BEDA / Abertura

você diz que quer fazer a minha mente se perder
a cada palavra expressa do seu desejo
partes de mim respondem excitadas
atinge o meu peito que arfa em comoção
aguardada mas nunca esperada de tão rara
abre um sorriso na minha cara
e isso é mais do que sorte
gosto de beijar como pelas ondas a areia
e de ser beijado como pelo vento o mar
em fluxo e refluxo
de entrar e sair
de me deixar e me encontrar
seguir pela estrada aberta
até aquela praia deserta
onde nos deitaremos no arenoso manto
o sal a nos santificar
o sol a nos invadir em calor e luz
nós mesmos a nos devassarmos
a nos preenchermos
de silêncio ofegante
banhados de suor
e alegria por estarmos vivos
enfim serenos e plenos
em nome da paixão
do gozo
e do corpo santo
amém…

Foto por Asad Photo Maldives em Pexels.com

Participante do BEDA: Blog Every Day August

Denise Gals / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Bob F / Suzana Martins / Cláudia Leonardi

O Ar*

Quantas montanhas tiveste que escalar
para chegar até aqui e agora, neste patamar?
Por quantos vales tiveste que passar?
Por quanta lama tiveste que chafurdar?
Quantas mentiras tiveste que revelar?
Quantas verdades tiveste que relevar?
Quanto amor tiveste que reivindicar?
Quanto amor tiveste que recusar?
Para ser o que és, quanto ódio tiveste que provocar?
Quanto ódio tiveste que aceitar?
Quantas vezes pintaste a boca de carmim para beijar?
Quanta boca carmim procuraste para borrar?
Quantas vezes tiveste o bom senso de evitar
o desejo que te condenaria ao eterno regurgitar?
Quantas vezes tiveste a loucura de se entregar
ao fogo que te salvaria do instante perpétuo de amar?
Quanto ar tiveste que respirar
para simplesmente, no fim, o expirar?

*Versos de 2015.

O Vício

O Vício

Enxerguei a bituca sem filtro
grudada na soleira.
A peguei e a acendi.
À fumaça, o meu pulmão recebeu
como a uma querida amiga antiga,
nunca esquecida.

Morto de sede,
absorvi as últimas gotas do copo abandonado
na mesa do bar.
Me senti embalado pelo odor remanescente de álcool.
Todos os anos de abstinência que me impus
se desvaneceram sob o império do vício
nunca debelado.

Compartilhei da agulha do adicto solidário.
Inoculei para dentro das veias a dor
bela e mortal de se perder.
A invasão do mal me alegrou.
Finalmente, me senti o ser mais vivaz —
aquele que está à beira da morte.

O gosto de sangue,
vampiro retirado e arrependido,
arremeteu em minha boca —
voltei a sorver,
voltei a matar,
voltei a amar…
Bastou reencontrá-la…
Bastou beijá-la…