Arpoador

Arpoador Beach, Devil’s Beach, Ipanema district of Rio de Janeiro – Brazil, South America

quero… desejo… vou de encontro… invado… devagar…
passos silentes sobre a areia e a pedra…
o meu corpo recebe em ondas as águas mornas do abraço marinho
desta manhã que se anuncia receptiva ela também me deseja
as águas se mostram aparentemente turbas rebeldes
consigo ler a sua dinâmica de mulher apaixonada fogo em forma aquosa
os meus membros a penetram como um cavaleiro de espada em riste
em uma batalha que já perdi sei desde o início mas guerreio
fardo de homem que ao oceano ama e por ele se derrama em sal
eu o decomponho e o absorvo em minha mente
de querer amoroso marolas se disfarçam de amantes
desfaço-me em pequenas porções de moléculas de oxigênio e hidrogênio
o meu ego apartado de mim é lançado no mar profundo
me entrego ao beijo da amada no amanhecer revelador
raios de sol por testemunha
de que sou seu amor morro para esta existência em gozo
transformado em milhões de gotas
a rebater na arrebentação junto às pedras do arpoador…

Mentiroso*

A Hora Tardia (1959), de Edward Hopper

Eu aprendi a mentir por amar
Por uma paixão fora de hora
Fora de quadro
Sempre a procura de um quarto
Por pelo menos um quarto de hora
Para devorar e ser devorado
Urgentemente…

Ah, amor sem perdão
Devotado à perdição
Total
Irremediável
Inadiável
Verdadeiro, minto
Para tê-lo
Senti-lo
Sê-lo…
Sou uma mentira que ama!

*Poema de 2015b

#Blogvember / Aviso Prévio

… as palavras fogem sem prévio aviso (Nirlei Oliveira)

Foto por Tima Miroshnichenko em Pexels.com

Lidamos com as palavras, nós, escritores, com um amor surgido desde cedo. No entanto, há momentos em que as palavras fogem sem prévio aviso. Como pássaros arredios, batem asas e fogem de nossas gaiolas em formato Times New Roman. Nossas mentes não conseguem as seduzir com comidinhas de letras apetitosas e água fresca de linhas retas. Desdenham de nosso apreço, tripudiam de nosso desejo em revelá-las belas e faceiras para serem lidas com prazer para o descobrimento de mundos e personagens.

Isso, quando não nos enviam a requisição de uma Carta de Aviso Prévio, se demitindo de nossa empresa de montagem de histórias, depois de greves em que fazem paralizações sem reivindicações precisas, apenas para nos atrapalhar, como se não gostassem de nossa gestão. Querem nos confundir. Dão sinais de acordo, mas desistem de diálogos cara a cara na mesa de negociações. São veículos de expressão tiranas. Sabem da importância que têm para quem precisa delas como um náufrago de numa ilha deserta precisa de um barco para voltar à civilização.

O que sei é que um dia elas também sentirão saudade de quem as ama. Voltarão sôfregas por serem utilizadas no afazer de romances, poemas, narrações, prosas, descrições, enfim serem escritas. Pousadas na tela ou no papel, baterão asas apenas na imaginação. Migrarão para livros e computadores, páginas. Gerarão emoções, inflaram sentimentos, provocarão efeitos desejados e insuspeitos em quem vier as ler. Palavras são difíceis de lhe dar, mas quem sofre por elas em bem dizê-las, as bendirão durante toda a sua existência…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Morte Saborosa

— minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia (Mariana Gouveia)

Foto por mododeolhar em Pexels.com

calor infernal
gotejo de graça
lambuzo de suor a quem toco
sinto sede e minha língua sente o seu sabor
e a sensação de fome se amplia
desejo de bocas e becos
o ventilador do teto
espalha o ar quente pelo quarto
enquanto nossos corpos se incendeiam
como queimadas na amazônia
texturas próximas horas quebradas
entradas fendidas exploradas
líquidos se vaporizam se esvaem
para lençóis e peles
pelos unidos em tranças emaranhadas
línguas se digladiam para encontrar
a vencedora na peleja que terminará
em morte saborosa momentânea
até que o desejo volte avançar
sobre a secura do mundo inundado
de nosso amor…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

#Blogvember / Viagem Interrompida

Entre sucessivos solavancos projetam veias de anil (Rozana Gastaldi Cominal)

Foto por Aliaksandr Shyliayeu em Pexels.com

busco me encontrar em você
que está onde?
onde eu me encontro em você?
observo às formigas que se reúnem em torno
de sua saliva que despencou da boca molhada
sou como elas tentando beber de suas afluências carnais
sou como a paleta do pintor plena de cores de meu pincel a jorrar
na tela entre sucessivos solavancos que projetam veias de anil
como se pollock incontrolável fosse a aspergir sêmen colorido
em seu corpo de ente ser pessoa mulher em fuga de mim em si
momento sentimento emoção violenta que lhe abençoa a existência
de fêmea senhora de si em mim a perfurar rasgar-me feito faca cega
que me mata me renova em revolucionários movimentos de subversão
múltiplas versões de nós espelhares — tesão
teso peso uso confuso escuso difuso intruso abuso de poder vil
sem saídas apenas entradas e bandeiras morte de etnias da terra nova
dominação e danação em invasões de tabas arrasadas
não é amor é horror de querer tanto que se quer partir e partir-se
em pedaços e espaços onde você ocuparia toda a extensão
de vazios e nadas por onde descaminho
perdido em viagem interrompida
pela via láctea derramada de flores florestas
de estrelas frias e solidão…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Suzana Martins