
A Lua,
quarto-crescente,
de 102 bilhões de anos…
A Aranha,
de 102 dias…
Um dia, ambas se extinguirão,
assim como todos nós…
Só o amor sobreviverá…
Participam do BEDA: Darlene Regina / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Suzana Martins / Mariana Gouveia

A Lua,
quarto-crescente,
de 102 bilhões de anos…
A Aranha,
de 102 dias…
Um dia, ambas se extinguirão,
assim como todos nós…
Só o amor sobreviverá…
Participam do BEDA: Darlene Regina / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Suzana Martins / Mariana Gouveia

Ela dizia, sem pudor ou tentativa de não parecer ridícula, que se deu conta de que estava definitivamente viciada. A falta do que queria chegava lhe dar desconforto físico. Ansiava pelo momento em que teria a dose outra vez. A vertigem do toque, a embriaguez que a saliva lhe provocava, o cheiro do homem que a enlevava… o sexo que se extasiava em abocanhar…
Há impulsos que não podem ser contidos, aduzia, e quando percebeu a oportunidade que se apresentou, se jogou sobre mim como uma náufraga sobre um pedaço de destroço no meio do mar. Não importou estar casada com um bom rapaz, que lhe trazia equilíbrio, viver uma fase de estabilidade emocional ou estar com a carreira em progressão…
Arriscou tudo para estar comigo desde a primeira vez que me viu em uma festa de rua. Da atração á franca e escancarada aproximação bastou poucos dias. Eu, entre tímido e assustado, quase não ofereci resistência. Afinal, aquela mulher que me desejava tanto era bela, instigante… e confiante o suficiente para nós dois.
Desde o princípio, mal percebi o que estava acontecendo comigo… conosco… Estava fascinado pela entrega daquela moça. Ela me fazia alcançar gozos imensos e estados mentais em que se revelavam outros “eus” além de minha identidade reconhecível. Falava sem pudor que o meu esperma a preenchia de uma quentura cauterizante. Nunca havia imaginado que houvesse alguém que pudesse amar tanto! Uma amorosa paixão que me absorvia de corpo e alma.
Nunca me tive em alta conta. Jamais fui alvo de tantas atenções até que passei a ser olhado de forma insinuante tanto por mulheres quanto por alguns homens. Eu ainda não estava tão à vontade com o poder recém-adquirido, apesar de flertar de forma inconsequente, pois abandonava no meio do caminho qualquer aproximação mais séria… até que ela surgiu em minha vida de modo avassalador.
Comigo, revelou, ela se sentia uma mulher poderosa, uma fêmea conectada com a força propulsora do universo. Gostava de mergulhar em meus olhos, buscar a minha alma, sem vergonha de me invadir inteiro. Dizia que vivia vestida de mim, em estado de contínuo arrepio. Que pareciam ser contagiosos, pois passaram a ser constantes em sua presença. Ousávamos nos encontrar nas oportunidades mais inusitadas quando então ela se oferecia a mim para o embate de corpos, estando onde estivéssemos. Sem ensaios prévios, assim que nos encontrávamos, iniciávamos uma estranha dança no qual apenas nós ouvíamos a canção que nos conduzia, agarrados, em trocas de beijos apaixonados…
Na último encontro marcado, porém, decidi não aparecer. Fiquei a observando de longe. Ela insistiu ao celular por duas horas em frente ao restaurante em que comeríamos. Não obteve resposta. Não emiti nenhum sinal. Fiz parecer que havia desaparecido da face da Terra. Deve ter se dado conta que não sabia nada sobre mim – nome completo, endereço, conhecidos… Desmaiou em plena Avenida Paulista. Corri em sua direção, mas logo foi cercada por várias pessoas que a acudiram, sendo levada para o hospital. Soube que acordou meia hora depois, com soro sendo injetado no braço.
Ainda perplexa, procurou se acalmar e quase gritou de alegria quando viu um vulto se aproximar de sua cama no ambulatório. Engasgou o clamor na garganta quando percebeu se tratar de seu marido. Ensaiou um sorriso medroso e logo sentiu a serenidade de seu abraço… Chorou um choro sentido… Seu marido nada disse. Apenas a olhava com os olhos de seu amor calmo… Talvez soubesse de algo, mas não deu a entender.
