5.5*

Às portas de completar 62 anos, posto esta minha interpretação sobre viver, realizada no dia 9 de Outubro de 2016*, data do meu aniversário. Talvez, faça outras. São como exegeses da história de um sujeito contraditório em busca de uma identidade coesa.

O que e viver, exatamente?

Estar a consumir o ar? Apenas deglutir, digerir comida e excretar substratos? Mover-se de um lado para o outro, em busca de visões que lhe comovam? Escutar sons que lhe movam, tocar peles que lhe aqueçam, beijar sabores em bocas outras, cheirar perfumes vários?

O que é viver, por certo?

Amanhecer nascido, entardecer adulto, anoitecer velho, descer ao túmulo no final do dia? Trabalhar para morrer cansado? Chorar, sorrir, tossir, engolir e vomitar, beber e maldizer a sorte de ser sem ter, de ter sem aproveitar? Gerar e criar filhos, enterrar os pais?

O que é viver, afinal?

Para mim, viver é poder fazer perguntas fundamentais… E ser respondido com melhores e mais profundos questionamentos… E obter como saldo uma única certeza todos nós fomos criados para amar! Esse é um testemunho de alguém que sempre duvidou do amor, porque não se permitia amar. Sofri e fiz sofrer por não me aceitar como sou um homem que ama… De todas as questões que me coloquei, chego ao resultado de que quero ser cinco vezes cinco mais cinco vezes cinco mais cinco um amante e amoroso ser…

Rebelião*

Bethânia, na mureta. Embaixo, da esquerda para a direita: Domitila, Dominic e Arya.

— Então, cachorrada, precisamos nos organizar para exigir certas regalias!

— Quem é você para liderar a turma, Bethânia? Eu sou a mais velha aqui!

— Eu sou a queridinha do papai e da mamãe, Domitila! Você sabe disso!

— Eu não gosto de você! Você implica comigo!

— Ah! Desculpa, Dominic… Tenho ciúme! Perco o controle!

Tudo bem! Qual o seu plano? Como é que voltaremos a dormir na sala?

— Vocês, na sala! E eu, no quarto! É simples! Vamos recusar carinho!

— Eu gosto tanto de dar e receber carinho!

— Ah, Arya! Você é tão carente!

— Mas eu gosto…

— Todas nós temos que estar de acordo, Arya!

— Tá bom! Vou me esforçar…

— Ainda bem que ele não entende o que estamos latindo… Tá lá, tirando foto… Ele nos ama…

— Nossa! Ele é tão fofo!

— E cuida de nós! Prepara e dá ração com misturinha…

— E faz um carinho tão gostoso! Olha! Ele vai descer…

— E aí, meninas? Está tudo bem com vocês? Vamos descer?

— Au! Au! Au! Sim! Sim! Sim!

— Au! Au! Quero carinho na cabeça, como só você sabe fazer!

— Au! Au! Passa a mão no meu pelo?

— Au! Au! Eu quero comidinha, de novo!

— Au! Au! Sai de perto dele, Dominic!

*Tentativa de rebelião realizada em 2021

Temporizador*

Com o temporizador.
Como contemporizar o tempo com o corpo e a mente?
Como, quando muitas vezes a mente voa para além e o seu corpo começa a sentir o peso dos anos, retardando o seu passo?
Como temporizar a dor, para que saibamos o seu tempo e lugar?
Como continuar, quando em tantas oportunidades, devemos priorizar o compromisso marcado no tempo para depois apostarmos no dia em que teremos tempo para estarmos juntos de quem amamos?
Ao final de tudo, creio que haja um temporizador universal que adia o tempo fatal para o nosso corpo, enquanto eterniza o nosso espírito ele se chama amor…

*Texto e imagem de 2014

BEDA / Labaredas

não há uma labareda igual a outra…
serpentes dançantes que queimam
a imaginação de quem é água
fulgurantes figuras que se imiscuem
umas às outras em ardência
seus corpos fluidos em travessuras
se devorando em envolvente quentura
são amores flamejantes sem mágoa
que alimentam o seu fogo
com crepitantes achas de lenha
enquanto o oxigênio silenciosamente
entrega a sua alma à extinção
os acordes de estalidos e pausas
marcam a canção da última dança
antes que tudo termine em cinzas
mas qual destino melhor
do que morrer consumidas de amor?

Poema participante do BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins Cláudia Leonardi