07 / 09 / 2025 / Um 7 De Setembro

“7 de Setembro de 2021. Enquanto a tarde se desvanece, fico a pensar o quanto caminhamos para nos perdermos nesta encruzilhada a que chegamos. As pessoas que escolheram ir em direção ao abismo, mesmo que tenham perdido acompanhantes — os que pararam no meio, os que voltaram ou mesmo aqueles que buscaram outras veredas — querem que todo o povo despenque junto com elas, obedecendo a um líder insano, que deseja o aniquilamento de todos os progressos já realizados. Essa matriz assassina-suicida abomina a convivência entre os diferentes. Como somos um povo de vários matizes, deseja eliminar a diferença pela morte dos desiguais, dos excluídos, dos empobrecidos, das identidades multigêneros, das maiorias minoritárias em termos de poder de expressão. A minha expectativa, nem tenho mais esperança, é que o dia seguinte aconteça, aurora e crepúsculo, passando pelo pico solar. Que as crianças, como as que vejo agora, continuem a ter como única preocupação num feriado nacional, empinar pipas impulsionadas pelo vento refrescante que nos envolve agora. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”…”.

O texto acima retratava a situação que vivíamos então, com a Pandemia fazendo o seu papel demolidor de certezas quanto ao mundo que conhecíamos e quanto continuação da Democracia como modelo de governo, atacada que estava sendo pelo então governante máximo do País, o Ignominioso Miliciano. Como a Terra é arredondada (levemente achatada nos Polos) ao contrário do que estava sendo alardeada pelo negacionistas que afirmavam que fosse plana (!), além do mais grave — negação de que vacinas salvam. Aliás, o atual responsável pela Saúde dos estadunidenses faz a mesma afirmação e combate a vacinação de maneira decisiva. Um retrocesso impensável produzido pelo movimento de Direita que, de forma impressionante, parece estar intrinsicamente associado a ignorância como estratégia de aliciamento dos não pensantes, talvez o maior número de pessoas — e olha que isso vai contra à minha tendência em pensar de forma sempre positiva sobre a Humanidade.

Procurada — Morta Ou Viva

Mad Abigail

Estive em um hotel do Centro de São Paulo para a realização de um evento. Ao entrar em um dos ambientes para ir ao banheiro, encontrei pendurado em uma pilastra um quadro “decorativo” que reproduzia um folheto aparentemente original de “Procura-se” (em inglês), daqueles famosos que já vimos em filmes de Faroeste. Diferentemente dos bandidos retratados — ladrões, homicidas do gênero masculino, estava uma mulher. Seu nome: Mad Abigail. De início, achei a quantia da recompensa alta demais — $ 6.000 (dólares) — para pegar a tal de Abigail, a Louca. Imaginei que se tratasse de uma chefe de quadrilha de assaltantes, matriarca de um bando de filhos e sobrinhos bandidos ou uma pessoa acusada de um crime hediondo, talvez uma assassina de criancinhas, sei lá…

Outro detalhe que achei interessante é que Abigail poderia ser levada às autoridades “Morta ou Viva” e não o contrário. A perigosa e louca Abigail, eventualmente para impedir sequer que fosse julgada por seu horrível crime, bem melhor seria que estivesse morta. Mesmo porque, o indefeso macho que a prendesse correria o risco de ver-se apunhalado pelas costas se se distraísse um pouco que fosse. Afinal, estava ali alguém que cometeu o maior dos pecados: o mariticídio — ela matou o marido. Se ela fez isso, seria capaz de qualquer coisa. Sendo que o uxoricídio (quando o marido mata a mulher) era não apenas aceitável, como até garantido por lei. Até pouco tempo antes, por qualquer motivo que fosse, aqui no Brasil um sujeito também era absolvido desse crime sem maiores delongas.

Tentei pesquisar sobre a tal tenebrosa figura. Se o cartaz não foi inventado, com engenho e arte, quem sabe encontrasse maiores informações. Não consegui. Na pesquisa por nome que fiz, não houve resultado. Incluí a por imagem e foram feitas referências ao bulbo da luz e ao estilo do cabelo, nada mais. Depois, percebi que de qualquer forma não encontraria a contestação da acusada. Não importa que fosse torturada, surrada, ferida, maltratada, nada justificaria matar o homem que tinha como esposo. Isso chancelaria o poder de vida e morte ou morte em vida da esposa, além de não a caracterizar como uma vítima que tenha se rebelado contra o pesado jugo do macho dominante. A melhor alternativa mesmo foi chamá-la de louca e Mad, Abigail se tornou.

Naturalmente, as circunstâncias da morte envenenamento, arma de fogo, faca, facão, machado, paulada, empurrão de um penhasco, escada ou até morte acidental — de nada sabemos. Caso o cartaz seja fake, ainda assim não duvido que alguma mulher “enlouquecida” por maus tratos não tenha se insurgido contra seu opressor. Outra particularidade que me chamou a atenção era que se tratava de uma foto ou baseada em uma foto em que a acusada se apresentava bem arrumada, talvez uma mulher de boa posição social, citadina, não alguém que vivesse em lugar tão longínquo que os olhos da lei não alcançassem, o que daria maior liberdade de atuação para quem tivesse qualquer desvio de comportamento, ainda que a violência fosse um traço comum no desenvolvimento das sociedades humanas. Nessa circunstância, o morto poderia pertencer a uma família influente, o que justificaria o valor do prêmio. Atualizado, caso não tenha me enganado, passaria de 1 milhão de Reais.

Enfim, se uma ou muitas Mad Abigail tenham existido, esse cartaz (caso seja originalmente real) é uma prova que viria a demonstrar que uma mulher que matasse um homem e, principalmente seu marido, ainda que fosse em legítima defesa, se tornaria uma inimiga que ameaçaria o status quo de uma estrutura em que o macho deveria ser protegido contra a sanha revoltosa de uma mulher. Assim como não acontece no sentido oposto até hoje. Com certeza, Abigail era uma corajosa desvairada…