o médico intrigado diante da imagem da ressonância dá ares de magnética importância quem sabe estudo científico? revela que surgira uma flor na superfície do meu coração entre ventrículo e átrio esquerdos perguntei um tumor? não era mesmo uma flor margarida lírio rosa ou jasmim uma orquídea ou maria-sem-vergonha talvez? uma vitória-régia a boiar no rio da minha caixa torácica? não sou especialista em pétalas abertas em órgãos vitais vamos retirá-la decretou por que? perguntei retorquiu meu caro pode ser a primeira de muitas logo o seu coração ficará florido seu peito tomado de perfume e cor um verdadeiro jardim chegariam vespas abelhas beija-flores outros pássaros quero vê-lo curado respondi doutor deixe florir não tenho tremor febre ou dor sei o que aconteceu sol a raiar dia que nascia daqueles clichês para se apaixonar eu a vi pela janela de minh’alma pela primeira vez senti meu coração bater em fulgor natural que medrasse em flor antes isso do que ódio rancor carregado de medo temor de vingança revanche vazio de sangue e paixão entre viver gris prefiro morrer feliz escolho fertilizar amor e regar e amar…
“Enquanto boa parte do país vibrava com os jogos da Copa do Mundo em junho de 2018, na tarde do dia 16 daquele mês, Araçariguama, no interior de São Paulo, entrava em luto pelo assassinato de Vitória Gabrielly. A família tenta manter a memória da adolescente viva em ações sociais voltadas para crianças no município.” (G1)
Depois de dois anos da época do crime, eu cheguei a escrever um primeiro parágrafo que abandonei até há dois dias, quando surgiu uma frase nas lembranças do Facebook: “Vitória…Ela lutou!Às minhas filhas.Esta é uma homenagem às mulheres, mesmo às ainda tão meninas”.
Vitória, viver requer coragem, já disseram por aí… Eu passei poucas e boas tentando sobreviver durante todo esse tempo de Pandemia. Produzo conteúdo sem a perspectiva de ser visualizado sequer, ainda que deseje. Eu me sinto como os primeiros homens e mulheres que “produziam conteúdo” nas cavernas que viviam, apenas por desejo de expressão. Nunca imaginaram que milhares de anos depois suas obras fossem resgatadas como registros históricos. Igualmente, na Idade Média, uma igreja poderia demorar séculos para ser concluída e centenas de anónimos produziam arte sem terem seus nomes colocados na História. O sentimento de “aparecer” em meio a tantos outros foi ganhando tanta projeção que muitos se perdem pelo caminho e fazem qualquer coisa para isso.
Aves de rapina humanas sobrevoam as presas para apanhá-las desprevenidas quando estão mais fragilizadas. Algumas atacam de frente, com bicadas afiadas a desferirem golpes certeiros no coração. Outras, são mais sádicas. Preferem destilar veneno em forma de palavras jogadas à esmo, atinja a quem atingir. É comum dizerem que fazem isso em nome de algum propósito de teor moral edificante. Ah, a moralidade dos imorais! O pior é que além de faltar solidariedade, empatia, senso de identidade humana com o outro humano, no mínimo, alardeiam estarem corretos em seus posicionamentos. Que destruir uma vida em nome de um coraçãozinho na rede é muito mais importante do que qualquer coisa. Coraçãozinhos se multiplicam – esses predadores se alimentam de coraçãozinhos vermelhos-sangue – e quando sentem o cheiro de sangue se tornam cada vez mais vorazes na caçada à serviço de suas vilipendias. Mencionados, hiper dimensionados para além de sua pequenez, ainda que sejam citados com raiva ou até com ódio, creem que isso é o mais próximo de se sentirem amados.
Essa distorção dos reais valores que deveriam reger a nossa convivência se espraia por toda a sociedade humana, de tal forma que fica difícil acreditar em gente. Sabe, Vitória? Você lutou. Quis viver. Tentou gritar, foi impedida. Foi morta. Mas venceu. Devo acreditar nisso. Você, como tantas meninas, Beatrizes, Klaras, Gabrielas, Patrícias, mulheres, mais novas e mais velhas, são atacadas por serem mulheres. Mas tudo se torna pior quando uma mulher age como um macho escroto e promove ataques contra mulheres. Essa ausência de sororidade é quase como se algo tivesse sido extirpado da personalidade feminina que carrega.
Em benefício da dúvida, acredito que talvez para se defenderem em um mundo de homens, absorvam seus piores predicados para se igualarem em oportunidades de trabalho e protagonismo. Quando justamente a força da mulher para mim é indiscutível. Fomos, como muitos meninos e meninas como eu, criados praticamente apenas pelas mães, como tantas da Periferia, mas não apenas. A alienação parental é uma prática comum em muitas famílias. Nas mais ricas, os homens acham que pagando a terceiros o cuidado da prole já é suficiente.
Chegamos em um ponto, no entanto, em que uma mulher não precisa mais reproduzir para ser vista como uma mulher completa. Essa imposição de dedicar parte de sua vida a gerar vidas não é mais necessário em um mundo que precisa se preocupar com a ocupação desenfreada de nossas crianças em detrimento das crias dos outros seres que ocupam o mesmo planeta. Para que a mulher ganhe a autonomia necessária que venha a promovê-la como uma pessoa igual ao homem, ela tem que assumir o seu corpo como sendo dela mesma. Procriar deve ser uma decisão pessoal. É incrível que para mais da metade da população mundial, não tenha havido um definitivo decreto de libertação. Que a mulher dirija a sua vida da maneira que lhe aprouver e que torne o mundo mais equilibrado de tal maneira que superemos a dor de vê-las assassinadas, vilipendiadas, marginalizadas por serem mulheres. A Vitória será de todos nós, seres humanos.
