A minha luta constante, interna, é contra a Vaidade (mental, não física) e o Egoísmo. Inveja, presumo não ter. Pelo simples fato de que eu, sendo eu, não posso desejar ter o que o outro tem, na aparência, sem saber o que outro vive profundamente. E eu prezo muito a minha profundidade, muitas vezes indecifrável para mim mesmo.
Eu, sendo um mistério em meu âmago, quero continuar a me descobrir. Em conversa informal com a Romy, me dei conta de uma coisa muito simples e que, por isso mesmo, me era quase invisível: se desejo o Bem para a Humanidade, devo necessariamente desejar o meu próprio bem. Não devo considerar a isso como Egoísmo, mas como Altruísmo. E desejar o bem-estar do próximo em mim mesmo, o ser mais próximo de mim, é só o começo.
Se eu não estiver bem, não há como compartilhar o bem-estar. Se estou sofrendo, não há como enxergar a Paz para além do imediatismo limitado pela dor a ser superada. Para amar ao próximo como a mim mesmo devo, antes de tudo, amar a mim mesmo e, em mim, a minha humanidade. Que todos tenhamos um dia melhor. Que todos possamos nos valorizarmos individualmente e nos amarmos coletivamente. E humanamente…
*Texto de 2021. O discorrido acima parece ser de uma obviedade “ululante”, como diria Nelson Rodrigues, mas preocupado em que estava em vencer o meu alheamento a muitas situações cotidianas, incluindo pessoas, me feria o tempo todo, aceitando o sofrimento de bom grado, como se fosse uma punição bem vinda. Mais um sintoma de Vaidade, eu diria. A recomendação feita por Jesus de Nazaré aos seus seguidores — “ame ao próximo como a si mesmo” — relativamente pouco tempo antes me pareceu evidenciar que a primeira parte da sentença só teria valor se eu me amasse de modo a espelhar e espalhar esse Amor para outro, compreendido como partícipe da minha jornada rumo ao autoconhecimento.
Eu nunca cri no Amor. Ou melhor dizendo, nunca cri no Amor romântico. Sem sair do lugar comum, um exemplo da força do Amor senti vibrar em minhas fibras através da Dona Madalena, minha mãe. Ela foi importante para entender que havia essa energia que impulsiona as rodas da História. Mas não, não sou daqueles que acreditam que “Amor, só o de mãe”*. Duas ou mais pessoas podem desenvolvê-lo de forma salutar, sem o envolvimento de sentimentos negativos que surgem no rescaldo do incêndio que podem provocar se não forem conscientes. Ainda que a “consciência” total do que sentimos tenha significados múltiplos que desconhecemos conscientemente.
Ouço o meu Grilo Falante quase urrar de tanto rir, mas SEI que sem o Amor sequer existiria seres humanos caminhando pela face da Terra. O poder do Amor é tão grande que tanto Ódio espalhado não prevalece e cause a extinção da espécie humana. Tenho por mim que grãozinhos dessa energia tem impedido que montanhas de maus sentimentos produzidos a esmo progridam em proporção geométrica e destruam continentes inteiros num átimo.
Porém, a contradição maior reside justamente na instituição o Dia do Amor. Contido nas 24 horas do dia 14 de fevereiro – Dia de São Valentim – quando se comemora o Dia dos Namorados na Europa e Estados Unidos. São Valentim originalmente foi um Bispo da Igreja Católica que celebrava casamentos clandestinos. Viveu no Século III, marcado por seguidas guerras. O Imperador Cláudio II proibiu o casamento de soldados, supondo que sem ter famílias para quais voltarem, tornavam-se melhores combatentes. Preso e condenado à morte, Valentim recebia cartas e flores de pessoas agradecidas por tê-las unidas com a benção divina. Acabou por se apaixonar pela filha cega de um carcereiro. Milagrosamente, a fez enxergar novamente. Em 269 D.C., a 14 de fevereiro foi executado, deixando uma carta para seu objeto de amor romântico se despedindo com a frase: “De seu Valentim”. Em 496, o Papa Gelásio o declarou Santo. A intenção era que seus feitos fossem recordados, incentivando a união de casais. Talvez, na tentativa de aumentar o rebanho de fiéis. Duvidam?
