02 / 07 / 2025 / Calma*

A minha sobrinha, Verônica Ortega, lançou ontem o clipe da música “Calma”, composta num momento em que precisava compreender como se colocaria diante de tantas tribulações pelas quais passava. Como já aconteceu comigo mesmo em textos e poemas, “Calma” foi recebida como resposta em forma de canção. A Pandemia apenas acentuou situações que recrudesceram as nossas mazelas e nunca o brasileiro sentiu como agora a necessidade de parar, silenciar, entrar em contato com o seu tempo pessoal e continuar a andar.

Para quem quiser entrar em sintonia com uma mensagem de paz, assista ao clipe com a participação especial de Malagueña, o Fusca 1973, cor verde místico.

Ou ouçam pelo Spotify.

*Postagem de 03 de Junho de 2022.

10 / 03 / 2025 / Nego Véio

O Nego Véio se foi. No final do mês, iria completar dois anos conosco. Já um tanto debilitado pela idade que deveria passar dos 15 anos, sobreviveu a sua vida toda sendo um cachorro de rua. Vivia antes pelas ruas internas da Maternidade de Vila Nova Cachoeirinha, onde a Tânia trabalhou por algum tempo. Acarinhado por muitos, recebia sempre um afago na cabeça e algum petisco para beliscar. Como ficara cego, pela catarata avançada, estava atrapalhando a circulação das pessoas e talvez não se apresentasse como exemplo de hóspede que o hospital acolhesse sem receber certa apreensão em quem não conhecia. Provavelmente veio da comunidade ao lado dele e acolhido de alguma forma pelos funcionários, tornou-se uma personagem do lugar. Magro, nos últimos dias, deixou de se alimentar e mais do que nunca passou a nos chamar para ser erguido de onde estivesse caído. Uma das coisas que o impelia a pedir ajuda era o de não querer urinar ou defecar onde dormia. Então, foi comum nas últimas semanas eu ficar vigilante até tarde da madrugada para impedir que se prolongasse os seus pedidos latidos.

A Tânia dormiu mal por vários dias, assim como eu. Nestes últimos dois, ele ficou na sala da TV, sendo acompanhado por mim que, depois de tantos anos tendo bichos, percebia que ele não resistiria muito mais tempo. Não conseguia mais andar, coisa da qual gostava, ainda que não enxergasse, mesmo que de forma claudicante. Percebemos que sentia dores através de seus lamentos e respiração ofegante. Começamos a medicá-lo para minimizar o seu sofrimento, até que na madrugada de 09 para 10 deixou de respirar em posição relaxada, deitado de lado, maneira que era rara, pois sempre apoiava a cabeça entre as patas, como se estivesse sempre alerta. Quando o trouxemos para casa, sabíamos que não viveria muito mais, porém a sua resiliência era dos bravos, daqueles que não se entregam tão facilmente. Queria tê-lo conhecido desde que nasceu, fico imaginando as suas tribulações e percalços de cão abandonado e acredito que fizemos a coisa certa ao recebê-lo. Que possa continuar a explorar como gostava todos os cantos do Universo, Nego Véio!

O Garoto Atormentado*

Corria o ano de 1986 e uma canção da banda inglesa The Smiths começou a tocar seguidamente no rádio. Depois, o videoclipe tornou-se hegemônico e, apesar de simples, o amei desde o início. O título assaltou-me feito um ladrão – The Boy With Torn In His Side. O arranjo com a guitarra de Johnny Mars me carregou, a melodia me envolveu e a voz de Morrissey se tornou a minha voz. Eu era um adolescente com a idade física de 24 anos, bastante imaturo em termos emocionais. A letra da canção, ainda que mal traduzida por meu inglês claudicante, revelava meus sentimentos mais profundos. Às lacunas incompreensíveis, preenchia com termos pessoais.

O rapaz imberbe e virgem sentia realmente como se um espinho o atravessasse de fora a fora, se bem que a tradução literal poderia ser substituída por “atormentado” ou “que carrega um fardo”. Porém, a imagem de algo a lhe causar dor a cada movimento se adaptava muito bem à minha condição. Eu estava decididamente sem rumo e pronto para empreender qualquer coisa que me salvasse de mim.

Eu tinha medo de amar. Tinha medo que o meu amor não me amasse. Como um mediano jogador de xadrez, antecipava as jogadas até certo ponto, sem conseguir mover as peças em direção à vitória. No meio do caminho, perdia a vontade de jogar ao saber que, para vencer, deveria matar o rei. E eu ainda não tinha desistido dele, como fiz anos mais tarde.

Dali a dois anos, minha vida mudaria para sempre. Encontraria o caminho para amar de uma maneira que seguiu um roteiro estranhamente conhecido, como se fosse um texto que tivesse lido na adolescência, quando era um adulto e imaginei seguir as linhas do enredo da maioria – namorar, casar, ter filhas (o argumento original previa que seriam três), casa: família.

Tal qual o garoto de Marr & Morrissey, que cria que seus olhos diriam tudo – que por trás do ódio havia um intenso desejo de amar e se entregar – que ao dissimular seus passos, deixava rastros, esperei encontrar alguém que fizesse com que me movesse em direção à grande aventura de amar. Encontrei mais gente pela trilha, como as minhas crias, que são mais e melhores do que eu. Recuperei a conexão familiar original, excetuando-se a com meu pai, que foi se deteriorando cada vez mais. Se o amor ganhou significado, sinto ser incompleto em sua abrangência. O que talvez seja inato para alguns, para mim é um andejar em direção a algo que ainda estou a aprender a viver… Ainda que tenha matado o rei, sei que não venci a partida…

*Texto de 2015