o poder da criação, ainda que tenha. Ou com o poder da beleza, ainda que seja bela, de uma forma ou de outra. Ou com o poder de apenas num sorriso abrir caminhos como se fosse um trator. Ou com o poder da sedução — não apenas física, ainda que seduza — mas com o misterioso enlace que consegue conceber entre o céu e o inferno, um percurso ao qual ela acessa derrubando as certezas de desavisados. Alguns homens, de tanto amá-las, querem ser como elas. E assim, se transmutam. Alguns homens, cientes que não conseguem alcançá-las, querem sufocá-las e as matam para se sintam donos de suas mortes, já que não podem ser das suas vidas. Entre tantos outros homens, há os como eu, que as amam, apesar de não as entender ou, por isso mesmo, aceitam participar de suas existências apenas para homenageá-las. E reverenciar o poder misterioso que ostentam a cada olhar. Indecifrável para quem não sabe ou não quer enxergar.

Foto por Angela Roma em Pexels.com

BEDA / Meus Anos 50*

Vivo meus anos 50. Mais um pouco, inaugurarei a sétima edição anual da década. Este decênio foi totalmente diferente do que idealizei. E completaria: graças a Deus! Ao final dos meus Anos 40, tive um episódio de saúde que modificou minha interação com a vida. Cinquenta anos em cinco – emblemática frase de Juscelino Kubistchek — apenas emprestava números ao desejo de fazer crescer o país dos Anos 50 — cuja a inauguração de Brasília, no início dos 60, foi um marco. Nestes meus Anos 50 particular, esperarei ter crescido, ao final de tudo, cem anos em dez — a crise hiperglicêmica foi a minha marca inicial, em 2007.

Definir datas como pontos cardinais, com números redondos parece ser uma tentativa para justificar situações que teriam começo e fim, sem causas anteriores e repercussões posteriores — uma espécie de “Big Bang” histórico, assim como anuncia a frase: “nunca antes, neste País…”. O Brasil parece ser uma nação de ciclos, sempre a se repetir, rota sem saída para o mar, com o apoio luxuoso de nossa falta de memória. Tento manter a lembrança daquilo que me levou a enfrentar determinadas situações. Sem isso, não há como saber como cheguei aonde estou. Adotei a imprudência de me arrepender apenas do que não fiz. No mais, apesar da tentação de deixar tudo ao “acaso”, se é que ele existe, sei do rumo que tomei. E das consequências que ele gerou.

O contexto em que vivo os meus Anos 50 tem sido incrível. É como se tivesse aberto os meus olhos apenas agora, nos meados do meu século de vida. Eu me deixei levar pela aventura de amar — dizem que o mocinho morre no final. Eu retomei os estudos, entre compromissos profissionais e pessoais. Lancei o meu primeiro livro e estou prestes a lançar o segundo, dia 25, antes que este Agosto se encerre**. Nunca me senti tão pleno, talvez viva o ápice que todos visitam, antes do fim.

Ainda aguardando as surpresas que me reservam esta era, já vislumbro as possibilidades dos Anos 60. A década histórica do século passado, na qual nasci, foi uma das mais importantes dos 1900. De alguma forma, aglutinou todos as potencialidades que vivemos depois. Marcou mudanças estruturais que ainda repercutem nos dias atuais. Guerras (frias e quentes), luta pelos direitos civis, emancipação da mulher, revoluções político ideológicas e comportamentais, viagem à Lua e a propaganda da ideia do “País do Futuro”, entre tantos fatos possíveis.

Saúdo a todos e a todas que estão chegando aos seus próprios Anos 50. Saberão que a vida ganha frescor, com o início de novos e estimulantes formatos e término de antigos e infrutíferos projetos. Muitas vezes, com pesar, porém com convidativos e bem-vindos significados.

*Texto de 2018

**O livro de contos curtos “RUA 2”, editado pela Scenarium Plural Livros Artesanais, foi lançado em 25 de Agosto de 2018