Nunca mais dei notícias. Interrompi tão intenso romance por ter me acovardado diante daquele maremoto que me jogou de um lado para outro dentro da minha própria existência. Eu havia perdido o chão e voar não era para mim. Acomodado comigo mesmo, seguia regras auto impostas que o amor daquela mulher havia transformado em pó. Ao mesmo tempo em que me sentia poderoso por tê-la a meus pés, me percebia rendido à sua submissão. Mais um pouco e não conseguiria escapar ao vórtice do buraco negro da paixão. Cortei com uma faca afiada tamanho bem pela raiz.
Pelo resto dos meus dias, cada um deles, eu sei que me arrependerei da decisão que tomei. O fantasma roto do imenso amor a mim dedicado passeará pelas ruas sem charme da cidade de pedra a me assombrar pelas manhãs, tardes e noites… até o instante de meu último suspiro, quando soprarei o nome de meu único e total amor…
Foto por Enes u00c7elik em Pexels.com
Participam do BEDA: Suzana Martins / Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso

Saindo da academia, eu caminhava de volta à minha casa pela larga avenida de duas pistas, separada por uma ilha ajardinada. Logo, encontrei aqueles três que formavam aquela família cambaleante. Um homem, uma mulher e um cão, envelhecidos e cansados. Aparentemente, eram pessoas em situação de rua, usavam andrajos, estavam sujos e caminhavam cambaleantes e… cansados, os três.
O homem estacou o passo, o cão, grande, mas muito magro, também parou, bem junto ao companheiro. Ambos olharam para trás, esperando a mulher cansada se aproximar. Todos juntos, novamente, ameaçavam atravessar a pista naquele passo lento e indeciso, de cansaço e embriaguez, dois deles; de cansaço e fome, o outro. Comecei a temer que os três não conseguissem ultrapassar a barreira de carros velozes que pareciam aumentar a velocidade ao perceberem a intenção do grupo.
Tão cansados pareciam os três que cheguei a me perguntar – por que simplesmente não param e descansam? Vi-me com a mesma barba desgrenhada do homem, apiedei-me do cabelo hirsuto e despenteado da mulher, alcancei os sintomas da perplexidade do cão. A intenção de atravessar talvez fosse para isso mesmo – chegar à ilha central, onde deitariam à relva e à sombra, entre as pedras, os seus cansaços e desapegos, tão íntimos.
Fiz-me outra pergunta – por que não decidiam descansar, permanentemente? O que os mantinham caminhando a esmo pelas ruas e canteiros de jardins? Vivendo de recolher restos de comida ou latas de cervejas e refrigerantes jogadas nas calçadas pela pouca educação dos seus semelhantes, para trocá-las por poucas moedas? Julguei que por amor, solidariedade ou companheirismo, os três seres, mesmo tão cansados, permaneciam vivos e unidos. Ele a ela, ela a ele, o cão aos dois, caninamente…
Finalmente, de forma periclitante, chegaram à divisa verde que separava o rio asfáltico. Nessa ilha, dormiriam (sonhariam?) e lamberiam as feridas, os três, tão cansados…
*Texto de 2013
Participam do BEDA: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Mariana Gouveia / Darlene Regina
Enquanto caminhava para o prédio em que trabalhava, o homem muito sério viu ou imaginou ver, do outro lado da rua, uma imagem que o fez viajar no tempo. Aquela era uma manhã de inverno, porém ensolarada, em que a luz incidia inclinada por entre os transeuntes, atravessando-os, como o vento o faria, lambendo-os com o seu calor tépido. Essa luz encontrou o seu lugar nos cabelos da mulher que um dia ele amou, ou que um dia pensou amar, ou não seria aquela a moça que amou e imaginou que fosse, mas a sensação que trazia aquela visão, o precipitou para vinte e cinco antes, quando não era tão sério, mas apenas tímido o suficiente para nunca declarar que a amava. Porque percebeu exatamente naquele instante fugidio, que ele, sim, a amou profundamente, tanto que nunca quis se entregar a esse amor, que covardemente imaginou que desmoronaria com as vicissitudes da convivência mútua. Assim, o manteve intocado pelo tempo, tão forte quanto à época que o sentiu pela primeira vez. Agora, naquele momento crucial, estava para decidir se iria ou não correr atrás daquela que pensou ser a sua amada eterna, naquela manhã de inverno morno…
Foto por Tim Gouw em Pexels.com
Participam do BEDA: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Darlene Regina / Lunna Guedes / Suzana Martins
O longínquo Agosto de 1989 me tornou pai. Mais precisamente do dia 12 para 13 — domingo de Dia Dos Pais — nasceu a primogênita das três filhas da Família Oliveira Ortega, a Romy. E esse “detalhe” foi definidor de uma das características que mais prezo em mim. Creio que seja um bom pai. Referenciado pelo depoimento das próprias.