O interessante é que o Amor, em sua concepção mais profunda, nunca foi o principal motivo para a união dos casais no decorrer do desenvolvimento da Sociedade. Outros interesses entravam na conta de pessoas que buscavam a associação familiar. Talvez, nas classes econômicas menos abastadas o interesse romântico perdurasse sobre o material, mas certamente nas classes mais aquinhoadas e nos setores dirigentes, o Amor atrapalhava mais do que ajudava. Não era incomum que nessas esferas os acordos propusessem que relacionamentos independentes fossem aceitos para satisfazer ao sentimento de mútuo pertencimento por Amor. Alguns diriam que a Paixão, ingrediente que embaralha o entendimento das pessoas, estimula o aumento da frequência cardíaca e acelera a velocidade da corrente sanguínea – sintomas desequilibradores de ordem física – seja mais preponderante em detrimento da atração pela beleza espiritual da parceria.
Não tem como quantificar nas forças envolvidas num relacionamento, quais são mais ou menos relevantes. O que sei é que a mulher, parte “fraca” no elo engendrado no Patriarcado, encontrou maneiras de fazer prevalecer os seus desejos e preferências em vários níveis, incluindo o sexual. Não foi incomum (assim como não é) que filhos de vários homens fossem e sejam de outros progenitores fora da equação matrimonial tradicional, ou por lado, é um dado mais tradicional do que não.
Gerado no Pathos, a voragem do desejo, ao qual frequentemente chamam de Amor, torna tudo muito confuso. Tanto que as regras do relacionamento monogâmico obedecem a critérios que tentam preservar a estrutura da Sociedade intacta diante de algo que não obedece a regramentos. Quando a pele ou o olhar ou ambos interferem no arranjo “ideal”, os contratos ficam em perigo de serem cumpridos. Leis foram criadas para impedir que os seres humanos, animais sociais, saiam por aí se confraternizando uns com outros, de múltiplas etnias, de diferentes crenças, novos e velhos, gêneros e identidades diversas em profusão. Talvez, caso ocorresse essa supressão dos sentidos controlados com multas, prisões e, a depender da Cultura, até a morte, não chegaríamos até aqui… o que poderia até ser bom, diante do que temos hoje como constituição social.
*Eu era ainda bem jovem e, um dia, ao subir para o ônibus que me levaria para casa, encontrei um tipo muito mal-encarado sentado na última vaga livre que ficava em um banco duplo. Ele estava de cabeça baixa e eu não tive coragem de pedir licença para me sentar junto à janela. O que até hoje se mantém de forma indelével em minha mente é uma tatuagem disforme feita em seu braço, em tinta azul, o qual um coração perfurado por uma flecha, indicava uma frase logo abaixo: “Amor, só de mãe!”.
aos 6 leio toco violão canto desenho aos 7 versão hey jude garoto que amava beatles rolling stones jovem guarda ronnie roberto erasmo assistia namorava vanderléa 30 anos trabalho com ela aos 8 desenho animado filme novela clair aos 9 amava dança não danço musicais programas calouros zorro batman super-homem aranha de ferro demolidor aos 10 maysa eliseth elis gal nara dolores milton caetano gil meu guru aos 11 verne wells lobato bach beethoven stravinky list aos 12 poetas fim do século barreto azevedo dias alencar castro abreu varella freire sousândrade decorava declamava sozinho aos 13 mautner tom gonzagão tom zé gonzaguinha djavan lupicício macalé letras que mergulhava dos anjos mundo descoberto alternativo sofria como se fosse comigo pintura arquitetura história picasso van gogh hieronymus dali aos 14 machado se impôs quem viesse o servia depois mas amei amado muito capitães de areia me afetou escrever ler concorria com vida era mesma mas outra para quê por que? aos 15 não interessava resposta feliz mistério infeliz realidade pouco a pouco tentava reescrever bíblia li inteira sinais vida extraterrestremeus irmãos jesus filósofo avatar mestre emissário outra dimensão eu ateu emoção com a sua paixão fé intrigante poderosa talvez vazia significado conspurcado ofender lutar matar destruir seitas orar ação subordinada ao medo da maior atração da terra morrer aos 16 escrever ver descrever antever reverter transcrever transcender minha forma de ser quem sou não sou quem fui serei passei antes falecer depois nascer outra vez aos 17 tempos de seca mão não impunha caneta caçador de dores queria me ferir me dedicar a outros me salvar instinto sobrevivência servir ser a vir melhor autopunição vaidoso feito santo antão criminoso por matar amores no nascedouro de experimentar escapava vampiro experiências alheias servia como tema temor ao amor despedaçava coração infantilizado maduro mais duro sem flexão como evadir de mim perpétua prisão? sozinho casa vazia cães companheiros acordava dormia quando queria escrevia madrugadas inteiras