Há quem garimpe a vida toda em busca da pedra preciosa e nada consegue, a não ser restolhos — poeira sem peso, pedregulhos e o espinho da rosa.
Há quem se perca pelo caminho e encontra a curva perfeita, a reta para o coração, topa com a pepita na terra aflorada, um beijo perfumado da inesperada boca da amada.
Há quem beba da água mais limpa, desconhece a insipidez do ódio, a tibiez da voz monocórdica, desfila sem saber o que é medo, canta a alegria e recebe amor, mas é infeliz…
Há quem consiga fazer correr o sangue, sabe estimular a troca e a revolução apaixonada a bandeiras despregadas. Quaisquer cores são suas, o trânsito em cada rua tumultua, segue o fluxo descontínuo, arremeda o certo com o incerto, mente verdades e constrói sendas e, entre incensos, insensato, trapaceia. Vence. É herói.
As veredas da existência são insinuantes, indeterminadas, cheias de vieses feito terminações nervosas, crescentes na infância e na juventude, esclerosadas na velhice. Viver é bom. É ruim. Como doença progressiva no coração da Terra, somos bestiais seres da guerra. Matamos e morremos. No meio de tudo isso, vivemos…
Maysa (Larissa Maciel) canta Meu Mundo Caiu – Série Quando Fala o Coração
O meu pai tinha vários discos de 78 rotações, que eu comecei a explorar por volta dos 12 anos. Em certa ocasião, caiu em minhas mãos um que tinham de um lado “Meu Mundo Caiu” e, do outro, “Ouça”, com Maysa Matarazzo. Lançados no final dos anos 50, em 1973 eu os ouvi como se fossem hinos da melancolia que já começara a se esboçar em minh’alma juvenil.
Quando a audição de cada uma delas beirava a dúzia, os meus pais pediram para que eu parasse, “pelo amor de Deus!”. Desde então, os olhos verdes de Maysa se tornariam dois dos meus faróis. Por eles, passei a explorar esse lado gostoso da fossa de amores que eu nunca vivera.
O primeiro clipe que postei aqui é da série televisiva “Quando Fala O Coração” (2009), escrita por Manoel Carlos e dirigida pelo próprio filho de Maysa, Jayme Monjardim, que nela decanta os seus dramas pessoais e revela a força de quem ousou desafiar os limites impostos às mulheres à época que vivia. O segundo foi uma participação em um filme de 1958, o que era muito comum acontecer para divulgação de lançamentos dos artistas de então.
Após a sua “descoberta” por mim, acompanhei com sofreguidão todas as vezes que surgia em nossa televisão em preto e branco. Então, já vivia uma fase de decadência em sua voz, cada vez mais rouca devido aos excessos com bebida e cigarro. O que não impedia que continuasse a amá-la, como ainda a amo, mesmo depois de seu passamento, em um acidente em janeiro de 1977, ao perder o controle do Fusca que dirigia em alta velocidade na Ponte Rio-Niterói.
1977 continuou a ser difícil para mim. Em agosto, Elvis Presley morreu (ou não) e Charles Chaplin descerrou as cortinas em dezembro do mesmo ano.
Laika, primeiro terráqueo vivo a ir para o Espaço, em 1967, pelas mãos do homem.
Quando ela se foi, silenciosa feito um raio sem trovão — Oyá calada — comecei a cheirar o chão pelo qual ela teria passado…
Em busca de seu cheiro — cão perdigueiro — perdi meu dom, me perdi… Fiquei sem casa, sem dona, sem domínio sobre o meu caminho de perseguidor de seu odor.
Todas as noites, uivava para as luas presas aos postes das ruas, tentando alcançar as estrelas de seu corpo, os cometas em seus cabelos, os asteroides de seu olhar…
Cercado de escuridão, senti-me como Layka — só na imensidão infinita — corpo encapsulado, sem elo com a Terra de onde provinha, a não ser pela gravidade que a ela me prendia…
Sonhei que pela poderosa atração de seu corpo, reentrava na atmosfera em que ela respirava — invasão em forma de fogo e risco de luz — pedaço de metal incandescente a penetrar na pele da amada… Saudade que se apagava em choque e explosão, amor e paixão…
A energia e o ar de meu módulo aos poucos se esvai… Por meus pelos, o calor se retira da pele, começo a sentir o frio a me invadir, até que o frio se torna meu, antes que deixe de respirar… Ser sem vigor, aberta sorte, circulo pelo Espaço a conhecer o belo mistério da morte…
*Em 3 de novembro de 1957, um mês após a missão do Sputnik1, os soviéticos mandaram o primeiro ser vivo ao espaço: a cadela Laika. O Sputnik 2 deu 2.570 voltas à Terra e ficou 162 dias em órbita. Queimou-se ao tocar na atmosfera terrestre em 14 de Abril de 1958.