Junho de juras de amor e muita lenha para queimar… O que aquece a alma é o calor do corpo abraçado, o desejo de respirar-cheirar a pele incensada pelos pelos eriçados, a boca molhada de essências… Mas que se conheça os olhos… Sexo sem história é como teta sem coração, clitóris sem vibração, pênis sem pulsação, beijo sem memória, gozo sem emoção…
Rita, para nosso encontro, cheguei meia hora antes do horário combinado. Pedi mesa para dois. Eu tinha dúvidas de que chegasse às duas da tarde, hora estabelecida por você mesma. Nesses últimos dois anos, não mudei muito. Fiz como de costume – fui pontual ao extremo – o que sempre a irritou. Eu me lembrei do dizia, quando a apressava para saímos para algum lugar: “Essa mania de chegar antes do horário é tenebrosa, Elias! Nem parece brasileiro!”. Comecei a rir sozinho, enquanto o garçom perguntava sobre o que pretendia pedir. Como deve imaginar, pedi água mineral com gás e que esperaria a minha acompanhante chegar para completar o pedido. Continuei a rir por me lembrar dos critérios sem justificativas plausíveis usados por você para exaltar ou atacar os seus conterrâneos. Chegar atrasado era um costume que colocava como uma boa prática. Outra coisa que a irritava a ponto de decidir se separar de mim é que dizia que eu nunca saía do prumo. Sempre estável e compreensivo, a absolvia todas as vezes que perdia as estribeiras comigo, normalmente por ciúme. Por confiar em você e por adotar a postura de que se apaixonasse por alguém, eu não nada faria. Explicitamente disse que era livre e que, apesar de amá-la, não forçaria uma barra para que ficasse com você. Que se quisesse ter outra pessoa como companheiro ou companheira, sairia do caminho. “Mas você não lutaria por mim?”. Eu me lembro de olhar em seus olhos e após uma pausa dramática, dizer: “Não!” Por isso, eu me penitencio, o meu orgulho falou mais alto. “Então, por que estarmos juntos? Vamos nos separar!” – falou com a voz entre embargada e chorosa. Respondi, de forma dura e intimamente irritado, sem deixar transparecer, o que deve tê-la ferido ainda mais, um simples: “Okay!” – assim como repeti o mesmo “Okay!” de mim para mim, quando você não foi ao nosso encontro. Preferi lhe enviar uma carta porque conseguiria pensar melhor no que lhe dizer. Não sou tão ponderado quanto imagina. Internamente, o clima é caótico. Vivo no interior de meu interior sob raios e trovões que tento controlar desde garoto. Nunca lhe disse, mas quando bem jovem quebrei com um soco a cristaleira que a minha mãe amava e que era a coisa mais sofisticada que tinha em nossa casa. Aquilo me mortificou. Vê-la chorar, acabou comigo! Decidi buscar dominar essa raiva contra o mundo que me consome. É uma fúria que me autodestruiria se não a domasse. Encontrá-la foi a melhor coisa que me aconteceu. Mas aceito que queira não se encontrar mais comigo. Após uma hora de espera, pedi uma salada, paguei a conta e fui embora, tentando me adaptar num mundo sem você… fisicamente. Em minha alma, eu a amarei para sempre!
Elias, meu amor, o “Okay!” dado por você me magoou profundamente. Saí do apartamento carregando quase todas as roupas, dizendo que não voltaria. Fiquei possessa quando pediu o meu novo endereço para que me enviasse o resto dos meus pertences. O que me retirou a opção de usar isso como desculpa para reencontrá-lo. Você tem essa capacidade de me transtornar de tal maneira… esse jeito me levou a pensar várias vezes que não me amasse tanto. Como assim, não lutar por mim? Saiba que eu estava no restaurante quando chegou, sabendo que costumava chegar antes do horário, estava lá uma hora antes. Eu me coloquei num canto que podia observar todo o movimento do lugar. Eu o vi chegar, pedir uma mesa, felizmente longe mim. Fiquei a observá-lo como fazia quando depois de entregar a sua impetuosidade prazerosa na cama, adormecia, finalmente relaxado. Percebi o sorriso que se apoderou de sua face e imaginei que estivesse pensando em mim. Isso acalentou o meu coração. Eu me senti como num encontro perfeito, sem ressalvas, sem briga, sem confronto de ideias e posturas. Você sabe que sou como um furacão. Por mais que isso me traga problemas, decidi desde muito nova que não viveria sem ser essa tempestade que seja lembrada do que a paisagem sem cor, plasmada e com gosto de sensaboria. Somos tão diferentes que o nosso encontro só poderia ser coisa do destino. Você me acrescentou tanto furor justamente por causa de sua calmaria, que creio que a nossa história deva ficar no que já vivemos. Quando pediu a conta, o meu coração acelerou, quase que saí correndo para lhe abraçar. O garçom que lhe serviu, também me serviu. Pedi a conta logo depois de você. Parece que ele sabia de nossa história. Não duvido. Por isso mesmo, amo o jeito do brasileiro ser, apesar de todos os defeitos ou por isso também. Enfim, vou ficando por aqui. De corpo e alma, eu o amarei para sempre, Elias!