escola futebol síndrome do pânico crises de ansiedade não sabia apenas ultrapassava vivia imaginava que fosse covardia meus escritos não mostrava cria fosse somente para mim artesão arte tesão amava corpos não conhecia pavor culpa confrontar peles pelos lençóis olhos bocas penetrar recônditos recantos encantos impossíveis literatura indenizava a vida literária sem ser literal de frei sem hábito a casado decidido a liquefazer o escritor entre fraldas trabalho som luz movimento ação 20 anos sem compor personagens cenários tramas vidas mortes sortes aos 46 educação física voltei a estudar entre jovens fui aluno professor divisor de águas textos técnicos prática escrita sem tempo atração pela palavra comoveu corpo deslocamento pés cabeça me moveu prazer escrever como comer respirar inspirar não expirar inspiração escritor voltei exalar redes sociais perfurei crosta atravessei bolha pessoal defesa descomunal transpus campos ataquei aldeias sentimentos emoções alcancei ideias inéditas sobre mim me conheci desgostei qual curiosidade maior viver partir? sem decidir continuo por amor a escrita finjo amor pessoas? mas deus é verbo aos 54 novo cenário publiquei artesanal nunca pronto tonteio caio levanto deslizo deito palavra dentro gozo reproduzo conto cena crônica poema aprendiz de fecundação aos 56 veio à luz minha realidade continuei rua 2 confissões sigo curso de rio caminho do mar cometo crimes senzala mentiras ainda que diga a verdade…
O apartamento do casal ficava no limite aceitável pela Lei de Zoneamento para a construção de edifícios um pouco mais elevados. Do quinto andar, podia-se ver o casario ainda preservado de residências em boa parte da Vila Madalena. Célia vinha de família abastada, fazia curso de Direito na PUC e se encantou com a Fábia assim que a conheceu, quando acompanhadas das amigas, a viu cantar. Foi paixão à primeira vista. Entendi perfeitamente. Passaram a dividir o apartamento meses depois, há três anos.
Ficamos conversando por duas horas na sala do apartamento, enquanto ambas fumavam maconha e saboreávamos um bom vinho tinto. Relaxei bastante, principalmente porque, sendo pescador de temas e perfis, fui conduzido para as histórias que a jovem, uns dez anos mais nova que a Fábia, se dispunha a compartilhar, como se quisesse minha aprovação. Quando achei que não aconteceria mais nada, Célia disse que subiria ao apartamento da Dani, a Sacerdotisa e nos deixaria sozinhos. Ao perceber a minha expressão que eu adivinhei ser um tanto aparvalhada, riram, as duas.
Dada a minha natureza verborrágica, pensei em dizer qualquer coisa, mas fui calado com um beijo. Regredi décadas ao momento em que comecei minha caminhada pelo desejo e pelo prazer. Como um homem ridículo, quis assumir o controle do que acontecia, até me entregar aos descaminhos de outro ser desejante. Antropologia e Psicanálise à parte, eu me senti um ser poderoso ao ser conduzido por Fábia a um prazer indizível que misturava carne e alma. Senti que a voz, o canto, a arte que produzia era alicerçada em pilares para além do dom e do talento. Havia algo que a alimentava o espírito, transformado em corpo sensível e ampliado para além do encontro de genitálias. Eu me sentia como se fosse um iniciado em uma cerimônia de ritos tão antigos quanto a humanidade. O macho que foi programado a centrar a ato sexual no falo sentiu expandir o prazer para além da pele. Por um momento, congreguei com as forças da Natureza.
Uma hora depois, suado como que lavado de substâncias alucinógenas, foi difícil sair do estado do transe. O que fiz aos poucos. Como que abrindo os olhos pela primeira vez naquele lugar, perguntei (ou imaginei perguntar):
— O que aconteceu aqui?
— Eu também o estou amando…
Eu, que sempre relutei em dizer que amava alguém, até encontrar Ella, percebi que havia ultrapassado o tempo imediato e migrei para o tempo da minha alma. Sabia que a sensação de eternidade repercutiria aquele momento por minha existência afora. E o que acontecera comigo e a minha ex-parceira fora apenas um tipo de introdução à verdadeira consumação da paixão.
Pedi à Fábia que me indicasse a porta do banheiro, para me banhar. Ela me conduziu até ele e disse que gostaria de me observar ao me passar a toalha. Um tanto desajeitado, entrei no box não muito espaçoso. Eu estava ainda enlevado e ousei perguntar se Fábia não queria também se banhar comigo. Ela sorriu, entrou e me abraçou sob a água morna. Não sabia que hora da madrugada seria aquela, mas como a medição temporal passou a não importar, ficamos demorada e intimamente massageando os nossos corpos com água e sabonete com cheiro de erva doce. Um pouco de luz ultrapassava levemente as cortinas brancas quando terminamos e permanecêssemos nus sob uma coberta leve no amplo sofá. Abraçados, adormecemos.