Apesar da secura climática, mental, social, econômica que sentimos na pele atualmente, este mês nos compensa com visões de crepúsculos espetaculares, devido à luz indireta do que deveria ser um Inverno, mas que tem apresentado temperaturas de Verão, em torno dos 30ºC.
“12 de Agosto de 2020. Este dia existe, o mês também. O ano, já não sei. Estamos vivos, eu, que escrevo, vocês, que me leem. Ou não. Aniversário da Romy, trigésimo primeiro ano de existência, todas as estações vividas aqui, na periferia da Zona Norte. Trinta e uma vezes a Terra girou em torno do sol. Onze mil, trezentos e trinta e dois crepúsculos, contando os anos bissextos. Porque com ela é assim — todo dia é dia de comemoração da energia vital. Parabéns para nós que a conhecemos, meu amor!”
A temperatura política também está altíssima. Estamos às vésperas de um novo pleito para a eleição para cargos executivos e legislativos majoritários. No entanto, como desde há muito tempo, estamos dubiamente polarizados, em que os extremos se tocam na radicalização. A decisão estará com eleitor, apesar de haver quem não queira que cheguemos a escolher ninguém em Outubro. Ou porque pessoalmente não queira ou porque não queiram que as eleições ocorram.
Eu gosto muito de treinar musculação. Mas infelizmente, a falta de tempo, antes, e o advento da Pandemia nos últimos tempos, fizeram com que eu buscasse a me exercitar em casa. Depois de uma crise de Tendinite, que me impediu de fazer exercícios superiores por quase dois meses, voltei com atividades leves. Gosto das dores musculares — reflexo-resultado do esforço. No curso de Educação Física, descobri que os sintomas dolorosos é a resposta do corpo ao rearranjo ou adaptação celular, com consequente aumento da capacidade muscular em suportar cada vez maiores cargas e repetições. Diante dos fortões que me viam utilizar cargas baixas, já me perguntaram, meio debochados, se eu estava fazendo Fisioterapia. Respondi com naturalidade: “sim, sempre!”. Não falaram mais nada. Lembrando que com a baixa umidade do ar, a hidratação tem que ser constante.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o nível ideal de umidade do ar para o organismo humano gira entre 40% e 70%. Acima desses valores, o ar fica praticamente saturado de vapor d’água, o que interfere no nosso mecanismo de controle da temperatura corporal exercido pela transpiração. Além disso, proporciona a proliferação de fungos, mofos, bolores e ácaros. Com a umidade muito baixa (menos que 30%), as alergias, sinusites, asmas e outras doenças tendem a se agravar. Com o desequilíbrio climático pelo qual estamos passando — estiagem extrema em uma parte do Brasil e chuvas torrenciais em outra — causado pelo desmatamento desenfreado, talvez estejamos antevendo o “spoiler” de filme-catástrofe a estrear com “sucesso” nos próximos anos.

“… De modo geral, além da inteligência básica, são seres-repositórios de emoções e sentimentos puros e sem medidas. Amor e ciúme, sem dúvida, estão entre eles. Nos cães, a força da irracionalidade se expressa de maneira ainda mais acintosa. Amor, ciúme, posse — onde começa um e termina outro? Há a eterna discussão se o amor é uma construção sociocultural ou uma condição intrínseca aos seres humanos… se a sua base é espiritual ou físico-química, se é algo substancial a ponto de ser verificado expressamente ou uma ilusão mental… Creio que a ligação que desenvolvemos com os outros animais, — principalmente os mais próximos de nós, “aculturados” —, diga muito sobre a própria condição humana. Talvez possa vir a desvendar se o amor e as suas emoções subsidiárias, como o ciúme, revela-nos animais básicos ou, contrariamente, que somos animais confusos demais para sabermos o que sentimos, quando sentimos…” — (REALidade, lançado pela Scenarium, em 2017).
Termino esta postagem como comecei — mostrando um entardecer-anoitecer — porém atualizado. Este Agosto promete ser intenso em várias medidas. Todas exageradas. Que saibamos vivenciá-lo com parcimônia de emoções, ainda que dificilmente conseguiremos. Porque mesmo que nos controlemos na aparência, as revoluções vulcânicas internas não deixam de apresentar os seus efeitos em algum momento. Sei disso de forma cabal — o corpo e a mente sofrem as consequências de estarmos vivos e conscientes — benção disfarçada em sofrimento.
Participam do BEDA: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Darlene Regina / Mariana Gouveia