BEDA / Amor Próprio

Ouvi uma canção em que o refrão o cantor expressa: “Eu gosto mais de você do que de mim”. Às vezes, eu entro nessa seara de analisar frases soltas, situações que se desenvolvem diante de mim como se tentasse entender como funcionam as relações humanas. Eu fiquei afastado voluntariamente das pessoas durante alguns anos. Favoreceu esse comportamento por causa de circunstâncias em que passei temporadas sozinho em casa na adolescência porque a minha mãe estava cuidando da madrasta do meu pai e após o seu falecimento, meus irmãos foram morar com ela na casa distante 2Km de onde vivia. Durante esse período mergulhei fundo nas filosofias orientais e desenvolvi alguns sintomas que se assemelharam à síndrome do pânico. A minha timidez ficou mais profunda e foi com muito esforço que consegui sair desse processo penoso isolacionista.

Nessa época, fui desenvolvendo uma autocrítica em que só via defeitos em minha personalidade. Afora um sentimento de inadequação que me impediria de que eu viesse um dia a ter algum relacionamento amoroso. Cheguei a flertar com a vida monástica, ainda que não fosse católico. Mas era cristão e franciscano, desejei ser frei. Acabei por começar a acalentar a ideia de me jogar na vida através do encontro com uma mulher. Com ela, formei uma família e fico feliz por amá-la como algo que apesar de ter nascido de mim, é bem melhor do que eu poderia desejar. Mas o meu amor próprio ainda enfrenta percalços se bem que defenda os meus defeitos com bravura de quem precisa deles para se reconhecer. Nesse caso, minha autoestima considero um tanto precária e percebo que gosto mais das minhas meninas do que eu de mim.

Mas sei que se eu não me dedicar à minha melhora como pessoa, não conseguirei ser amoroso comigo mesmo o suficiente para que o meu amor pelos outros seja valorizado. Amar é uma dádiva tanto para quem ama como para quem recebe esse amor. E deve ser cultivado para que floresça tanta interna com externamente, não importando as variações quanto a questão de gêneros.

Foto por Katerina Holmes em Pexels.com

BEDA / Rasga-Lixo

Rasga-lixo

Já ouvimos várias vezes alardeado que nós, brasileiros, temos “complexo de (cachorros) vira-latas” – termo criado por Nelson Rodrigues a se referir sobre a nossa baixa autoestima como povo. Ele versava principalmente sobre o futebol, então (anos 50) acostumado sempre a quase ganhar e que não reconhecia seus grandes predicados para vencer. Superamos o nosso complexo de vira-latas no esporte bretão – fomos 5 vezes campões do mundo no futebol. Porém, ainda não conseguimos superar a nossa antiga condição de vira-latas, se bem que não haja mais latas para receber o lixo que produzimos colocadas fora do portão.

Eu me dei conta disso quando vi um cachorro rasgar sacos de lixos deixados na calçada, na busca de comida. Nunca mais vi, pelo meu bairro ou em qualquer outro, latas ou quaisquer tipos de recipientes particulares para conter os nosso restos. E a causa é simples de explicar – com o tempo, as latas são levadas-roubadas. Eu me lembro quando se deixava vasilhames de leite e pão nas portas das casas e não eram tocados. Éramos, então, um país muito mais pobre economicamente, contudo isso não constituía motivo para que o nosso cotidiano fosse tão incivilizado. Portanto, não é uma questão de baixo autoestima, mas de autoavaliação: atualmente, somos um povo “rasga-sacos de lixo”…