Eu me lembro de Agosto antes de você. Era o mês indeciso — por vezes úmido, outras vezes, seco; meio quente, meio frio; a luz inclinada a festejar as cores mais absurdas no entardecer. Mesmo os tons de cinza eram mutantes e se percebia o Sol a brincar de esconde-esconde com quem quisesse vê-lo.
Agosto forçava o reinício dos ciclos escolares e abertura do segundo semestre. Desde pequeno, demarcava a volta para o ambiente onde encontrava os meus desiguais. A minha vida de rapaz só tinha futuro, lá adiante, igualmente a gosto quântico — indefinível…
Anos passados por mim, noivei em Agosto e, quase uma volta inteira em torno do Sol após, aconteceu você. Horas antes do Dia dos Pais, então. Preanunciada meses antes, nomeada antes de vir à luz, Romy — a primeira dos Oliveira Ortega. Veio como tinha que vir, inesperada-esperada, carreando tanta energia que mudou tudo ao seu redor.
Este mês, de remediado, se transformou em intenso. Passou a ser o primeiro do resto da minha existência terrena, aquele que me fez homem-pai. Como é incrível perceber o quanto você cresceu, além de qualquer expectativa. Como é inimaginável saber que você sente, além dos nossos pobres sentidos, toda a dor do mundo. Como é extraordinário vê-la renascer, mergulho após mergulho na profundidade do organismo, no ser que é.
Como é insólito conhecer um ente mitológico em plena modernidade — uma leonina Fênix. Como é um privilégio poder amá-la e testemunhar o amor a reverberar para além da linha do horizonte, sem obstáculo a lhe impedir. Como é bom, Romy, ser o seu pai!
“A minha irmã acompanha o programa Sr. Brasil, com Rolando Boldrin, mais uma forma de homenagem à minha mãe, que adorava assisti-lo nas manhãs de domingo. Em certa passagem, o grande Boldrin conta sobre um padre que vê um caboclo adentrar à sua igreja à luz do dia. O padre pergunta ao tal: ‘Veio confessar?’ — Ao que o sujeito responde: ‘Não! Tô esperando juntar…’. Agora, eu pergunto: quantos pecados devemos juntar até nos redimirmos, afinal?”
Logo à frente, nesse caminho, se encontra um retiro da IgrejaCatólica, ao qual eventualmente comparecem grupos de jovens e seminaristas. Eu mesmo, quase ingressei na Igreja como seminarista franciscano. A minha intenção era utilizar a sua máquina para cumprir a missão ao qual havia me proposto — ajudar ao próximo e buscar a trilha da humildade e da renúncia. Estudante de História, não desconhecia os desmandos da instituição, onde a Inquisição foi apenas um dos aspectos mais marcantes e cruéis.
Ainda continuo franciscano, mas casado, com três filhas, não participo de agremiações religiosas e faço de minha profissão de fé uma barafunda de ensinamentos de todas as vertentes e cantos do Mundo. A Luz tem muitas perspectivas.
Frida e eu, em 2017
“Não sou Diego Rivera, mas Frida me ama… Neste estranho mês de julho, tenho pensado muito em minha mãe, que nasceu neste mesmo mês, há 85 anos. Ela está conosco apenas em espírito desde 2010. Por uma dessas ‘coincidências’, chama-se Madalena, o mesmo nome de Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, que nasceu na mesma data de 6 de julho, 25 anos antes que a menina Nuñes Blanco. Frida, a minha, tem uma personalidade a ser desvendada por nós, que convivemos com esse ser com ‘olhinhos de avelã’, como dizemos. Todas as ‘nossas cãs’ tem nomes fortes —Penépole (de Ulisses), Domitila (de Castro), Maria Bethânia (cantora) e Lolla (Corra) Lolla. São coisas do surrealismo que é viver…”.
Na legenda acima, fiquei pensando no que quis dizer exatamente com a correlação entre os nomes inspirados em artistas e o Surrealismo. Está certo que o movimento se caracterizava pela expressão livre do pensamento, regrada somente pelos impulsos do subconsciente, aparentemente desregrado. Eu me lembro do tempo em que os nomes dos nossos companheiros peludos se restringiam à características físicas que apresentavam ou referências normalmente episódicas. Creio que a crescente sensibilização quanto aos bichos de estimação nos trouxeram para mais perto da naturalização de nossas relações. Ou, segundo eu creio, para a nossa natureza animal ou anímica. Surreal?