Por volta das 9h da manhã, fomos acordados por Célia. Estava com sacolas de supermercado, trazendo frutas, pães, geleias, manteiga e requeijão. Ela beijou a namorada na boca e anunciou que trouxera o café da manhã. Além do sorriso encantador, estava acompanhada por outra mulher, mais ou menos da idade de Fábia. Era a Dani, segundo se anunciou. Descoberto, estava nu e surpreendentemente, priápico. Quando as moças perceberam, riram gostosamente.
— “Benza”, Deus, como dizia a minha avó! – exclamou Dani, brincalhona.
— Desculpa, gente! Faz tempo que isso não acontece isso comigo… – mal reparando onde e com quem estava.
— Aceito o elogio! – disse rindo, Fábia.
Como parecia um menino pego numa traquinagem, tentei colocar a cueca rapidamente. Percebi que a pus ao contrário e ri, no que fui acompanhado pela assistência.
— Vá com calma, meu bem! Tira a cueca e põe direito… – disse Fábia, completando:
— Guarda direito o que é nosso!
E ria, acompanhada das amigas. Relaxei, a retirei com calma, com o instrumento ainda em riste. Parecia que havia tomado a pílula azul, como na única vez que o fiz para apenas me masturbar. Com Fábia, segui a minha intuição e paixão. Não queria que fosse de outra forma, ainda que não esperasse tamanha profundidade de estímulos, emoções e sentimentos.
No café da manhã, mais descontraído, perguntei para Dani sobre o apelido de Sacerdotisa. Ao que respondeu que não era apenas um apelido, mas um título, se é que poderia se chamar assim. Ela havia estudado na Inglaterra e no México. Viajara para o Egito e os Estados Unidos, tendo contato com todas as filosofias e práticas ligadas ao que poderia se chamar de Esoterismo, mas que os versados sabiam se tratar da verdadeira maneira de entender a Realidade.
O que as religiões ditas oficiais fizeram ao longo do tempo foi condenar e atacar às práticas sacerdotais antigas, as tornando marginais. Seus membros foram perseguidos e mortos. A sociedade capitalista incorporou e adequou essas religiões a um padrão mercantil que acabou por obliterar os ensinamentos ligados à espiritualidade, apesar de sempre sublinhar que fosse seu cerne. Os vendilhões dos Templos haviam vencido.
— Por outro lado, vivendo neste estado de coisas, em que o tempo acaba por se tornar a moeda mais valiosa que existe, ao dispor dele para sobreviver, eu o conduzo de uma maneira que possa utilizá-lo para ajudar a quem quiser os meus préstimos. É uma contradição em si, mas com a qual tenho que me conformar. Originalmente, me formei em Engenharia. Isso porque eu queria reconstruir o mundo, feito uma deusa redentora… – completou Dani, sorrindo com um canto da boca. Continuou:
— Eu também me apaixonei por Fábia. Se estamos aqui, reunidos nesta pequena mesa, é por causa dessa deusa nua – nosso centro vibracional.
Voltei os olhos para ela. Fábia estava apenas de calcinha. Eu, mesmo, vestia apenas o meu “samba canção”. Não pude deixar de lembrar Caetano e cantar baixinho:
“Leitos perfeitos Seus peitos direitos Me olham assim Fino menino, me inclino Pro lado do sim…”.
Apenas então me dera conta que eu estava numa canção do imenso baiano: “Rapte-me, Camaleoa”.
Fábia, Célia e Dani se entreolharam, aparentando mútuo contentamento. Depois de um momento de silêncio, Dani revelou:
— Quando conheci Fábia, essa foi a primeira música que a ouvi cantar. Eu a chamei, desde então, de Camaleoa…
Ofereço o veículo de Luz acima do muro. Para além dos fios. Na linha do horizonte, o óvulo solar gesta o seu ocaso. Como se estivesse Yemanjá presente no mar celeste, boia a oferenda da tarde que viajará até o outro lado do planeta. Tantas vezes brigamos, outras tantas, voltamos… A cada despedida, aprofundamos a voragem, a cada volta, aumentamos a voltagem… Somos, todos nós, amantes – eu, de você, você, de mim, nós – em que somos outros – de nós mesmos… Apesar de viajarmos para fora dele, amamos o mundo, amamos no mundo… Amor fecundo, amor imundo, amor sofrido amor redivivo… A minha mãe me pariu, você, mulher, me recriou… Sou pedaços dela, sou inteiramente seu…